Calciopédia
·27. Januar 2026
Em 2012, o Napoli brilhou, mas amargou sofrida virada para o Chelsea na Champions League

In partnership with
Yahoo sportsCalciopédia
·27. Januar 2026

Nas oitavas de final da Liga dos Campeões de 2011-12, o duelo entre Napoli e Chelsea entrou para a história pelo seu desenrolar. Quando o sorteio colocou italianos e ingleses frente a frente, havia grande expectativa pelo choque de times em momentos bem distintos. De um lado, os azzurri viviam sua fase mais consistente desde os tempos de Diego Armando Maradona, impulsionada por um projeto técnico sólido, por um trio ofensivo no auge e pela sensação de retorno definitivo ao centro do futebol europeu; do outro, os Blues estavam em crise e eram sustentados mais pela experiência e pela qualidade de seu elenco do que por convicções coletivas claras. O confronto ficou marcado por uma virada improvável na prorrogação do jogo de volta, que frustrou os partenopei e serviu de combustível para a campanha que levaria os britânicos ao primeiro título continental de sua história.
O Napoli que disputou a Champions League de 2011-12 era fruto direto da evolução iniciada sob Walter Mazzarri. O terceiro lugar na Serie A 2010-11 representara a melhor campanha do clube desde a era Maradona e carregava consigo números que traduziam esse salto competitivo: 70 pontos, recorde absoluto do time na era dos três pontos por vitória, 21 triunfos totais – igualando a campanha do scudetto de 1989-90 – e nove vitórias fora de casa, marca inédita. No plano individual, Edinson Cavani era o protagonista máximo, com 26 gols no campeonato e sete na Europa League, superando um recorde de bolas na rede forjado por Antonio Vojak, que resistia desde a década de 1930. Ao seu redor, Ezequiel Lavezzi e Marek Hamsík completavam um tridente que misturava intensidade, imprevisibilidade e técnica, completando uma equipe que tinha como identidade clara a solidez defensiva e a capacidade de ser letal no ataque.
Esse conjunto foi lançado a uma chave duríssima na Liga dos Campeões, ao lado de Bayern de Munique, Manchester City e Villarreal. O desempenho napolitano confirmou a maturidade do projeto: dois empates por 1 a 1 contra alemães e ingleses, vitória sobre os espanhóis e uma classificação conquistada com 11 pontos, apenas um a mais que o rival britânico, ficando atrás apenas dos bávaros no Grupo A. Nem mesmo a derrota em casa para os Roten tirou dos azzurri a vaga no mata-mata continental. O Napoli chegava às oitavas não como figurante, mas como equipe capaz de medir forças com qualquer adversário. E seu rival seria o Chelsea.
O time inglês, por sua vez, atravessava um momento bem menos linear. O Chelsea lidava com a saída de Carlo Ancelotti, incapaz de repetir no segundo ano o sucesso absoluto do primeiro – no qual levantou os títulos da Premier League, da FA Cup e da Community Shield. Em 2010-11, os Blues foram eliminados nas quartas da Champions League e foram vice-campeões nacionais, o que levou à demissão do italiano e à aposta em André Villas-Boas, recém-saído do Porto e carregado da expectativa de reproduzir o impacto de José Mourinho em Stamford Bridge.
No fim do primeiro tempo, Cavani virou o jogo de ida para o Napoli (Getty)
No cenário doméstico, porém, os resultados negativos minariam rapidamente a sustentação do português. Ainda assim, no plano continental, os Blues encontraram algum alívio: a vitória por 3 a 0 sobre o Valencia na última rodada garantiu a classificação e o primeiro lugar do Grupo E, com 11 pontos, à frente do Bayer Leverkusen e dos espanhóis. O Chelsea chegava às oitavas sustentado mais pela tradição e pela experiência do que por convicção coletiva. Villas-Boas, por sua vez, se agarrava ao cargo por um fio.
O jogo de ida, no San Paolo, evidenciou as diferenças entre os times. O Chelsea até saiu na frente, mas rapidamente sentiu o peso do ambiente. Antes de balançar as redes, os Blues já haviam sido salvos por Petr Cech em duas intervenções decisivas, diante de Cavani e Christian Maggio, aos 9 e aos 18 minutos, respectivamente, enquanto os londrinos não conseguiam controlar as ações iniciais. Quando o Napoli se mostrou nervoso, o visitante aproveitou: em erro grosseiro de Paolo Cannavaro, que espirrou o taco ao tentar cortar um passe simples, Juan Mata foi implacável e, deslocando Morgan De Sanctis, abriu o placar aos 27.
O gol, paradoxalmente, serviu como gatilho para a reação napolitana. Mazzarri, suspenso, vivia a partida à distância, à beira de um ataque de nervos em um quarto de hotel, fumando compulsivamente, enquanto seu auxiliar Nicolò Frustalupi tentava reorganizar uma equipe que parecia desligada. A resposta veio rapidamente: Lavezzi, em jogada individual, tirou a zaga do Chelsea do lance com uma bela condução e, da entrada da área londrina, bateu seco, sem chance para Cech, aos 38 minutos. O San Paolo explodiu, e o Napoli despertou de vez para o confronto.
Logo depois do empate, Ramires teve a chance de marcar o segundo do Chelsea, mas bateu muito mal, por cima do gol. O fato é que, embora o time inglês ainda estivesse vivo no jogo, suas fragilidades ficaram expostas. O investimento superior não se traduzia em solidez técnica. A defesa já não era intransponível, Cech dava sinais de declínio, apesar de intervenções fundamentais, e Didier Drogba desperdiçava chances que antes resolvia com naturalidade. O Napoli aproveitou tudo isso e virou o jogo ainda antes do intervalo: após cruzamento preciso de Gökhan Inler, Cavani foi oportunista e, de ombro, colocou os azzurri em vantagem. A atmosfera se tornou sufocante, e a pressão sobre os ingleses aumentou.
Cavani, Hamsík e Lavezzi, os três tenores do Napoli, comandaram noite de gala no San Paolo – com maior destaque para o argentino (Getty)
No segundo tempo, o roteiro seguiu favorável aos napolitanos. O Chelsea tentou assumir o controle, avançando de maneira desordenada e sem clareza tática, fazendo com que De Sanctis colecionasse várias defesas sem dificuldade – a melhor chance dos Blues foi com Drogba, que acabou desarmado por Salvatore Aronica na frente do goleiro.
Do outro lado, o Napoli se organizava para explorar os contra-ataques. Foi assim que o placar se ampliou, aos 65 minutos: Cavani aproveitou vacilo de David Luiz, que permitiu sua aproximação, dividiu com o brasileiro e conseguiu o toque que deixou Lavezzi livre para empurrar para o gol vazio, já que Cech havia deixado a baliza para reparar o erro do zagueiro. O 3 a 1 firmado por El Pocho transformou o que parecia uma noite tensa em festa absoluta, embalada por “’O Surdato ’Nnamorato” cantada a plenos pulmões pela torcida – e a farra só não foi maior porque, aos 80, Ashley Cole cortou em cima da linha uma finalização de Maggio, que completou bela jogada de Hamsík.
O Napoli não sofreu após fazer 3 a 1 e viajaria para Londres com vantagem confortável e a sensação de ter imposto sua superioridade ao poderoso adversário inglês. O contexto do jogo de volta, porém, mudou radicalmente antes mesmo de a bola rolar – e essa virada de chave foi decisiva para a eliminatória. Villas-Boas já não era mais o treinador do Chelsea, uma vez que foi demitido após derrota para o West Bromwich, na Premier League. Em seu lugar, assumiu interinamente o seu auxiliar, Roberto Di Matteo, italiano com história no clube e relação direta com os chamados senadores do elenco. A troca no comando técnico simbolizou uma mudança de eixo: os Blues passariam a se apoiar na experiência e no peso de seus líderes, que se renovaram com o novo professor.
Em Stamford Bridge, o cenário foi outro. O Chelsea venceu por 3 a 1 no tempo normal, igualando o placar agregado, e confirmou a virada com um 4 a 1 na prorrogação, anulando a atuação de gala do Napoli – que ficou na memória da torcida como um daqueles “e se…” do futebol. Os gols no tempo regulamentar vieram justamente dos pilares do elenco: Drogba, John Terry e Frank Lampard; sendo que os dois últimos não haviam começado jogando no San Paolo. No tempo extra, Branislav Ivanovic anotou o tento decisivo. O desempenho coletivo foi tão sólido que os Blues dominaram a maior parte da partida, com atuações destacadas de Ivanovic, Ramires, Lampard, Drogba, Terry e David Luiz.
O Napoli se mostrou frágil nos cruzamentos e foi castigado pelo Chelsea em Stamford Bridge (AFP/Getty)
Desde o início, o Chelsea se mostrou agressivo. Logo aos 5 minutos, Daniel Sturridge assustou com chute defendido por De Sanctis. O Napoli respondeu aos 9, com um arremate de Hamsík que Cech defendeu com as pernas e, já na casa dos 12, em contra-ataque, com Cavani completando cruzamento rasteiro de Maggio, mas mandando para fora com o gol aberto. Em seguida, foi a vez de Lavezzi parar no arqueiro com uma conclusão que não saiu do jeito que o argentino gostaria. O jogo se desenhava como um duelo de estilos: os ingleses controlavam a posse e o território, enquanto os italianos apostavam nas transições rápidas.
Aos 28 minutos, o Stamford Bridge explodiu. Cole acionou Ramires pela esquerda, e o brasileiro cruzou com precisão para Drogba se antecipar a Aronica, mergulhar de peixinho e fazer 1 a 0. O Chelsea cresceu ainda mais, criando chances pelos lados, com Mata e Ramires oferecendo mobilidade e Drogba quase ampliando em cruzamentos sucessivos – Hugo Campagnaro e Cannavaro efetuaram cortes providenciais, evitando que a bola chegasse ao marfinense. O Napoli passou a chegar menos, e o domínio inglês se acentuou até o intervalo, apesar de uma escapada em que Inler puxou contra-ataque e deixou Cavani em condição de finalizar.
O segundo tempo começou com novo golpe londrino. Em cobrança de escanteio de Lampard, Terry se antecipou a Campagnaro e cabeceou de forma angulada, sem chances para De Sanctis. O 2 a 0 classificava o Chelsea, mas o Napoli mostrou resiliência de forma quase imediata – aos 55 minutos, em sobra de cruzamento de Andrea Dossena, que ainda na etapa inicial havia substituído Maggio e feito Juan Camilo Zúñiga trocar a ala esquerda pela direita. Após a zaga britânica afastar a bola para a entrada da área, Inler a dominou no peito e acertou um chute forte da meia-lua, vencendo Cech e recolocando os azzurri em vantagem no confronto. O gol mudou o panorama emocional da partida.
O Chelsea sentiu o impacto, apesar de Ivanovic e Drogba terem feito De Sanctis aparecer com grandes defesas, aos 63 e aos 65 minutos. Di Matteo ainda tirou Fernando Torres do banco, colocando o espanhol no lugar de Sturridge. No entanto, o Napoli passou a ameaçar em contra-ataques, chegando perto de definir a classificação em chute forte de Zúñiga, defendido por Cech.
Decepção pura: o Napoli não conseguiu segurar a ótima vantagem construída em casa e sucumbiu ao Chelsea na prorrogação (Getty)
Ainda assim, a insistência inglesa nas bolas paradas – ponto frágil da defesa napolitana – acabou sendo decisiva. Em escanteio, Ivanovic cabeceou livre e a pelota encontrou o braço aberto de Dossena no meio do caminho. Pênalti claro e assinalado com convicção por Felix Brych. A cobrança foi convertida com firmeza por Lampard, aos 75 minutos. O jogo ia, assim, à prorrogação.
No tempo extra, o Chelsea manteve o controle. Ivanovic voltou a levar perigo em cabeceio logo no início, enquanto o Napoli respondeu com finalização perigosa de Hamsík, que completou com um potente voleio após jogada pela esquerda. Psicologicamente, o time italiano passou a sentir o andamento do duelo e a experiência dos ingleses falaria mais alto.
Aos 99 minutos, um erro de Campagnaro e De Sanctis, que se enrolaram na quina da grande área, quase resultou em gol de Torres, que desperdiçou grande chance ao concluir para fora, mesmo com o gol aberto. A superioridade inglesa, porém, se confirmou pouco depois, noutra falha coletiva da zaga azzurra. Ramires avançou pela direita, Drogba passou para o centro da área e Ivanovic, sozinho na marca do pênalti, acertou um chute potente no alto, marcando um golaço que decidiu a classificação e levou a torcida mandante ao êxtase. Pouco depois, o primeiro tempo da prorrogação terminou e, na prática, o confronto também, já que os partenopei não tinham fôlego nem cabeça para reagirem. Mais tarde, já aos 119, Drogba ainda desperdiçou uma chance para os donos da casa.
A eliminação gerou certo abatimento no Napoli, que ocupava o quarto lugar na Serie A e ainda brigava por vaga na Champions League – na época, os três primeiros se classificavam ao torneio. O rendimento dos azzurri caiu e o time encerrou a temporada em quinto. Porém, Mazzarri e seus pupilos encontraram redenção na Coppa Italia, infligindo à Juventus sua única derrota em 2011-12. O 2 a 0 na final representava o quarto título dos partenopei na competição e o primeiro troféu após mais de duas décadas. Já o Chelsea seguiu adiante na Liga dos Campeões, embalado por aquela virada improvável sobre um grande adversário e noutra sintonia sob o comando de Di Matteo: despachou o Benfica e o Barcelona antes de derrotar o Bayern de Munique nos pênaltis, em plena Allianz Arena, e levantar a orelhuda; mais tarde, os Blues perderiam a Copa Intercontinental para o Corinthians.
Napoli: De Sanctis; Campagnaro, Cannavaro, Aronica; Maggio, Inler, Gargano, Zúñiga; Hamsík (Pandev), Lavezzi (Dzemaili); Cavani. Técnico: Walter Mazzarri. Chelsea: Cech; Ivanovic, David Luiz, Cahill, Bosingwa (Cole); Raúl Meireles (Essien), Ramires; Sturridge, Mata, Malouda (Lampard); Drogba. Técnico: André Villas-Boas. Gols: Lavezzi (38’e 65′) e Cavani (45 + 2′); Mata (27′) Árbitro: Carlos Velasco Carballo (Espanha) Local e data: estádio San Paolo, Nápoles (Itália), em 21 de fevereiro de 2012
Chelsea: Cech; Ivanovic, David Luiz, Terry (Bosingwa), Cole; Ramires, Essien; Sturridge (Torres), Lampard, Mata (Malouda); Drogba. Técnico: André Villas-Boas. Napoli: De Sanctis; Campagnaro, Cannavaro, Aronica (Vargas); Maggio (Dossena), Inler, Gargano, Zúñiga; Hamsík (Pandev), Lavezzi; Cavani. Técnico: Walter Mazzarri. Gols: Drogba (28′), Terry (47′), Lampard (75′) e Ivanovic (105′); Inler (55′) Árbitro: Felix Brych (Alemanha) Local e data: Stamford Bridge, Londres (Inglaterra), em 14 de março de 2012









































