Portal dos Dragões
·21 May 2026
Farioli: “Eu era um guarda-redes muito mau, muito mau mesmo”

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Francesco Farioli trocou a sala de imprensa pelo registo mais íntimo da memória e abriu o percurso que o levou do fascínio pelo céu à Filosofia, e da baliza ao banco. Numa intervenção em que revisitou a vida de estudante e a forma como o futebol se cruzou com esse caminho, o treinador do FC Porto falou de desvios, encontros decisivos e da coragem para mudar de rumo. Pelo meio, desmontou-se com humor e garantiu: “eu era um guarda-redes muito mau.”
Num tempo de exigência permanente sobre os treinadores, Farioli apareceu longe do discurso táctico e perto da biografia. Francesco Farioli recuou aos anos de formação para explicar uma ideia simples, mas central: nem os percursos lineares são obrigatórios, nem o desencontro inicial com um caminho significa que o destino esteja errado.
Convidado a falar sobre o seu percurso enquanto estudante, sobre o que nasceu primeiro entre o futebol e a Filosofia e sobre a origem da tese com que concluiu o curso, Farioli respondeu como quem recompõe um mapa antigo. O ponto de partida, contou, estava muito longe do lugar onde hoje se encontra.
“Primeiro de tudo, muito obrigado a todos por estarem aqui. Para mim é um prazer enorme. Há não muito tempo eu estava aí sentado e, quando surge a oportunidade de partilhar sentimentos, história e experiências – nem tudo sobre sucesso, mas também sobre os desvios que a minha vida e a minha jornada como estudante e trabalhador tomou – acho que pode ser interessante. É por isso que, quando recebi o convite, não pude recusar. É também interessante ver tanta gente; como sabem, o nosso trabalho como treinadores envolve falar muito com os media, mas as nossas conferências de imprensa não costumam estar tão cheias, especialmente com o entusiasmo que vejo nos vossos rostos.”, afirmou. “Como disse, há 15 anos eu era um estudante que estava quase a terminar o seu ciclo de estudos, mas a parte mais interessante é como ou por que decidi seguir a Filosofia. O meu percurso como estudante e as decisões que tomei antes de chegar à universidade foram um pouco diferentes. As minhas expectativas e desejos iniciais eram muito distintos do que acabei por fazer. E, olhando para trás, começamos a ligar os pontos e encontramos uma lógica onde ela não parecia existir no início.”
Foi então que o treinador puxou o fio à infância e à adolescência, quando o imaginário estava preso à exploração espacial e às disciplinas científicas. A mudança, explicou, não nasceu de um plano, mas de um choque com os próprios limites e de um encontro com a palavra filosófica.
“Quando fui para o ensino secundário, a minha ambição era tornar-me astronauta ou envolver-me em tudo relacionado com isso. Vi muitos filmes sobre a NASA e fiquei fascinado pelo que está acima das nossas cabeças. Essa foi a primeira coisa que captou a minha atenção. Queria ser um engenheiro a trabalhar nessas coisas. Como podem perceber, alguns anos depois, estou longe desse primeiro objetivo. Nos primeiros dois anos, os meus resultados na escola foram razoáveis, a matemática estava bem. Depois cheguei ao terceiro ano e “bati com a porta na cara”. Matemática, física, química e tudo o que estava relacionado com o mundo científico tornou-se para mim um inimigo contra o qual lutar. Nessa altura, estive muito perto de chumbar o ano. Consegui, de alguma forma, atravessar a linha e passar.”, explicou. “E foi nessa altura que, no sistema italiano, no terceiro ano do secundário, começamos a estudar Filosofia. Na primeira aula que tivemos, a nossa professora, Emilia Galassi, colocou-se à frente da secretária e começou a ler a “Carta a Meneceu”, de Epicuro. É a carta sobre a filosofia e a parte crucial que diz que nunca é tarde demais nem cedo demais para ser filósofo e ser um estudante da vida, porque, no fim, acho que é isso que a filosofia realmente significa. Esse foi o primeiro contacto.”
Na narrativa de Farioli, a Filosofia não surge como refúgio abstracto, mas como uma nova forma de fazer perguntas. O que começou por ser uma saída para longe do mundo científico transformou-se numa maneira mais íntima de olhar para o mesmo céu.
O treinador aprofundou depois os nomes e os momentos que lhe fixaram esse desvio. Entre Epicuro, Sócrates e Kant, foi este último a fechar o circuito entre a curiosidade pelo universo e a necessidade de interpretação.
“Ao longo dos anos, o outro marco foi quando começámos a abordar a vida de Sócrates, que podemos claramente reconhecer como um dos principais, não apenas pensadores, mas seres humanos que já viveram neste planeta. E o terceiro momento, que foi o “K.O.” literal e quando me apaixonei a sério, foi no ano seguinte, quando estudámos Kant. Regressando de um intervalo, sentei-me no meu lugar e no quadro estava escrita uma frase que vou dizer em italiano e depois traduzimos: “Due cose riempiono il mio animo di ammirazione sempre nuova e crescente, quanto più spesso e a lungo la riflessione si sofferma su di esse: il cielo stellato sopra di me, e la legge morale dentro di mim” [tradução para português: “Duas coisas enchem o meu ânimo de admiração sempre nova e crescente: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.”]”, descreveu. “Ela começou por aí e, como podem ver, foi um dos momentos em que os pontos se começaram a ligar. No fundo, eu sempre tive o desejo de estudar o que está no céu de um ponto de vista científico, e depois percebi que se pode estudar as mesmas coisas com uma abordagem diferente. Senti que essa abordagem estava mais próxima de quem eu sou, de uma forma que a oportunidade de ter interpretação, discussão e, especialmente, perguntas, foi o que realmente me motivou.”
Houve ainda uma figura decisiva nesse percurso: a professora que lhe mostrou não apenas um conteúdo, mas uma forma de o transmitir. E foi também aí, sugeriu, que começou a nascer a ideia de liderança que mais tarde levaria para o futebol.
“Esses são três momentos, três pensadores e filósofos diferentes. E não posso esquecer o papel da minha professora, porque me apaixonei pelo que ela nos contava, mas também pela forma como nos transmitia essa informação. Muitas vezes, perante decisões como “quem queres ser quando fores mais velho”, eu dizia: “não sei o que quero fazer, mas sei como quero ser, e gostava de ser alguém próximo dela”, porque a capacidade de transferir, comunicar e tornar as pessoas apaixonadas por algo foi o que realmente mudou a minha forma de pensar e de viver a vida. Cheguei ao último ano do secundário e foi o momento, como vocês passaram há uns anos, de decidir: “se estudares economia, tens 25% de hipóteses de encontrar emprego nos primeiros dois meses”. Começamos a ver números e percentagens. Tudo isso criou em mim um sentimento que me afastou desse caminho.”, sublinhou. “Tomei o meu tempo e disse: “Não sei bem o que fazer, mas quero investir em mim próprio. Talvez ao fim de três ou quatro anos eu não tenha clareza sobre o que vou fazer, mas vou tentar preparar-me para fazer o que quer que seja da melhor forma”. Foi aí que decidi escolher Filosofia como o primeiro passo para a vida adulta.”
A escolha, assim contada, não teve nada de utilitário. Foi antes um acto de fidelidade a uma inquietação interior, a mesma que mais tarde voltaria a obrigá-lo a mudar de pele dentro do futebol.
Quando a conversa avançou para o modo como a universidade coincidiu com o futebol e com a sua experiência como guarda-redes, Farioli não procurou glamour nem romantização. Preferiu a crueza, com auto-ironia, para explicar porque é que a baliza acabou por empurrá-lo para outra função.
“Por um lado, estava a estudar filosofia. Por outro, eu era um guarda-redes muito mau. Muito mau mesmo. Fazia-o de forma profissional, mas literalmente não era suficientemente bom. A certa altura, algo que espero que levem convosco quando saírem daqui: às vezes encontramos pessoas que nos dizem uma verdade dura que, naquele momento, não apreciamos tanto como deveríamos, mas que anos depois ganha outro valor. Essa conversa aconteceu quando eu tinha 19 anos.”, reconheceu. “Um dos meus antigos treinadores veio ter comigo e disse: “Francesco, quero ser honesto e transparente contigo. Vejo o esforço que estás a fazer para continuar a jogar, mas não acredito que consigas. Não acredito que venhas a ser recompensado pelo esforço. Podes prolongar a carreira por mais um bocado, mas nunca serás um jogador profissional. Mas sugiro que comeces a ajudar-me, a trabalhar comigo como treinador, porque desde que te conheço – quando tinhas 15 ou 16 anos – já eras um treinador pela forma como te comportavas, como vias o jogo e como lideravas os teus companheiros”.”
Mais do que uma desistência, esse momento aparece na história como revelação. Farioli descreve-o como uma verdade amarga no instante, mas fértil à distância, daquelas que mudam uma trajectória inteira sem fazer barulho.
Daí para a frente, o caminho fez-se em esforço bruto, quilómetros e acumulação de funções. O treinador recordou uma fase em que estudar, treinar outros e continuar a jogar cabiam todos no mesmo dia.
“Foi difícil e levei algum tempo a processar. Durante dois anos, desci ainda mais de nível – e não foi fácil porque eu já estava quase no nível mais baixo – mas comecei a trabalhar também como treinador de guarda-redes. Era um trabalho triplo: de manhã ia para Florença para as aulas; no caminho de volta parava para treinar uma equipa; uns quilómetros depois, às vezes até me esquecia de mudar de t-shirt, parava para trabalhar num segundo clube; e às 19h ia para o lado oposto da Toscânia para continuar a jogar e manter-me ativo. Fazia quase 300 km por dia. Mudei muito de carro nesses anos! Fazia-o sem sentir fadiga. Comparando com o que faço agora, acho que trabalhava sete vezes mais naquela altura. Tinha uma energia incrível.”, contou. “Dois anos depois, tive a primeira oportunidade de trabalhar a nível semi-profissional numa primeira equipa, na quarta divisão, com um salário que se podia chamar de trabalho. No meio disto, estava no meu último ano de universidade.”
Nesse cruzamento entre estrada, aulas e campo, surgiu a ideia de unir as duas margens da sua vida. A tese, percebe-se, não foi um capricho académico, mas uma tentativa de dar forma intelectual ao lugar onde já vivia.
Farioli explicou então como decidiu propor um tema improvável e como encontrou resistência antes de encontrar espaço. O episódio tem o humor de uma ousadia juvenil e a teimosia de quem já sabia, pelo menos, o que queria tentar.
“Tive muito tempo para pensar nas viagens de carro, com música e reflexão, e disse: “Tenho de tentar combinar estas duas paixões”. Fui ter com um dos professores que sentia ser mais próximo de mim e disse: “Bom dia, gostava de fazer a tese consigo”. Normalmente são os professores que dão o título ou guiam o aluno. Eu disse: “Gostava de fazer esta tese: ‘Filosofia do jogo, a estética do futebol e o papel do guarda-redes'”.” analisou. “Ele deu um passo atrás e disse: “Sr. Farioli, deixe-me lembrar-lhe que estamos na Faculdade de Filosofia da Universidade de Florença, não estamos na Gazzetta dello Sport”, que é como O JOGO, ou algo semelhante. Tive de reagir rápido e explicar a ideia. Ele ficou curioso e deu-me tempo para vir com algo mais orgânico. “Mas se eu não gostar, vai tudo para o lixo e começas do zero”, disse ele.”
O treinador sublinhou ainda que, na altura, o terreno era quase virgem. Falar de futebol e Filosofia como se pertencessem ao mesmo campo exigia trabalho de escavação e uma dose considerável de persistência.
“Há 15 anos não era comum pôr no Google “futebol e filosofia” e encontrar resultados. Tentei construir uma ideia caótica numa linguagem mais fluida. Levei três meses a enviar milhares de emails a professores que talvez tivessem uma citação ou algo que tocasse o assunto. Três meses depois, a tese estava feita, com mais de 100 páginas. Coloquei-a na secretária dele. Ele olhou para mim e disse: “Eu disse para vires com uma ideia e tu fizeste tudo?”. “Sim, porque me pediu uma apresentação orgânica, por isso pus tudo aí”, respondi.”, relatou. “Ele pediu tempo para ler. Quatro dias depois, chamou-me. Tinha apenas algumas correções e elementos a ajustar. E assim nasceu a tese. Gerou muita curiosidade, foi publicada em vários formatos e criou atenção sobre um rapaz que não era jogador de futebol, mas um estudante “louco” por seguir este caminho.”
É um retrato fiel de um perfil pouco dado a fronteiras rígidas: um homem que procurou pensar o jogo antes mesmo de o dirigir ao mais alto nível. E é também aí que se percebe como a identidade de treinador foi amadurecendo antes de ganhar o cargo.
No último movimento da intervenção, Farioli encadeou as etapas que o levaram até ao presente e deixou uma mensagem mais vasta sobre falhar, ajustar e recomeçar. A biografia serviu-lhe, acima de tudo, para defender a reinvenção.
“A partir daí, foi um passo atrás do outro. De engenheiro [aeroespacial] a estudante de filosofia, a treinador de guarda-redes semiprofissional, até chegar à Serie A como treinador de guarda-redes, com uma experiência de dois anos no Catar pelo meio. Quando senti que estava no topo ou perto dele, decidi mudar outra vez. Aos 30 anos, decidi ir para a Turquia para tentar a transição de treinador de guarda-redes para treinador principal. Estive seis meses como adjunto num clube turco pequeno e, seis meses depois, comecei a minha carreira como treinador principal. Dois clubes na Turquia, regresso à Europa Central no Nice, época passada no Ajax em Amesterdão e agora aqui no Porto.”, sintetizou. “Muitas coisas mudaram, muito rápido, muitas mudanças de direção no meu percurso. A única coisa que quero dizer com este currículo que partilhei é: não se preocupem se às vezes se sentirem perdidos ou sentirem que não estão no caminho certo. Sigam o que têm cá dentro, tenham a coragem ou a “loucura” de seguir o vosso instinto. A única forma de alcançar algo é aceitar o facto de poder falhar. Digo sempre aos jogadores: exijo curiosidade e crença. Há que seguir passo a passo e saber que, se queremos chegar a algum lado, há 7000 maneiras diferentes de o conseguir. O caminho nem sempre é reto; quando parece reto, surge um obstáculo. Acredito que os estudantes de humanidades têm a capacidade de se reinventarem. Pela minha breve experiência, não há nada melhor do que ser capaz de se ajustar, mudar e estar constantemente aberto a modificar e ajustar a nossa identidade.”







































