Zerozero
·17 July 2026
Mundial 2026 foi histórico para África: «Os melhores jogadores do mundo têm raízes neste continente»

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·17 July 2026

É inegável que o futebol africano evoluiu significativamente nos últimos anos e que tem existido uma ascensão incontornável nas aspirações das seleções do continente nas grandes provas.
Se dúvidas houver em relação a esta premissa, o Mundial 2026 ajuda a dissipá-las: Das dez selecões africanas que estiveram na competição, nove passaram a fase de grupos. Este cenário mereceu a atenção do zerozero, que tentou perceber este crescimento com a ajuda de Paulo Duarte - português há vários anos em África, atual selecionador da Guiné Conacri e com passagens pelas seleções do Burquina Fasso, Gabão e Togo.
O Campeonato do Mundo que está prestes a terminar foi o primeiro disputado por 48 seleções. A expansão significou mais 16 equipas em prova, mais 40 jogos e cinco vagas adicionais para África, duplicando o número de representantes do continente.
Se ficou curioso, pode consultar aqui ao lado uma comparação entre a primeira jornada do Mundial 2022 e 2026 produzida pelo zerozero.
África do Sul, Marrocos, Costa do Marfim, Tunísia, Egito , Cabo Verde, Senegal, Argélia, RD Congo e Gana foram as seleções que representaram o continente africano.
Olhando para a primeira fase a eliminar, agora denominada 16 avos de final, verificamos que nove das dez seleções africanas conseguiram o apuramento. Apenas a Tunísia ficou pelo caminho, acabando mesmo por despedir o selecionador após a pesada derrota frente à Suécia (5-1), na primeira jornada.
De forma natural, o alargamento da prova ajuda a explicar este número histórico; no entanto, na perspetiva de Paulo Duarte, «existiu uma grande evolução no futebol africano nos últimos anos, muito motivada pela exigência, seriedade e experiência europeia».
«As seleções africanas representam África, mas são de nível europeu. Muitos jogadores já nasceram na Europa e o facto de atuarem em grandes clubes tem muito peso», considerou o técnico.
Durante a prova, Cabo Verde protagonizou uma das histórias mais bonitas da competição (só caiu frente à Argentina) e Paulo Duarte, que acompanhou atentamente o percurso dos Tubarões Azuis, vincou que a prestação «foi muito merecida» e que o «bom futebol praticado, inclusive frente a três seleções campeãs mundiais» foi motivo de satisfação.
Além dos elogios, o selecionador da Guiné Conacri deixou uma análise mais ponderada.
«Cabo Verde tem jogadores de campeonatos modestos, que não chegam ao Mundial com 60 ou 70 jogos nas pernas, como acontece com muitos atletas de outras seleções. Mas valorizam muito o país, deram tudo pela camisola e isso, por vezes, é o mais importante.»
Apesar de reconhecer que «o Egito atravessa um dos piores momentos da sua história» e que Salah «está muito distante do auge», Paulo Duarte apontou precisamente os egípcios como uma das boas surpresas da competição.
O Mundial 2026 viu o Egito alcançar os oitavos de final, enquanto Marrocos caiu nos quartos perante a França, num encontro que o técnico português considera «desapontante»: «Marrocos praticava um futebol extraordinário e nesse jogo deu a entender que só pensava no empate e nas grandes penalidades.»
Indo ao encontro do que escrevemos em cima, é importante descrever a participação de seleções africanas nos últimos Mundiais.
Recuando até 2018, a edição realizada na Rússia contou com cinco seleções africanas - Egito, Marrocos, Nigéria, Tunísia e Senegal - e nenhuma conseguiu ultrapassar a fase de grupos.
Quatro anos depois, no Qatar, Egito e Nigéria deram lugar a Gana e Camarões, que regressaram ao Mundial depois de terem marcado presença em 2014. A edição que terminou com a conquista da Argentina ficou marcada pela extraordinária campanha de Marrocos.
Os marroquinos venceram o grupo F, composto por Croácia, Bélgica e Canadá, eliminaram Espanha nos oitavos de final, Portugal nos quartos e apenas caíram frente à França nas meias-finais.
Também o Senegal ultrapassou a fase de grupos, acabando afastado pela Inglaterra na primeira ronda a eliminar.
Só esta comparação já permite perceber uma evolução, mas poderia tratar-se apenas de um golpe de sorte ou de um alinhamento de astros, para quem acredita em astrologia. No entanto, quando olhamos para o cenário do Mundial 2026, é possível afirmar de forma clara que essa evolução é sustentada.
Mas afinal, como se explica esta mudança de paradigma?
«Há imensos treinadores de qualidade em África, pese embora trabalhar neste continente não seja fácil. Muitas vezes voamos durante horas, fazemos escalas longas e encontramos jogadores com mentalidades muito próprias. Para treinar em África é preciso ter muito carácter e personalidade porque, caso contrário, não há sucesso.»
Paradoxalmente, Paulo Duarte considera que o facto de o futebol africano «seguir cada vez mais o modelo europeu» tem sido determinante para este crescimento.
«Alguns dos melhores jogadores do mundo, como Mbappé, Salah, Hakimi e Sadio Mané têm raízes africanas. Representam África, mas há muito que a preparação é de nível europeu e mundial.»
Além das seleções presentes no Mundial e da ausente Nigéria, o treinador aponta Cabo Verde e Burquina Fasso como equipas a acompanhar de perto.
«Cabo Verde surpreendeu, mas pode ir ainda mais longe. Assumir isso é um risco porque alguns jogadores já têm uma idade avançada e será necessário iniciar uma renovação, mas existem soluções e o orgulho em representar o país continua a ser um dos aspetos mais importantes.»
Sobre o Burquina Fasso, seleção que orientou entre 2016 e 2018, também deixa boas perspetivas: «O Burquina Fasso não será apenas uma surpresa, poderá afirmar-se definitivamente. Já tem um bom nível e pode potenciar ainda mais essa qualidade.»
Quanto à Guiné Conacri, seleção que atualmente orienta, Paulo Duarte afasta qualquer tipo de euforia.
«Não vamos surpreender. Estamos num momento de renovação. Quando cheguei perdi nove jogadores de alto nível. Vi-me obrigado a apostar em atletas menos preparados, mas demos uma boa resposta.»
Naby Keïta e Ilaix Moriba foram dois dos jogadores que renunciaram à seleção, embora «um ano depois todos quisessem regressar». O técnico admite apenas ponderar o regresso de dois atletas, entre eles Ilaix Moriba:
«A Guiné está muito longe do alto nível. Cabe-me mudar mentalidades, maus hábitos e falta de profissionalismo para conseguirmos ser mais competitivos.»
Paulo Duarte deixou ainda críticas ao modelo de qualificação para a CAN, classificando-o como «injusto e desonesto». O sorteio colocou a Guiné no mesmo grupo de um dos países organizadores e a CAF determinou que, nesses casos, apenas uma seleção, além do anfitrião, se qualificaria.
Desta forma, os resultados alcançados no Mundial 2026 reforçam a ideia de que o futebol africano atravessa um dos períodos mais promissores da sua história. O crescimento competitivo das seleções do continente parece cada vez mais sustentado e deixa antever um futuro em que África poderá assumir um papel ainda mais relevante nas grandes competições internacionais.
E para si, caro leitor, qual é a seleção africana com maior potencial? E em qual depositaria as fichas para surpreender o mundo nos próximos anos?
*com Luís Mendes
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