Portal dos Dragões
·26. Mai 2026
“O FC Porto não é só um clube de futebol, é das pessoas e representa uma região”

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João Costa descreve-se como “um jogador/adepto, como se fosse um museu com pernas” e entende que “é preciso ser um exemplo dentro e fora do campo, com tudo o que isso implica”, porque “em primeiro lugar, é preciso servir o FC Porto com alma e coração”. Em declarações ao jornal Público, o guarda-redes, a quem os colegas “chamavam o ultra da equipa”, assegura que “este Clube não é igual aos outros” e que “além da história, o que se vive no FC Porto é especial”: “Não é só um clube de futebol, é das pessoas e representa uma região”.
Depois de “concretizar um sonho” aos 30 anos, o guardião, cujo “trabalho é servir o FC Porto”, diz ter como objetivo “fazer de todos melhores jogadores e pessoas” e considera que “esta equipa será sempre lembrada como uma verdadeira equipa à Porto”: “Desde o primeiro momento desta época, vi que íamos ter uma equipa à Porto. Vi o quanto os meus colegas estavam dispostos a sofrer, quanto queriam vencer”.
Ao longo de uma longa conversa, João Costa deixa elogios rasgados a Diogo Costa, “um dos melhores guarda-redes do mundo e um amigo para a vida”, fala do grupo de guarda-redes do FC Porto como “uma pequena equipa dentro da grande equipa”, sublinha a importância de “fechar o círculo próximo dentro do balneário” e recorda com tristeza a morte de Jorge Costa: “Foi uma perda irreparável que nos trouxe dor que nunca sarará, mas que nós conseguimos transformar em energia, em força, em combustível para algo muito maior. Isso alimentou-nos ao longo do tempo, fez-nos estar unidos, fez-nos deixar todos os egos de lado.”
A estreia pela equipa principal“Eu cheguei ao FC Porto com sete ou oito anos e acho que todos os miúdos portistas que para cá vêm tão cedo têm este sonho. Para mim teve um significado acrescido: se chegar aqui já é difícil, sair, passar por tudo que passei e conseguir voltar e concretizar o meu sonho aos 30 anos tem um significado ainda maior. Receber a braçadeira de capitão acho que aumentou ainda mais a energia e força do momento. Usar a braçadeira no nosso clube é especial e só demonstra o tipo de pessoa que sou.”
Usar a braçadeira“É preciso ser um exemplo dentro e fora do campo, com tudo o que isso implica. Em primeiro lugar, é preciso servir com alma e coração. Além de ser um exemplo, elevar os outros, conseguir com que os outros sejam melhores profissionais e pessoas, conseguir também que eles rendam melhor dentro do campo. Acho que é um dom que eu tenho.
Ao serviço do Clube“O meu trabalho é servir o FC Porto. Foi um dos propósitos em vir para cá, não está ao alcance de qualquer jogador. Fi-lo de alma e coração, de uma maneira única, tanto para os mais velhos como para os mais novos. Tive milhares de conversas com o (Jan) Bednarek, o Thiago Silva e os jogadores mais novos. Se isso ajudou de alguma forma a termos chegado ao 31.º campeonato, fico muito orgulhoso e feliz.”
O jogo do título“No dia que fomos campeões, passei o dia todo indisposto e não ia jogar. Eu sabia que não ia jogar. Fiquei fora da convocatória, mas eu acompanho a equipa sempre, em todos os jogos e todos os estágios. Nem conseguia comer. Estava mal disposto. Acho que foi a primeira vez na carreira que me aconteceu aquilo. E neste jogo foi 100% ao contrário. Para mim eram os 30 minutos de uma vida. Tinha todos os motivos e mais alguns, pelo sentimento e pela grandiosidade do momento para mim, para estar ansioso e nervoso. O sentimento que eu tinha era de que tinha chegado o momento, preparei-me toda a minha vida e carreira para ele. Não havia maneira de não dar certo. Sei como trabalho, como me preparo, recupero e me importo com todos os detalhes.”
O jogo da consagração“Estava num momento de leveza total, de desfrutar e aproveitar todos os segundos dentro do campo. E não foi só dentro do campo, todos os segundos daquele dia eu desfrutei deles, desde as sete da manhã quando eu acordei até às quatro e meia da manhã, que foi quando acabou a festa dos Aliados. Desfrutei de todos os segundos durante esse dia, até não aguentar mais de pé.”
As opções para a baliza“Há várias maneiras de ver a coisa. Podemos ver por esse lado, o do comodismo de achar: «Vou lá, faço o meu trabalhinho e vou-me embora. Sei que nunca vou jogar e está feito». Acho que é o lado mais fácil, mas tenho uma forma de estar na vida em que gosto de contagiar tudo e todos. Tanto o Diogo (Costa) como o Cláudio (Ramos) não fogem à regra. Acho que consegui com a minha forma de estar, com o meu trabalho diário e exemplo. Isto é uma equipa, é o FC Porto e aqui todos fazemos de todos melhores jogadores e pessoas. O nosso grupo de guarda-redes foi algo único.”
Os guardiões da mística“Acho que muitas vezes elevámos os padrões da equipa, puxámos os outros colegas para cima, obrigando-os a trabalhar mais. Representámos o FC Porto como deve ser. À parte disso, também é um orgulho enorme poder aprender com o Diogo (Costa), desfrutar de um dos melhores guarda-redes do mundo e ter um amigo para a vida. Tanto ele quanto o Cláudio (Ramos), é algo especial e não se encontra em todas as equipas. Eu, que já tenho alguma experiência nos meus 30 anos, acho que não voltarei a encontrar um grupo como este.”
Um adepto dentro de campo“Vou admitir, eu sou um bocado o jogador/adepto lá dentro, é como se fosse um museu com pernas. Eles percebiam rapidamente dentro do grupo a quem poderiam perguntar esse tipo de coisa sobre o Clube e eu também tenho um orgulho e um prazer enorme em partilhá-lo. Chamavam-me o ultra da equipa, mas faz parte e é importante perceberem que este clube não é igual aos outros. Além da história, o que se vive aqui é especial. Não é só um clube de futebol, é das pessoas e representa uma região.”
O primeiro contacto com os seniores“Lembro-me do primeiro treino como se fosse hoje. Já me tinham vindo a preparar uns meses antes, eu era da formação e na altura o terceiro guarda-redes era o Kadú. Mas, como ele tinha passado pelo Padroense, não contava como jogador da formação e o FC Porto tinha de ter um inscrito nas competições europeias. Na altura fui o guarda-redes mais jovem de sempre a ser inscrito pelo Clube. Lembro-me perfeitamente de que o Helton estava doente nesse dia, não era suposto eu treinar nesse dia.”
Memórias desse dia“Na altura, tive de bater à porta do balneário e pedir para entrar, pedir um sítio para me equipar, vestir um tamanho XL, sentar-me num cantinho, ouvir e aprender. Hoje em dia é muito diferente, não me posso esquecer dessas recordações. Houve algo muito curioso: eu tinha as luvas todas rotas e o Helton perguntou-me se eu queria umas novas. Disse que me dava umas se eu lhe fosse limpar as botas. A primeira coisa que eu fiz foi levantar-me e ia mesmo limpar as botas dele. Aquilo era uma simples brincadeira para ver o tipo de atitude que eu ia ter, depois chamou-me para trás, não me deixou limpar as botas e deu-me as luvas. São coisas que hoje em dia não existem, mas na minha altura acho que era muito importante percebermos que entrar naquele círculo fechado, naquele balneário, tem que ser algo sagrado ou algo especial. É algo que este ano os jogadores da casa tentaram incutir, fechar o nosso círculo próximo do balneário. Acho que foi uma das chaves para o sucesso.”
Trabalhar com Helton e Casillas“O que mais me marcou foi o Helton, foi alguém que esteve presente no meu casamento, que eu fiz questão de o convidar a atuar. É uma lenda viva do Clube, na minha altura tinha duas referências: o (Iker) Casillas, cinco vezes melhor guarda-redes do meu Clube, e o Helton, que era o guarda-redes do meu Clube. Tive o privilégio de privar com os dois, mas o Helton marcou-me profundamente porque foi o primeiro grande líder com quem pude conviver. É alguém por quem tenho grande apreço e carinho, continua a ser uma referência.”
Conselhos aos mais novos“É a velha história do «se eu soubesse o que sei hoje…». Hoje costumo dizer que sou o senhor do meu destino e na altura talvez não fosse. Ainda tinha muito que aprender. Sei que estou preparado agora para representar a equipa principal e na altura, embora pudesse achar que sim, não era da maneira que estou hoje. Agora valorizo muito mais as coisas que não têm preço.”
Exemplo de vida“Ser um exemplo para os outros. Às vezes temos a ideia de que ter sucesso na vida é só olhar para os resultados, para os títulos, ou, no meu caso, os minutos jogados. É muito mais do que isso, é perceber, quando terminarmos a carreira, que impacto é que nós tivemos na vida das pessoas. Se há algo que melhoraria no João Costa com 16 anos era ser um exemplo para todos. Na altura valorizava outras coisas, só estava preocupado em jogar. Era normal, aquela paixão de jovem. Não valorizamos o extra-campo, o descanso, o que podemos acrescentar aos outros.”
A saída de casa“Não foi algo que partiu do Clube, mas sim de mim, porque eu sempre fui um competidor. Com 21 anos, depois de uma lesão grave, sentia que precisava de competir e precisava de voltar a mostrar às pessoas do que eu era capaz. Na altura, pedi ao mister Sérgio Conceição que me deixasse sair também porque queria tentar ir aos sub-21. Tinha passado por toda a formação das seleções jovens e não tive a oportunidade de ir aos sub-21 porque tive uma lesão grave. Ainda tinha idade para ir e tentei ter minutos para poder ter essa possibilidade novamente. Saí daqui de lágrimas nos olhos, mas senti que podia voltar.”
A lesão aos 21 anos“Só houve um momento que foi mais baixo do que esse. Nessa altura, como jovem que era, achava que nunca mais ia jogar futebol. Sentia que me tinha caído o mundo em cima, que nunca mais ninguém ia acreditar em mim. Nunca se está preparado para uma lesão grave e é muito difícil. Depois disso, infelizmente, sofri outra lesão grave e sei as diferenças que tive de uma e da outra. Nessa segunda vez, aceitei desde o primeiro momento e só me foquei em fazer tudo o que estava ao meu alcance para recuperar o mais rápido possível. Mas acho que o momento mais frágil da minha carreira foi quando eu saí do Granada, que era um clube da Liga Espanhola, não estava a ter minutos, e tive que voltar novamente à Terceira Divisão de Espanha, no último dia de mercado, a receber o salário mais baixo da minha carreira.”
A mudança para Múrcia“Foi o momento em que coloquei tudo em causa, porque estive em cima da mesa de dezenas de clubes e todos diziam que eu tinha qualidade, mas ficava sempre para segundo na lista. Ter que aceitar voltar a treinar na Terceira Divisão de Espanha, no último dia de mercado, a receber o salário mais baixo da minha carreira, já com 26 ou 27 anos… levar a minha família, ir para fora do país com um salário que se fosse a contar diziam que nem valia a pena sair de Portugal… acho que isso foi o momento mais frágil da minha carreira porque, pela primeira vez, meti tudo em causa. É também aí que as pessoas que te acompanham te ajudam a suportar esses momentos e te recordam de que tipo de pessoa és. A partir daí é que nasceu o novo João Costa, tive uma transformação pessoal única, que nos leva a estar aqui onde estamos hoje.”
Gil Vicente, Granada, Múrcia, Feirense e Estrela da Amadora“Lembro-me de ainda estar no Feirense, durante a minha segunda lesão grave, e eu e mais dois ex-colegas aqui do FC Porto termos uma equipa de FIFA. Conseguimos fazer uma parceria com o Clube, um dia fez-se um torneio de FIFA aqui no Dragão e viemos ver a final. Um dos meus melhores amigos disse-me que ainda me ia ver a jogar aqui, eu respondi-lhe que já não tinha joelhos para isso. Por incrível que pareça, passado um ou dois meses, recuperei a tempo de jogar um play-off de descida e fiz o melhor jogo da minha carreira. A partir daí foi sempre a subir e passei a dizer: «Um dia vai dar».”
O regresso a casa“Não acreditava tanto porque parecia que cada vez estava mais longe do objetivo. As minhas preocupações maiores já eram a minha família, poder dar o máximo de estabilidade e de possibilidades. O meu foco não estava tanto no meu sonho, mas no sonho dos meus. Com o tempo, fui percebendo que o sonho dos meus era exatamente o mesmo sonho que eu tinha. Tive a prova disso nestes festejos, de poder ver a alegria de toda a minha família e amigos.”
A oportunidade de uma vida“No Feirense já estava a fazer uma das melhores épocas da carreira, estava a bater todos os recordes. Tinha metade da Primeira Liga atrás de mim e, na altura, um dos clubes que perguntou por mim foi o FC Porto. Mesmo nesse momento, disse ao meu agente que, para um dia voltarmos aqui, nos faltava um passo: tínhamos de demonstrar na Primeira Liga que éramos capazes. Isso é o que nos leva a entrar pela porta grande, a olhar para nós como uma aquisição de valor e não apenas como mais um.”
Jogar contra o FC Porto“Partilhei isto na primeira conversa que tive com o presidente: foi a vitória mais difícil da minha carreira. Vi o quanto o clube estava a sofrer e quão importante era essa vitória para a minha equipa, o Estrela da Amadora. Sou um profissional de excelência, mas senti uma dor no fundo do coração. Sabia que, de certo modo, estava a fazer sofrer os meus. Também foi um momento em que senti que tinha de mudar de lado, acho que me ajudou a tomar esta decisão.”
Rituais antes dos jogos“Tenho dois. O primeiro é quando nos cumprimentarmos todos ainda no túnel antes de entrarmos para o aquecimento, os guarda-redes e respetivos treinadores. É uma mensagem que se passa de uma pequena equipa dentro da grande equipa. A outra coisa é quando o guarda-redes que está no banco espera sempre pelo colega de equipa ao intervalo, nem que seja para uma troca de palavras ou para dar conforto. São dois rituais que me marcaram, nunca o tinha feito e fazem todo o sentido.”
Ser guarda-redes“Acho que a nossa posição é diferente de todas. O guarda-redes só consegue jogar ao seu melhor nível ao passar de alguns jogos, principalmente na tomada de decisão. É normal que, quando não jogamos durante muito tempo, alguma decisão não possa sair tão fluida. Mas no meu caso, e de alguém que já passou por isso, eu acho que o que nos leva a estar sempre preparados é o trabalho diário. Se tivermos trabalho diário duro e estivermos com a consciência tranquila, de que fizemos tudo que estava ao nosso alcance para nos prepararmos, quando chegar a hora, é o que fará a diferença.”
Quem mais o surpreendeu“O (Victor) Froholdt a correr. Fizemos umas cartas na primeira jornada com previsões para a época e uma das que pus foi que o Victor ia ser a revelação da época. E foi. Foi um dos que me surpreendeu. Enquanto portista, em épocas passadas, sentia algumas críticas a certos jogadores. Posso dar o exemplo do Pepê e do próprio Eustáquio, mas vimo-los a jogar e eram jogadores ao nível do FC Porto. Esta equipa surpreendeu muito, às vezes tiramos conclusões sem saber o que se passa e o valor das pessoas.”
La Famiglia Portista“Acho que foi muito importante a vinda do mister no aspeto de que ele também vinha de uma temporada difícil. Tínhamos dores em comum, juntando ao falecimento do Jorge Costa. É uma perda irreparável que nos trouxe dor que nunca sarará, mas que nós conseguimos transformar em energia, em força, em combustível para algo muito maior. Isso alimentou-nos ao longo do tempo, fez-nos estar unidos, fez-nos deixar todos os egos de lado.”
O arranque da época“Sentíamos que partíamos atrás dos rivais porque eles tinham uma base que nós não tínhamos. Tivemos pouco tempo para trabalhar, tínhamos uma equipa completamente nova, um treinador novo e os adeptos com uma dor profunda. Mudar isso tão rapidamente não está ao alcance de qualquer equipa.”
Uma equipa à Porto“Só posso falar do que eu vi enquanto adepto da época anterior e do que eu vi enquanto jogador nesta época. Desde o primeiro momento desta época, vi que íamos ter uma equipa à Porto. Vi o quanto os meus colegas estavam dispostos a sofrer, quanto queriam vencer. Sendo alguém que também já passou por muitos momentos difíceis ao longo da carreira e da vida, eu sabia a dor que eles tinham e o quanto é que isso pode transformar uma pessoa e um profissional. Acreditei logo que nós poderíamos vir a fazer algo grandioso. E acho que esta equipa será sempre lembrada como uma verdadeira equipa à Porto.”
Previsões para o futuro“Costumo dizer que o melhor está sempre por chegar. Acho que consegui fazer história no FC Porto. Jogando mais ou jogando menos, consegui fazer sentir que fiz parte e que o meu trabalho foi bem conseguido dentro do Clube. Por isso, neste momento, não há outra maneira do que continuar a minha história no FC Porto.”
Gostaria de terminar a carreira no FC Porto?“Eu não gosto de falar muito do fim da carreira, porque o fim da carreira para mim está muito longe. Eu sou daqueles que acham que vão ser muito velhinhos e ainda vão andar por aqui a dar uns toques na bola. Se me perguntasse se sairia feliz se acabasse hoje a carreira? Sairia com maior felicidade e orgulho no mundo, porque sei que marquei as pessoas aqui dentro e que o meu trabalho e o meu propósito foram concluídos.”







































