Metade dos clubes com pontos deduzidos: campeonato chinês enfrenta novos escândalos | OneFootball

Metade dos clubes com pontos deduzidos: campeonato chinês enfrenta novos escândalos | OneFootball

In partnership with

Yahoo sports
Icon: Zerozero

Zerozero

·6 February 2026

Metade dos clubes com pontos deduzidos: campeonato chinês enfrenta novos escândalos

Article image:Metade dos clubes com pontos deduzidos: campeonato chinês enfrenta novos escândalos

O outrora próspero futebol chinês atravessa uma das maiores crises da sua história. Na sequência de vários escândalos de corrupção, a Associação Chinesa de Futebol (ACF) anunciou ter banido de forma vitalícia 73 pessoas ligadas ao desporto, entre treinadores, dirigentes e investidores. As consequências fazem-se sentir também nos clubes, precisamente numa época que se inicia, em março, sob um forte clima de instabilidade.

Como resultado direto destes processos, 11 das 16 equipas da primeira divisão foram sancionadas, oito delas com dedução de pontos para a edição de 2026 da Super Liga Chinesa. O país que, há pouco mais de uma década, atraía investimentos milionários e algumas das maiores estrelas do futebol mundial, tornou-se hoje um destino marcado por nomes pouco mediáticos. O que permanece constante são as polémicas e os escândalos.


OneFootball Videos


Um plano falhado

O futebol começou a desenvolver-se de forma estruturada na China apenas nos anos 90, bem depois do resto do mundo. Com o regresso às grandes organizações internacionais, como a FIFA e o Comité Olímpico Internacional, o governo chinês iniciou um processo de investimento sustentado, enquadrado na abertura económica do país. Foram lançados planos que visavam o desenvolvimento técnico e a exploração comercial do futebol, com maior autonomia para clubes, investidores e federação.

Os primeiros anos da reforma foram animadores: as receitas aumentaram e praticamente todos os clubes passaram a ostentar nomes de grandes grupos empresariais. Contudo, os resultados da seleção ficaram aquém das expectativas. Já no início do século XXI, com a entrada de novos investidores, surgiu uma segunda vaga de reformas que transformou um cenário quase amador num verdadeiro oásis financeiro. Potência nos desportos olímpicos, a China queria finalmente colocar o futebol no centro das atenções.

Criada em 2004, a Super Liga Chinesa conviveu desde cedo com problemas financeiros e casos de corrupção. A partir de 2010, com a implementação de uma comissão anticorrupção, o futebol pareceu entrar num caminho mais sólido. Chegaram nomes como Drogba e Conca, enquanto David Beckham assumiu o papel de embaixador global da competição. Ainda assim, as polémicas económicas persistiram e, em 2013, 58 pessoas já tinham sido banidas do futebol por irregularidades semelhantes às agora reveladas em 2026.

Com a ascensão de Xi Jinping ao poder, o desporto passou a ser uma prioridade estratégica. Em 2015, foi lançado um plano nacional em três fases, que incluía a criação de dezenas de milhares de escolas de futebol, o incentivo à prática desportiva nas escolas e a modernização das infraestruturas. O objetivo era claro: colocar as seleções masculina e feminina entre as melhores do mundo até 2050. Foi nesse contexto que Hulk, Lavezzi e Oscar chegaram ao país, com três dos dez salários mais elevados do futebol mundial. A euforia, porém, durou pouco.

A verdade é que poucos jogadores se adaptaram e os retornos económicos ficaram muito aquém do esperado, transformando o projeto num prejuízo de milhares de milhões. Mais de dez anos depois do grande plano, a seleção chinesa ocupa apenas o 90.º lugar do ranking da FIFA e não conquistou qualquer título relevante. Os salários astronómicos mantiveram-se durante algum tempo, mas a federação começou gradualmente a intervir, criando regras para proteger os jogadores locais. A pandemia acabou por acelerar o colapso.

Sem receitas de bilheteira nem de publicidade, muitos clubes entraram em falência. Emblemas como o Jiangsu Suning e o Guangzhou Evergrande foram duramente afetados e acabaram por desaparecer. O capital dos grandes empresários evaporou-se e os investimentos massivos cessaram. Paralelamente, os escândalos multiplicaram-se, colocando em causa o futuro de um futebol agora mais discreto e frágil.

A corrupção continua em cena

O governo chinês manteve uma postura inflexível face aos escândalos no futebol. A política anticorrupção surge como uma tentativa de recuperar um sector que, durante um curto período, foi um dos mais ativos do desporto mundial, enquanto a Arábia Saudita conseguiu concretizar o que a China ambicionava: atrair grandes estrelas e assegurar a organização de uma Copa do Mundo. Ainda assim, a situação na China parece ter atingido um ponto crítico.

Em janeiro de 2026, a federação anunciou o banimento vitalício de 73 pessoas. Entre os casos mais mediáticos está Li Tie, antigo jogador do Everton e selecionador nacional entre 2019 e 2021, atualmente a cumprir uma pena de 20 anos de prisão por suborno, após condenação em 2024. Chen Xuyuan, presidente da ACF entre 2019 e 2023, foi condenado a prisão perpétua por envolvimento em esquemas superiores a 57 milhões de reais e também afastado definitivamente do futebol.

Os clubes não escaparam às punições. Dos 16 participantes da Super Liga Chinesa, 11 foram sancionados com multas ou deduções pontuais. O atual tricampeão, Shanghai Port, começará a época de 2026 com menos cinco pontos. Já o Shanghai Shenhua, antigo clube de figuras como Tim Cahill, Tévez e Hernán Barcos, arrancará com uma penalização de dez pontos. Tianjin Jinmen Tiger, Beijing Guoan, Qingdao Hainiu, Shandong Taishan, Henan FC, Zhejiang FC e Wuhan Three Towns também iniciarão o campeonato de 2026 com saldo negativo.

Em entrevista exclusiva ao oGol, domínio brasileiro do zerozero, Zeca, avançado do Shandong Taishan, sublinhou que o futebol chinês já não é o mesmo da última década. Ainda assim, fez questão de frisar que a vida profissional no país continua financeiramente estável, apesar de todas as dificuldades:

«É muito atrativo porque proporciona uma excelente qualidade de vida e os salários são pagos a tempo e horas. No Shandong, a estrutura é difícil de comparar, é algo fora do normal. Há alguns anos, chegavam a pagar prémios inacreditáveis por vitórias. Hoje, os ‘super salários’ já não existem», explicou o atacante.

Novos protagonistas na China

Zeca é um dos cerca de 520 jogadores inscritos na Super Liga Chinesa de 2026, que arranca em março.

Do total, 76 são estrangeiros, sendo que a lusofonia representa grande fatia do total. Há cinco portugueses na Liga, o que torna o nosso país na segunda nação mais representada (a par de Espanha), e a maior comunidade extra-chinesa é mesmo a brasileira.

Aliás, em 2025, quatro brasileiros integraram a melhor equipa da Super Liga Chinesa: Felipe Silva e Rômulo, avançados do Chengdu Rongcheng desde 2021, além de Mateus Vital e Leonardo, que representaram o Shanghai Port.

Dentro do tema da lusofonia, destaque-se que o melhor marcador da competição foi o angolano Fábio Abreu, avançado do Beijing Guoan que em tempos brilhou em Portugal ao serviço de Moreirense e Penafiel.

View publisher imprint