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·26. Mai 2026
Dez dias, dez dias úteis, dez versões: o jornalismo desportivo de novela

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Há uma arte que a comunicação social desportiva portuguesa domina com mestria: inventar, não ser desmentida, e transformar o silêncio em confirmação. O caso Mourinho no Benfica é o exemplo mais recente, e mais grotesco, desta prática.
Durante semanas, os mesmos jornalistas e os mesmos programas repetiram, com a confiança de quem tem fontes sólidas, que existia uma cláusula de saída no contrato do treinador com o clube onde estava. Primeiro eram três milhões de euros. Depois passaram a sete. Agora fala-se em quinze. Ninguém foi responsabilizado por uma única destas afirmações contraditórias. Ninguém apresentou o contrato. Ninguém citou uma fonte identificável.
Depois vieram os prazos. Os famosos dez dias. Dez dias após o quê, exactamente? Após o último jogo? Após a época terminar? Afinal não, agora são dez dias úteis. E a contagem recomeçou, como se nada tivesse sido dito antes. Flick. Flack. Segue em frente.
Enquanto isto acontecia nas televisões, o Benfica não estava parado. Há reuniões. Tinha dois cenários de trabalho em cima da mesa, conforme a qualificação para a Liga dos Campeões ou para a Liga Europa. Há uma estrutura a funcionar. O clube tem treinador, tem calendário e tem objectivos definidos. Mas isso não dá audiência, não alimenta horas de emissão e não justifica painéis com quatro comentadores a contradizerem-se ao mesmo tempo.
O mais revelador de tudo isto é o que acontece quando o Benfica esclarece algo publicamente: a resposta de parte da imprensa é dizer que é o clube que está enganado. Que são eles, os jornalistas sem contrato à vista, que conhecem melhor os termos do acordo. A arrogância seria cómica se não fosse tão sistemática.
Não é difícil perceber o mecanismo. Lança-se uma informação. O clube não comenta, como é seu direito e prática habitual. O silêncio é lido como confirmação. A informação circula. Quando os factos a desmentem, arranja-se uma nova versão e continua-se. De manhã diz-se uma coisa, ao meio-dia outra, e ao fim do dia o contrário de ambas.
O Benfica não precisa de se defender desta novela. Precisa, isso sim, de continuar a trabalhar, que é o que está a fazer. Quem perde tempo e credibilidade é quem a alimenta. E quem a consome sem questionar, esse, esse é que tem um problema maior.
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