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·31. Mai 2026

FC Porto B cresce com exigência da equipa A, diz João Brandão

Artikelbild:FC Porto B cresce com exigência da equipa A, diz João Brandão

João Brandão encara a época da equipa B do FC Porto como um exercício pouco comum de equilíbrio: competir sem nunca perder de vista a missão de formar. Entre a melhor classificação igualada, uma média de idades mais baixa e a convivência constante com as exigências da equipa principal, o treinador fez o retrato de uma temporada exigente e marcada pela adaptação. No centro de tudo ficou a ideia que resumiu a conversa: “Saem deste ano muito mais preparados”.

No contexto específico de uma equipa B num clube como o FC Porto, a temporada é sempre vivida em dois ritmos: o do resultado imediato e o da construção paciente de jogadores para patamares superiores. Foi nesse espaço, entre a urgência competitiva da II Liga e a função estrutural de preparar para a equipa A, que João Brandão apresentou a sua leitura de um ano que considera positivo, insistindo numa palavra que percorre todo o discurso: preparação.


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Convidado a fazer um balanço global da época, o treinador juntou os números do rendimento colectivo àquilo que mais pesa numa equipa deste perfil: a evolução dos jovens e a capacidade de os aproximar da realidade principal do clube.

“É uma época positiva, porque conciliámos o resultado coletivo com o desenvolvimento dos nossos jovens. A valorização do quinto lugar, de igualarmos a melhor classificação e pontuação de sempre e termos tido, também, o maior número de vitórias desde que a liga se disputa a 18 equipas, ganha maior significado porque também lançámos 11 jogadores abaixo dos 18 anos.”, afirmou. “Também lançámos dois juvenis e baixámos a média de idades, que nos últimos anos tinha andado próxima dos 22 anos, para os 19. Tudo junto, faz uma época muito bem conseguida, nunca abdicando do grande propósito da equipa B, que é preparar os jovens para a exigência da equipa A. E acho que esse ponto também foi conseguido, com algumas estreias e outros que estão na porta de entrada.”

A imagem que deixa é a de uma época em que o resultado não apareceu desligado da formação, mas precisamente ao seu lado. É nessa conciliação, mais do que em qualquer dado isolado, que Brandão encontra a medida do sucesso e abre caminho ao tema seguinte: o tipo de futebol que esta competição obriga a aprender.

Questionado sobre a hipótese de essa adaptação tornar o jogo menos estético ou apelativo, João Brandão foi claro quanto à especificidade da II Liga e ao que ela exige a jogadores habituados a contextos mais dominadores na formação.

“O jogo que joga uma equipa dominadora como são as nossas na formação é diferente da II Liga, é muito específico: a dimensão física, os duelos, a organização defensiva, a forma como gerimos as incidências emocionais do jogo. E aí foi um ponto em que a equipa cresceu.”, explicou. “Leva a que eles tenham de ter uma fase de adaptação, mas também de crescimento. Saem do contexto da II Liga muito mais preparados para a profundidade do jogo na exigência da equipa A e no futebol profissional. Olhamos para isso sempre como um desafio e não um obstáculo, como uma oportunidade e não tanto como algo que nos pode inibir de termos um bom desempenho. Os jovens são muito valorizados e falados pela dimensão técnica, capacidade de desequilíbrio no momento ofensivo, mas saem deste ano muito mais preparados e com um leque muito maior de aptidão para o futebol profissional.”

Há aqui uma ideia forte: a II Liga não surge como travão, mas como oficina. Menos vitrina e mais aprendizagem dura, mais contacto com tudo o que o jogo tem de físico, emocional e táctico, numa formação que Brandão entende como decisiva para o passo seguinte.

Quando a conversa chegou ao arranque difícil da temporada, o treinador apontou vários factores e descreveu um período em que foi preciso alinhar metodologias, expectativas e foco competitivo num grupo particularmente jovem.

“Houve vários fatores que contribuíram. O início foi difícil porque há a chegada de uma nova equipa técnica à equipa A, com uma metodologia diferente. Havia que criar dinâmicas de utilização dos nossos jogadores no dia a dia e na necessidade de ajudarmos na preparação dos jogos deles.”, analisou. “Um processo de equilíbrio emocional e de foco que foi necessário fazer com os jogadores. Pelo que se vive hoje no futebol à volta destes jovens, a pressa que eles têm de abraçar novos desafios e dar os passos seguintes, foi importante pôr a cabeça no sítio e eles porem o foco total na equipa B. Depois, sendo uma equipa tão jovem e tendo tanta gente a vir do processo de formação, foi importante dar tempo e continuarmos muito resilientes e muito positivos no desenvolvimento destes jovens. Este processo adaptativo demora tempo, não há forma de o contornar.”

O diagnóstico afasta leituras simplistas sobre um arranque irregular e coloca a tónica na gestão humana tanto quanto na táctica. Mais do que esperar uma resposta imediata, Brandão descreve um trabalho de sedimentação, num ambiente em que a juventude pede tempo e a envolvente do futebol tende a negá-lo.

Foi quando entrou no detalhe do trabalho semanal que a singularidade do papel da equipa B ficou mais evidente. A convivência com a equipa principal, liderada por Francesco Farioli, obrigou a uma flexibilidade quase diária, por vezes sacrificando a preparação do próprio jogo.

“Dou o exemplo do nosso jogo com o Ac. Viseu, que coincidiu com o Sporting-FC Porto. Durante a semana, fomos chamados várias vezes a treinar com a equipa A, tendo nós dinâmicas e estruturas e comportamentos idênticos aos do Sporting. Isto leva a que o nosso jogo, a nossa preparação, não seja a prioridade.”, descreveu. “Chegámos a Viseu com um treino no qual olhamos para as nossas dinâmicas e a nossa forma de jogar. Toda a semana foi desenvolvida, quer ao nível do treino, quer ao nível de imagem, com comportamentos que não são os nossos. Para ser ainda mais preciso, por exemplo, num comportamento em bola parada, trabalhámos marcação homem a homem e o nosso princípio é à zona. Aconteceu, durante a semana, desenvolver uma linha de cinco, e depois chegarmos ao jogo e não ser essa a nossa estrutura defensiva, mas de quatro. Ou seja, há comportamentos, sejam eles macro ou muito mais individuais, como também aconteceu, que levam a que seja necessário adaptar algumas dinâmicas e estratégias. E, nesse aspeto, a equipa A, a B e a estrutura foram fundamentais para conseguirmos ir ao pormenor minimizar os efeitos colaterais desta fluidez e chamada constante de jogadores da equipa B.”

Brandão detalhou ainda a frequência com que essa colaboração aconteceu ao longo da época e a variedade de soluções encontradas para responder às necessidades da equipa principal.

“Sim, às vezes com uma equipa completa, noutras a nível setorial, ou mais individual.”

O treinador explicou depois de que forma esse trabalho era pedido pela estrutura da equipa principal.

“Podia chamar só a defesa ou a equipa completa para, principalmente nos dias aquisitivos da semana, desenvolvermos a oposição e o plano estratégico do adversário que defrontava a equipa A.”

Mais do que um simples apoio circunstancial, o quadro traçado é o de uma equipa B profundamente integrada no funcionamento diário do clube. Isso torna a semana menos linear, mais exigente e, ao mesmo tempo, mais próxima do que espera estes jogadores em contextos de alta competição.

Daí surgiu outra questão inevitável: até que ponto a equipa B também tinha de incorporar ideias ou princípios da equipa principal no seu próprio jogo. Brandão respondeu sem esconder a complexidade desse equilíbrio.

“Esse foi o grande passo que demos enquanto equipa técnica. Tivemos sempre grande capacidade adaptativa, capacidade de refletir, esmiuçar e preparar muito bem o próximo jogo, diferenciando o fundamental do acessório.”, sublinhou. “Para dar alguns exemplos: temos o nosso modelo de jogo e princípios, a nossa estrutura, os comportamentos que queremos ver desenvolvidos nos diferentes momentos do jogo, com bola, sem bola, situações de bola parada, transições, etc. Mas, depois, tínhamos de respeitar o que tinha sido a semana de trabalho, fosse a nível coletivo, setorial ou individual. Por exemplo, os nossos laterais treinaram, durante a semana na equipa A, projetados para dar largura e profundidade no corredor; e a nossa ideia são os laterais por dentro e de trás para a frente. Tínhamos de gerir o plano do nosso jogo, porque podia ser benéfico para nós os laterais estarem um baixo e outro mais projetado, mas tínhamos de ter em conta, também, o que tinha sido o processo durante a semana desse mesmo jogador.”

É nessa gestão entre identidade e circunstância que Brandão situa um dos maiores méritos da época. A equipa não deixou de ter um modelo, mas aprendeu a viver com desvios, ajustes e compromissos impostos por uma realidade em ligação permanente com a equipa A.

Perante a quantidade de informação e de estímulos diferentes que recaíam sobre jogadores tão jovens na mesma semana, o treinador recusou qualquer tom de lamento e preferiu voltar à palavra que mais repetiu ao longo da conversa: oportunidade.

“Olhámos sempre como uma oportunidade. Nunca nos agarrámos às lamentações e às desculpas, mas ao desafio de fazer melhor com o que temos.”, garantiu. “Olho para trás e vejo que a equipa técnica e os jogadores estão muito mais ricos ao nível do conhecimento do jogo, muito mais preparados para os desafios que o próprio jogo e o adversário nos cria, fruto deste processo. A diversidade de comportamentos que eles foram obrigados a entender e a desenvolver levou a uma flexibilidade a nível tático que, neste momento, é uma vantagem para nós, enquanto equipa, e para os jogadores para o seu futuro”

No final, a visão de João Brandão assenta menos na pureza do processo e mais na riqueza que ele deixa. Num ano feito de chamadas constantes, ajustes finos e aprendizagem acelerada, a equipa B do FC Porto surge, na sua leitura, como um espaço onde competir e formar não se anularam; empurraram-se mutuamente.

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