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·29 July 2026

A balbúrdia na FIGC e o que esperar do novo ciclo de Roberto Mancini na seleção italiana

Article image:A balbúrdia na FIGC e o que esperar do novo ciclo de Roberto Mancini na seleção italiana

Em toda a história do esporte, poucos trabalhos tiveram uma duração tão fugaz quanto o de Paolo Maldini e Leonardo na FIGC, a Federação Italiana de Futebol. Bastaram 16 dias para que uma parceria cercada de expectativa se transformasse em mais um capítulo do caos institucional vivido pela Nazionale. Esse rebuliço terminou com a dupla entregando os seus cargos e o presidente Giovanni Malagò anunciando o retorno de Roberto Mancini ao comando da seleção e trazendo Claudio Ranieri para o posto de diretor técnico, rapidamente ocupado pela lenda do Milan.

À primeira vista, a impressão é de que tudo desmoronou por causa do veto a Andrea Pirlo como treinador da seleção. Mas reduzir a crise à questionável escolha do técnico pela dupla de ex-atletas e diretores do Milan é simplificar demais um problema que vinha sendo construído desde a negociação para a chegada de Maldini à federação.


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Pirlo foi apenas o estopim. A ruptura aconteceu porque Malagò e Maldini nunca compartilharam a mesma visão sobre como reconstruir o futebol italiano. E, por incrível que pareça, ainda assim decidiram apertar as mãos e tocar um projeto que não durou sequer três semanas.

O peso de três Copas do Mundo perdidas

A Itália atravessa a maior crise esportiva de sua história. A tetracampeã mundial ficou fora das três últimas Copas do Mundo, um fracasso sem precedentes para um dos países mais tradicionais do futebol.

Esse cenário ultrapassa o aspecto esportivo. A seleção perdeu prestígio internacional, viu sua imagem se desgastar e passou a enfrentar dificuldades também do ponto de vista comercial. No futebol, patrocinadores naturalmente ficam mais cautelosos diante de uma equipe que acumula resultados tão negativos – e isso também vale para a Nazionale.

Era nesse contexto que Malagò assumia a missão de reorganizar a FIGC. O ambiente pedia estabilidade, credibilidade e respostas rápidas. Ao mesmo tempo, foi justamente aí que começaram as divergências que tiveram Pirlo como pivô. Ainda que, obviamente, o debate não tenha se dado apenas em torno do craque.

A Itália vive um momento em que seria inviável apostar em um treinador com currículo tão curto. Como jogador, o Maestro está entre os maiores da história do futebol italiano. Como técnico, porém, seu percurso ainda desperta muitas dúvidas. Na Juventus, conquistou a Coppa Italia e a Supercopa Italiana, além de terminar a Serie A na quarta colocação. Ainda assim, é necessário apontar que herdou uma base vencedora construída ao longo de quase uma década de domínio nacional e que acabou deixando o clube após apenas uma temporada.

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Com currículo pobre para a seleção, Pirlo foi colocado numa situação que não deveria nem lhe dizer respeito (Getty)

Depois disso, passou pelo Fatih Karagümrük, da Turquia, sem conseguir resultados que o colocassem entre os treinadores mais promissores do futebol europeu. Foi demitido. Na Sampdoria, também não foi capaz de transformar um trabalho cercado de expectativa em algo realmente convincente – levou a equipe, afundada em problemas institucionais, aos playoffs de acesso à Serie A e foi despedido no início da segunda temporada. Em seguida, rumou ao United FC, dos Emirados Árabes Unidos. Embora tenha conquistado o acesso à elite local, tratava-se da segunda divisão de um campeonato distante da realidade competitiva enfrentada pela seleção italiana.

É um percurso respeitável, mas pouco glamouroso para um treinador em formação. Sem dúvidas insuficiente para comandar uma seleção que tenta sair da maior crise de sua história. A própria falta de interesse de clubes médios ou grandes da Itália em Pirlo mostra que existem dúvidas sobre sua capacidade. Enquanto outros campeões mundiais de 2006 conseguiram construir espaço no mercado, o icônico camisa 21 ainda busca consolidar sua identidade como treinador. Reafirmamos: uma aposta incompatível com as demandas atuais da Nazionale.

Outro erro importante foi a forma como toda essa busca pelo treinador foi conduzida do ponto de vista da comunicação. Antes de Pirlo surgir como candidato, a federação alimentou publicamente os sonhos de Carlo Ancelotti e Pep Guardiola. Na assembleia da Serie A, da qual participaram Malagò, Maldini e Leonardo, o diretor técnico falou expressamente que havia conversado com dois dos maiores profissionais da história do ramo – e as tratativas com o espanhol estariam de pé.

Um desastre. Não pela negativa. Mas porque foi criada a expectativa de um projeto de grandes ambições. Quando a alternativa passou a ser Pirlo, que receberia 1,5 milhão de euros anuais, a zombaria se tornou inevitável. Para efeitos de comparação, Ancelotti ganha 10 milhões no Brasil. Guardiola ganhava 24 no Manchester City e pediu 20 para comandar a Itália. Nesse caso, a disparidade entre os valores sugeria também a diferença provável de qualidade nos trabalhos.

Independentemente de seu potencial futuro, a candidatura de Pirlo já nascia enfraquecida. O contraste era grande demais. E não havia nada para sanar essa impressão. Na verdade, haviam fatores que pioravam qualquer decisão a seu favor.

Também houve muita discussão em torno do vínculo comercial de Pirlo com a Fonbet, principal casa de apostas russa. Seu dono é Sergey Lomakin, proprietário do United FC, clube comandado pelo italiano – por essa ligação cruzada, o técnico se tornou embaixador da marca.

Essa questão ganhou importância pelo contexto político internacional, já que empresas russas têm sofrido sanções desde que a Rússia iniciou a guerra com a Ucrânia, e produziu desgaste institucional para a FIGC – e num momento em que a precisa recuperar sua credibilidade. Quando o fato foi relembrado, visto que o ex-meia foi criticado em maio, por ter participado de um evento em Moscou juntamente a Marco Materazzi, políticos italianos se manifestaram contra a escolha de Pirlo e a opinião pública ganhou mais um elemento para criticar a sua contratação. O vínculo do técnico com a Fonbet serviu de estopim, gatilho, pretexto, bode expiatório e outros sinônimos que você quiser utilizar para inviabilizar a contratação.

A lambança, de qualquer modo, foi feita. O desgaste existiu, mas foi contido antes de ganhar maiores proporções.

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União que durou pouco: dias após apresentarem intenções na assembleia da Serie A, Leonardo e Maldini deixaram a gestão de Malagò (Arquivo/FIGC)

Gestão compartilhada é bem diferente de carta branca

Durante a apresentação de Maldini e Leonardo, uma expressão apareceu repetidamente: compartilhamento de decisões. Na teoria, parecia um modelo moderno de gestão. Na prática, porém, cada lado interpretava esse conceito de forma diferente.

É evidente que um diretor técnico precisa de autonomia para desenvolver seu trabalho. Caso contrário, sua contratação perde o sentido. Mas autonomia nunca significou independência absoluta. E repetir, ad infitinum, o mote da gestão compartilhada, deveria ter feito Maldini colocar os pés no chão. Publicamente, Malagò nunca disse que o diretor poderia fazer o que quisesse.

A lenda do Milan tinha o direito de apresentar seu projeto, indicar nomes e defender suas ideias. Da mesma forma, o presidente da federação, eleito em meados de junho com a missão de deixar para trás o período centralizador de Gabriele Gravina, continuava tendo a responsabilidade institucional de aprovar ou rejeitar decisões que afetariam a FIGC. Isso deveria estar na mesa desde o início. Mas foi o que fez a relação de trabalho ruir.

A impressão deixada pelos acontecimentos é que Maldini enxergava a direção técnica como o centro absoluto do projeto esportivo. A escolha do treinador seria consequência direta dessa estrutura. Já Malagò entendia que a palavra final continuava pertencendo ao presidente da federação – em especial quando o assunto era expor a seleção a um técnico não consolidado neste momento. As duas visões simplesmente não eram compatíveis. E quem tem a caneta na mão tem o poder.

Quando Malagò descartou Pirlo, a divergência deixou de ser apenas técnica. Já estávamos no meio de uma crise de confiança. Maldini e Leonardo entenderam que não possuíam autonomia suficiente para conduzir o projeto que haviam imaginado. Não havia espaço para negociação. Para alguns, o presidente da FIGC é que foi intransigente. Mas será que essa crítica não deveria valer também para o diretor técnico e o seu conselheiro? A dupla de ídolos milanistas tinha mais um discurso bonito do que práticas elogiáveis. No fim das contas, o “projeto de oito ou dez anos” tão incensado pelos dois acabou em 16 dias.

Talvez tenha sido melhor que essa ruptura acontecesse imediatamente. Seria muito mais prejudicial iniciar um ciclo baseado em desconfiança mútua e disputas internas de poder. E, pior, com palavras que provavelmente não teriam efeito visível na nua e crua realidade dos fatos.

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Entre o atual e o ex: Mancini viu relação com Gravina, ex-presidente da FIGC, se deteriorar; três anos mais tarde, foi chamado de volta por Malagò (Getty)

O passado e o futuro

Após a saída de Maldini, muitos imaginaram que Antonio Conte seria a melhor escolha, mas essa leitura ignorava algumas questões importantes. Do ponto de vista comportamental, o multicampeão oferece poucas garantias. O histórico da carreira mostra, porém, que dificilmente permanece muito tempo em seus trabalhos e que rapidamente coleciona atritos. Em um momento em que a Itália busca estabilidade para reconstruir um projeto de longo prazo, esse fator pesa bastante. Além disso, um eventual rompimento antes da Copa do Mundo de 2030 recolocaria a seleção exatamente na mesma situação de instabilidade vivida agora. Foi exatamente por isso que o apuliano nunca foi considerado por nenhum dos polos decisivos da FIGC.

A escolha acabou recaindo sobre Mancini, o favorito de Malagò – que é seu amigo. Dentro de campo, sua competência dificilmente pode ser questionada. Mancio foi campeão da Eurocopa em 2021, estabeleceu o recorde de 37 partidas de invencibilidade da seleção italiana e iniciou um processo importante de renovação da equipe, dando espaço a diversos jovens jogadores. O fazia através de estágios, mas também os convocava e os colocava para jogar.

Não ter classificado a Itália para a Copa do Mundo de 2022 pesa na avaliação sobre Mancini, mas esse episódio ganha uma dimensão muito maior hoje, depois da terceira ausência consecutiva dos azzurri em Mundiais e, principalmente, pela maneira como o treinador deixou o cargo posteriormente. Vale lembrar que, após a eliminação para a Macedônia do Norte, a própria FIGC decidiu mantê-lo no comando da Nazionale. A avaliação era de que, apesar da enorme decepção, o trabalho merecia continuar. E merecia mesmo.

A Itália chegou à repescagem muito mais por circunstâncias do que por uma campanha ruim. A Nazionale se enrolou no seu grupo e foi relegada à repescagem por conta de um tropeço caseiro contra a Bulgária e, principalmente, porque Jorginho perdeu pênaltis contra a Suíça nos jogos de ida e volta – ambos terminados empatados, o que foi determinante para a classificação direta dos suíços. No antigo (e felizmente aposentado) formato das Eliminatórias da Uefa, que atribuía um peso enorme aos confrontos diretos entre os principais adversários da chave, detalhes como esses acabavam tendo consequências desproporcionais.

Isso não significa, porém, que o ciclo de Mancini tenha permanecido no mesmo nível depois da eliminação. A Itália já dava sinais de queda de rendimento desde a conquista da Eurocopa. Parte daquele elenco envelheceu, alguns jogadores importantes perderam desempenho, outros deixaram a seleção e a renovação promovida por Mancio ainda buscava um novo equilíbrio. O time passou a jogar menos, acumulou atuações irregulares e perdeu a consistência que havia marcado o auge daquele trabalho.

A derrota para a Espanha na semifinal da Nations League 2020-21 encerrou a sequência recorde de 37 partidas de invencibilidade e simbolizou o fim daquele melhor momento. Ainda houve dois terceiros lugares na competição. Resultados que, embora mais discretos do que os anteriores, demonstravam que a seleção seguia competitiva. O grande ponto de ruptura veio depois da eliminação para a Macedônia do Norte. A goleada sofrida para a Argentina na Finalíssima, no segundo jogo após a queda, expôs uma equipe completamente perdida e desmotivada. Depois, vieram derrotas pesadas, como o 5 a 2 para a Alemanha, enquanto Mancini ampliava os testes e ainda buscava uma nova base para a seleção.

Ao mesmo tempo, a situação fora de campo também se deteriorava. As divergências com Gabriele Gravina já existiam nos bastidores, mas permaneceram restritas ao ambiente interno da federação. Se a relação estava tão desgastada, Mancini poderia ter deixado o cargo antes. O problema não foi sair; foi a maneira como o fez. Esperou aparecer uma boa proposta e aceitou, de forma repentina, a oferta milionária da Arábia Saudita, a cerca de um ano da Eurocopa. Assim, deixou a Itália em um momento extremamente delicado e se desgastou perante a opinião pública. A FIGC precisou agir às pressas, Luciano Spalletti assumiu a equipe sem tempo para consolidar seu trabalho e a campanha desastrosa na Euro de 2024 aprofundou uma crise que também foi alimentada pelas decisões equivocadas de Gravina. Uma coisa potencializou a outra.

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Ranieri assumiu o posto deixado por Maldini e terá a missão de fazer reformulações nos bastidores do futebol (Getty)

É justamente por isso que o retorno de Mancini desperta tantas discussões. Do ponto de vista técnico, seu currículo continua sendo dos mais respeitáveis. Do ponto de vista ético e institucional, porém, ele ainda tem uma dívida com o torcedor italiano. Recuperar essa relação talvez seja seu primeiro desafio neste novo ciclo.

Além disso, existem dois equívocos em toda essa discussão. O primeiro diz respeito à escolha de Mancini como símbolo de apego ao passado. O segundo, associar renovação à juventude dos escolhidos para tocá-la. A escolha de Mancio como treinador e de Ranieri como diretor técnico levou muita gente a concluir que a FIGC abandonou a ideia de modernizar o futebol italiano e de deixar tudo como está, mas uma coisa não leva necessariamente à outra. Renovar não significa substituir dirigentes experientes por nomes mais jovens; significa implementar novas ideias, corrigir problemas estruturais e construir um projeto capaz de produzir resultados diferentes dos obtidos até aqui.

O papel de um treinador de seleção não é o de promover uma renovação geracional a qualquer custo. Seu dever é montar a melhor equipe possível com os jogadores disponíveis, incorporando novos talentos quando eles realmente estiverem prontos – e também permitindo que eles evoluam junto com o restante do time. Mancini já demonstrou, no primeiro ciclo, que não tem receio de fazer isso. E o fez enquanto a Nazionale tinha um futebol propositivo e agradável. Sua contratação não representa um retrocesso estilístico e de ideias de jogo.

Já a renovação estrutural do futebol italiano, que será conduzida por Ranieri, é uma outra história. Ela não depende das convocações de um treinador, mas de um trabalho permanente de formação, integração entre categorias, diálogo com os clubes, planejamento esportivo e e de auxílio na criação de uma identidade comum para as equipes nacionais. Trata-se de um trabalho político e técnico ao mesmo tempo, no qual capacidade de diálogo, credibilidade e articulação costumam pesar mais do que idade. E Don Claudio pode ser um veterano, mas não um dinossauro. E o fato de ter sido retirado da aposentadoria mais uma vez diz muito sobre sua competência – ademais, vale destacar que ele já trabalhou com seleções, tendo sido técnico da Grécia.

Sob esse prisma, Ranieri pode até se mostrar mais adequado do que Maldini. Não por ser melhor ou pior tecnicamente, mas porque seu perfil é diferente. Enquanto o ícone rossonero demonstrou, em apenas 16 dias de gestão, uma postura mais centralizadora e pouco disposta a dividir decisões, o ídolo romanista construiu ao longo da carreira a reputação de conciliador, alguém respeitado por praticamente todos os setores do futebol italiano e capaz de estabelecer pontes entre diferentes interesses. Em um momento de reconstrução institucional, essa característica pode ser tão importante quanto qualquer inovação tática.

Se Mancini conseguir reconstruir a relação com a torcida e trabalhar em sintonia com Ranieri, a experiência de ambos pode acabar servindo justamente ao objetivo que muitos acreditam ter sido abandonado: renovar o futebol italiano. Ser veterano não significa obrigatoriamente defender métodos ultrapassados. Nenhum dos dois é criticado por isso.

Desconsiderando Pirlo, o único que parecia tecnicamente incapaz de ocupar o posto ao qual foi vinculado, essa crise não diz respeito tanto à capacidade dos nomes envolvidos. Se refere muito mais aos problemas políticos e de imagem do futebol italiano que a falta de alinhamento entre cartolas causou. Uma federação que buscava estabilidade contratou um diretor técnico sem alinhar previamente as principais decisões do projeto. Quando chegou a primeira escolha realmente importante, ficou evidente que presidente e direção trabalhavam com conceitos completamente diferentes sobre autonomia, responsabilidades e reconstrução. Nessas condições, dificilmente qualquer projeto sobreviveria. Agora, com Mancini e Ranieri confirmados, a discussão deixa de ser sobre o caos dos últimos dias e passa a ser outra: se a FIGC finalmente conseguirá transformar esse novo começo em uma reforma consistente, capaz de devolver à Itália o protagonismo que sua história exige.

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