Zerozero
·8 July 2026
O refúgio de quem procura uma nova oportunidade: «Quando o telefone não toca é complicado»

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·8 July 2026

O Estágio do Jogador, promovido pelo Sindicato dos Jogadores Profissionais de Futebol (SJPF), apresenta-se como uma importante oportunidade para os atletas que se encontram sem clube e que procuram relançar as suas carreiras.
Em outras palavras, trata-se de uma iniciativa bastante positiva, apesar de surgir numa fase menos favorável da vida profissional destes jogadores.
O facto de alguns deles terem passado pela Primeira Liga ou terem participado em jogos de grande relevância e, ainda assim, recorrerem a este projeto, demonstra a realidade competitiva do futebol e evidencia a importância de mecanismos de apoio como este.
Exemplos claros disso são Cuca, antigo internacional cabo-verdiano que conta com passagens por Casa Pia e Belenenses, ou Bruno Carvalho, que fez parte da histórica equipa do Tirsense que chegou às meias-finais da Taça de Portugal.
Ambos os jogadores falaram à comunicação social presente no arranque do estágio - onde se inclui o zerozero - e revelaram as suas perspetivas sobre esta oportunidade.
O nome de Cuca foi, talvez, o mais sonante entre os 18 que se apresentaram no primeiro dia de trabalho. Atualmente com 35 anos, o médio centro tem uma carreira estabelecida em Portugal, tendo representado os gansos quando estes subiram à primeira divisão - fez parte da promoção e jogou no principal escalão no ano seguinte.
«Vejo isto com bons olhos, porque o Sindicato é uma ferramenta muito importante para os jogadores, principalmente para aqueles que ainda não têm contrato», começou por afirmar.
«Este estágio ajuda-nos e permite-nos trabalhar e manter a condição física para que, quando chegar o momento certo, já estejamos preparados», acrescentou, sobre os benefícios desta iniciativa.
Na última época, o centrocampista alinhou em 15 encontros pelo Belenenses, que ficou à porta da Segunda Liga: «Foi um ano de aprendizagem. Não correu, se calhar, da forma que eu esperava ou a que estou habituado, mas faz parte do processo. Tal como este estágio também faz parte do processo.»
Não houve continuidade na formação do Restelo e, por isso, o experiente jogador - que chegou a representar os Tubarões Azuis em 14 ocasiões - continua à procura de um novo emblema para prosseguir carreira.
«Ainda não tenho a minha situação definida e aproveitei para me inscrever. Vi que a taxa de sucesso ronda os 60 ou 70 por cento e isso levou-me também a participar. Acima de tudo, quero estar preparado para quando surgir a oportunidade certa», revelou.
«A mensagem que deixo é para não desistirem, porque tudo isto faz parte do caminho», frisou, deixando um apelo aos companheiros que se encontram na mesma situação.
E a verdade é que o Sindicato tem sim um histórico muito positivo. Prova disso é Bruno Carvalho, que já tinha participado num dos estágios anteriores - e com sucesso.
«Da última vez foi uma vivência muito boa, que me permitiu chegar ao Tirsense e viver a maior experiência que tive até agora no futebol, que foi alcançar as meias-finais da Taça de Portugal», explicou.
«Por isso, estar aqui mais uma vez é também recordar essa boa memória. Isso acaba por me alimentar e motivar para aquilo que aí vem», tocou ainda.
Foi em 2024/25 que esse conto de fadas aconteceu. O médio centro de 28 anos, também ele cabo-verdiano, foi titular nos dois encontros diante do Benfica, que culminaram numa pesada derrota de 9-0 no agregado.
No entanto, isso não apagou a bonita aventura dos jesuítas e até abriu portas a outros caminhos, com Bruno a ter rumado ao Metaloglobus, da Roménia. Agora, e novamente sem clube, volta a uma casa que já o potencializou.
«O que me fez voltar a este estágio foi a vontade de me preparar para a próxima época, tendo em conta que ainda não tenho a minha situação futura definida. Quero estar preparado para quando a oportunidade surgir», garantiu, usando um discurso alinhado com Cuca.
O caminho de um futebolista é tudo menos fácil. Porém, ter um treinador como o Élio Martins, que se mostra compreensivo a isso, poderá tornar tudo muito mais acessível.
«É um processo difícil. Não é como se estivéssemos num clube, mas acho que vou conseguir levá-los por um bom caminho. O que fazemos aqui é extrair o máximo daquilo que eles têm de bom e tentar melhorar os aspetos menos positivos», declarou, indo mais longe:
«Acho que isto também é um treino para a parte psicológica. É importante trabalhar esse lado porque são jogadores que estão sem contrato. Já estive do lado deles e, quando o telefone não toca, é complicado. Temos de saber acompanhá-los, motivá-los e ajudá-los», expressou.
De facto, o contexto em que estão agora inseridos é totalmente diferente do habitual. Pese embora o Sindicato tenha todas as condições normais que um emblema poderia ter, o objetivo passa simplesmente por ajudar os atletas.
«O treino aqui é muito focado no detalhe, em potenciar aquilo que eles têm de melhor e fazê-los perceber que, às vezes, estão apenas a um pormenor de atingir um nível mais alto. Muitos deles estão com a autoestima em baixo e desmotivados, e temos de os puxar para cima», declarou o técnico de 41 anos, que se estreia nestas andanças.
«A ideia deste estágio é selecionar e preparar jogadores. Hoje podemos ter 18, amanhã 25, está sempre a variar. O nosso papel como treinadores é reajustar o treino ao contexto que temos, motivando, melhorando e explorando ao máximo os aspetos físicos, técnicos e táticos, mas também puxando muito pelo lado mental dos jogadores», considerou.
Esse é mesmo o aspeto mais importante para o timoneiro. Nos dias de hoje tudo conta, até mesmo as redes sociais...
«Hoje em dia o nosso meio é totalmente diferente. Quando jogávamos, a comunicação social era diferente, as redes sociais não tinham o impacto que têm hoje. Agora existe uma visibilidade enorme», analisou.
«Ver colegas e amigos a seguir caminho e sentir que se está a ficar para trás pode gerar frustração. Temos de lhes incutir a ideia de que isto não é o fim, mas apenas uma pedra no caminho, um obstáculo que tem de ser ultrapassado», afirmou ainda.
Como o próprio comandante sublinhou por fim, o importante passa por «ajudar a perceber de que isto é apenas um obstáculo e não o fim da linha». Porque essa só é traçada quando o jogador deixa de acreditar nele mesmo.
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