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·10 June 2026

Conceição sobre a saída do FC Porto: “Quem não se sente não é filho de boa gente”

Article image:Conceição sobre a saída do FC Porto: “Quem não se sente não é filho de boa gente”

Sérgio Conceição revisitou a saída do FC Porto e abriu uma janela para os bastidores da transição que levou André Villas-Boas à presidência e Vítor Bruno à sucessão no banco. Numa reflexão marcada por aceitação, desconforto e mágoa, o antigo treinador descreveu o modo como procurou enquadrar a sua renovação e como percebeu que já não entrava nos planos da nova liderança. No ponto mais cru da conversa, deixou pouco espaço para ambiguidades e garantiu: “Quem não se sente não é filho de boa gente”.

O momento era de balanço e de memória, com a saída do FC Porto em 2024 a servir de fio condutor a uma narrativa onde o passado recente continua longe de estar arrumado. Sérgio Conceição, antigo treinador dos dragões, falou da mudança de ciclo no clube e de como esse processo mexeu com decisões, lealdades e relações pessoais. Mais do que reconstituir factos, a mensagem que atravessa as suas palavras é a de um treinador que quis explicar a sua posição e o modo como leu os sinais à sua volta.


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Ao recuar ao período da mudança na presidência, Conceição começou por situar o momento em que procurou enquadrar a sua própria permanência. O tom foi de aceitação formal, mas também de contextualização de um processo que, na sua leitura, exigia uma conversa direta com André Villas-Boas.

“Eu aceito e na altura aceitei também. No dia 26 de maio, há dois anos, na final da Taça de Portugal, estava o presidente de Pinto da Costa, estava o Pepe ao meu lado e estava o atual presidente do FC Porto [André Villas-Boas], mais atrás, que eu puxei para levantar a Taça em conjunto.”, afirmou. “Eu naquele momento não sabia se ia ficar ou não. Eu tinha assinado um contrato de quatro anos a dois dias das eleições, que foi muito criticado também por toda a gente. Eu, entretanto, dia 27, equipa técnica, toda a gente folga. Dia 28 fomos trabalhar, a equipa técnica, ao Olival. No dia 29 tinha combinado com o André Villas-Boas, com o presidente do FC Porto, em sua casa, para falarmos um pouco daquilo que era a minha situação e daquilo que era o futuro próximo, no fundo, do FC Porto, e foi assim que foi feito”

O retrato deixa ver um treinador a tentar pôr ordem institucional num tempo de mudança. A aceitação da nova realidade não apaga, porém, a necessidade de explicar o contexto em que tinha renovado e o peso que isso teria nas conversas seguintes.

Quando o tema passou para a reunião com André Villas-Boas, Conceição foi mais fundo e traçou a lógica que, diz, o levou a relativizar o contrato assinado. Pelo meio, revelou também o instante em que percebeu que não seria a escolha para continuar e que Vítor Bruno entrava no horizonte do clube.

“Acho que não me fica bem partilhar tudo aquilo que foi conversado entre nós. Eu acho que, no geral, eu fui-lhe explicar o porquê. Porque se estivesse na situação dele, também, se calhar não gostaria muito que um treinador com sete anos de clube, ganhar aquilo que eu ganhei com a ligação tão forte aos adeptos, estivesse metido de um lado.”, explicou. “Acho que não é… E eu estive sempre à parte, estive sempre à parte, até ao dia, até dois dias das eleições, dois, três dias das eleições. Foi quando fui convidado pelo presidente Pinta e Costa para ir ao seu gabinete, onde estava o Pepe presente, porque também, entretanto, saiu, e ele explicou-me o porquê da presença do Pepe, que tinha feito a sua renovação, se ele fosse ser eleito ou reeleito presidente do FC Porto, o Pepe continuaria com ele. E abriu um bocadinho aquilo que era o coração dele. Falou de uma forma muito emocionada da sua doença. Explicou-me a estratégia que tinha para os próximos anos no FC Porto.”

O antigo técnico sublinhou ainda que a renovação, na sua perspetiva, estava ligada a uma determinada liderança e que foi esse ponto que tentou tornar claro perante o novo presidente.

“E eu, por amizade, por respeito, por gratidão, aceitei. E foi isso que eu fui explicar ao André Villas-Boas, dizer que, a partir daquele momento, o meu contrato ficava sem efeito, porque aceitei renovar com o FC Porto, com um presidente. Eu não estaria… Ou seja, como ele já não era presidente do FC Porto, tinha de respeitar.”, reconheceu. “Eu, se estivesse no lugar do André Villas-Boas, também não tinha gostado muito. Eu estava explicar-lhe o porquê. Eu percebi, nessa conversa também com o presidente Villas-Boas, que eu não fazia parte, ou não era alguém visto para dar continuidade como treinador principal. E depois, quando veio à conversa o futuro do FC Porto… Foi aí que eu soube, percebi que o meu ex-adjunto [Vítor Bruno] seria uma solução”

Neste bloco, a ideia central emerge com nitidez: Conceição apresenta-se como alguém que procurou retirar-se do caminho e, ao mesmo tempo, como alguém que leu nessa conversa o fim do seu ciclo. A passagem para o nome do ex-adjunto introduz a dimensão mais sensível da entrevista, onde a questão institucional dá lugar à ferida pessoal.

Foi precisamente aí, ao falar de Vítor Bruno e das relações que ficaram para trás, que o discurso ganhou outra carga. Conceição evocou uma despedida da equipa técnica e contrastou esse momento com aquilo que diz ter sabido depois.

“Tínhamos estado, na noite anterior, a jantar, um jantar de despedida que eu faço sempre no final do ano com a equipa técnica, e que disse que tinha, ou que queria seguir o caminho dele como treinador principal, e eu achei muito bem. Como treinador do FC Porto? Não.”, afirmou. “Aquilo que eu tenho a dizer é que depois de eu saber que alguém ligado ao FC Porto tinha falado já com o Vítor Bruno, com o meu ex-adjunto, aí a atitude, alguns consideram-na deselegante, podemos adjetivar como quisermos. Pode ser traidora, pode ser… Faz parte do passado.”

O treinador foi ainda mais direto quando mediu as consequências emocionais e o estado atual das relações com ambos. Sem adornos, fechou o tema com uma formulação definitiva.

“Como sabe, o resto da história, as coisas não se passaram dessa forma, e obviamente que… Quem não se sente não é filho de boa gente, como se costuma dizer, e eu sinto muito, principalmente com as pessoas que gosto, e foi um percurso bonito durante muitos anos. E as coisas deviam ter sido feitas de outra forma.”, lamentou. “Se existe relação com Villas-Boas? Não. Se falei mais alguma vez com Vítor Bruno? Não. Se tenciono? Não”

É aí que a entrevista abandona qualquer tom protocolar e se fixa naquilo que ficou por resolver. Mais do que uma divergência de procedimentos, Conceição descreve uma rutura pessoal, deixando a sensação de que, para lá da troca de poder e da mudança no banco, o que verdadeiramente o marcou foi a forma como tudo aconteceu.

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