Última Divisão
·12 July 2026
Uma goleada tão histórica que mudou as regras para a Copa do Mundo

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Erling Haaland foi o artilheiro das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, protagonizando uma exceção na história recente do torneio. Afinal, não é comum que o artilheiro das eliminatórias brilhe também na própria competição.
O artilheiro das eliminatórias para a Copa de 2022 foi Ali Mabkhout (Emirados Árabes Unidos), que marcou 14 gols e nem foi para o torneio. Para 2018, Robert Lewandowski (Polônia), Mohammad Al-Sahlawi (Arábia Saudita) e Ahmed Khalil (Emirados Árabes) marcaram 16 gols cada, mas os dois primeiros passaram em branco na Copa do Mundo e o terceiro ficou de fora. Para 2014, Deon McCaulay (Belize) empilhou 11 gols e dividiu a artilharia com Robin Van Persie (Holanda) e Luis Suárez (Uruguai), que não decepcionaram e balançaram as redes na Copa.
Para a Copa de 2002, a Austrália ofereceu um capítulo especial nesta lista. Os Socceroos ficaram de fora da Copa do Mundo ao perderem a vaga na repescagem para o Uruguai, mas fizeram o artilheiro das eliminatórias: o pouco conhecido Archie Thompson, com 16 gols.
O que a estatística esconde é uma campanha peculiar por parte da Austrália. Naquela edição das eliminatórias, a equipe protagonizou um jogo histórico ao vencer a seleção de Samoa Americana por 31 a 0, com 13 gols de Archie Thompson.
Aquele jogo ainda hoje é responsável por dois recordes. Até hoje, é a maior goleada da história em jogos de seleções, ao passo que nenhum outro jogador marcou tantos gols em um único jogo entre seleções como Archie Thompson fez naquele dia. E não é difícil entender o porquê.
Até a Copa de 2006, a Austrália disputava as eliminatórias da Oceania, e não tinha dificuldades – mesmo a Nova Zelândia, segunda força do continente, tinha dificuldades para fazer frente. A partir de 2006, os australianos passaram a integrar a AFC (Confederação Asiática de Futebol), de forma a enfrentar adversários mais fortes e tentar qualificar suas próprias equipes. Deu certo: em 2009, os australianos atingiram a melhor colocação do país no Ranking da Fifa com a 14ª posição.
Mas o cenário era bem diferente no caminho para a Copa de 2002. As eliminatórias da Oceania tinham dez seleções, divididas em dois grupos na primeira fase. Os vencedores de cada grupo se enfrentariam em uma decisão em dois jogos, da qual sairia um vencedor para a repescagem intercontinental.
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A Austrália entrou no Grupo 1 ao lado de Fiji, Samoa, Samoa Americana e Tonga, quatro seleções que sofrem para se firmar até mesmo entre as 150 melhores colocadas do ranking da Fifa – no melhor momento, ainda em 1994, os fijianos ocuparam o 94º posto da lista. E mesmo em uma chave de um gigante contra quatro nanicos, ficou claro desde o princípio que Samoa Americana seria a presa mais fácil.
Na primeira rodada, em 7 de abril de 2001, Fiji goleou Samoa Americana por 13 a 0, com cinco gols de Shalendra Lal. Dois dias depois, enquanto a Austrália visitou Tonga pela segunda rodada e fez 22 a 0, com seis gols de John Aloisi, Samoa Americana recebeu Samoa e perdeu por 8 a 0, com quatro gols de Desmond Fa’aluaso.
Já pensou então quando Austrália e Samoa Americana se encontrarem?

Jornal do Brasil, 11 de abril de 2001 (Imagem: Reprodução)
Bom, isso aconteceu já na terceira rodada, em 11 de abril de 2001. E o resultado entrou para a história, com a goleada por 31 a 0 diante de um público modesto de 3 mil torcedores em Coffs Harbour.
Os visitantes ainda conseguiram segurar o 0 a 0 nos 10 primeiros minutos, até que Con Boutsianis abriu o placar. Archie Thompson fez 2 a 0 aos 12, David Zdrilic ampliou aos 13 e Aurelio Vidmar fez o quarto aos 14. Tony Popovic marcou mais dois, e o placar aos 20 minutos já era 6 a 0.
No intervalo, o placar indicava 16 a 0 para os australianos, com oito gols de Archie Thompson. E o ritmo se manteve no segundo tempo, quando a Austrália fez mais 15 gols. A seleção de Samoa Americana conseguiu dar apenas um chute a gol, aos 41 minutos da etapa final, quando já perdia por 29 a 0 – Pati Feagiai arriscou, mas parou na defesa do goleiro Michael Petkovic.
A goleada foi tão massacrante que criou uma confusão no estádio. Ao fim do jogo, o placar em Coffs Harbour indicava uma vitória por 32 a 0, com 14 gols de Archie Thompson. As contas foram refeitas e a contagem foi corrigida: vitória por 31 a 0, com 13 gols de Thompson. Posteriormente, a Fifa divulgou a súmula do jogo, confirmando o placar corrigido.

Jornal do Brasil, 12 de abril de 2001 (Imagem: Repriodução)
Como já citado aqui, aquele jogo quebrou vários recordes.
A vitória da Austrália por 31 a 0 se tornou a maior goleada da história em um jogo entre duas seleções. Curiosamente, o recorde anterior havia sido estabelecido dois dias antes, quando os australianos fizeram o já citado 22 a 0 sobre Tonga. Até então, o placar mais elástico em jogos do tipo era um 20 a 0 do Kuwait sobre o Butão nas eliminatórias para a Copa da Ásia de 2000.
Os 13 gols de Archie Thompson também assumiram o topo da lista entre os jogadores que marcaram mais gols em um único jogo de seleções. Até então, a marca era dividida por dois jogadores: o dinamarquês Sophus Nielsen, que marcou 10 vezes no 17 a 1 da Dinamarca sobre a França na Olimpíada de 1908, e Gottfried Fuchs, que repetiu o feito no 16 a 0 sobre a Rússia na Olimpíada de 1912.
Thompson também igualou o recorde de gols em uma partida oficial, incluindo clubes. A marca – ainda hoje vigente – é de 1885, quando John Petrie fez 13 gols na vitória do Arbroath por 36 a 0 sobre o Bon Accord pela Copa da Escócia.
O placar foi histórico, mas não virou exatamente motivo de orgulho entre os australianos. O técnico da Austrália na época, Frank Farina, questionou o formato das eliminatórias e a necessidade de jogos em condições tão distintas. E o próprio Archie Thompson concordou.
“Quebrar o recorde mundial é a realização de um sonho para mim – é o tipo de coisa que não acontece todo dia”, comemorou.”Mas você precisa olhar para os times contra os quais estamos jogando e começar a fazer perguntas. Nós não precisamos jogar estas partidas”, afirmou.
Para a Copa de 2006, as eliminatórias da Oceania mudaram – uma mudança que agradou a própria Fifa. Uma primeira fase disputada entre dez seleções, divididas em dois grupos, classificou quatro delas para a fase final, na qual se encontrariam com Austrália e Nova Zelândia. Ilhas Salomão, Taiti, Vanuatu e Fiji avançaram, deixando seis rivais para trás.
Na fase final, as Ilhas Salomão surpreenderam e tiraram a Nova Zelândia, mas acabaram superadas pela Austrália – que, por sua vez, perdeu para o Uruguai novamente na repescagem intercontinental. Daí em diante, a seleção australiana deixaria a Oceania para disputar competições pela Ásia, mais competitivas.
A seleção de Samoa Americana aproveitou a goleada para aprender. Para 2002, perdeu todos os jogos e levou 57 gols, sem marcar nenhum. Nas duas eliminatórias seguidas, ainda perdeu todos os jogos, mas ao menos marcou um gol em cada campanha.
Para 2014 e 2018, conquistou as primeiras vitórias e passou perto de avançar à segunda fase. Foi neste intervalo também que veio a melhor posição no ranking da Fifa (164 em 2015). Ficou fora das eliminatórias para 2022 (o que provocou a exclusão do ranking da Fifa em 2023 após cinco anos sem jogos oficiais), mas voltou no ciclo seguinte caindo logo no mata-mata da reformulada primeira fase, despedindo-se com uma derrota em um jogo.
Em 2026, a seleção de Samoa Americana disputou uma das chaves da Fifa Series, disputada em Porto Rico. Perdeu nas semifinais para as Ilhas Virgens Americanas (5 a 2) e o terceiro lugar para Guam (6 a 0).
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