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·27 de mayo de 2026

Crystal Palace e Rayo: o encontro do futebol de bairro numa final europeia

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Numa modalidade cada vez mais elitista, o futebol europeu vive esta quarta-feira uma noite diferente. A UEFA Conference League vai ter uma final entre duas equipas «de bairro»: o Crystal Palace, de Croydon, e o Rayo Vallecano, de Vallecas.

Apesar de estarem na elite de duas das principais ligas do mundo, os clubes não deixaram de lado a sua essência. Por vezes, até de forma algo exagerada. 


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Croydon fica no sul de Londres, a cerca de 15 minutos de comboio do centro da capital inglesa. Conhecida como uma região comercial local, é casa do Surrey Street Market, um dos mercados mais tradicionais da cidade, que começou a funcionar ainda no século XIII. 

No meio deste bairro movimentado está localizado o Selhurst Park, palco centenário do futebol inglês. Fica próximo da estação de Selhurst, que ganha uma nova vida nos dias de jogo, sobretudo quando há algum dérbi londrino. Os pubs da zona enchem-se de vida numa tradição passada de geração em geração. 

O Crystal Palace considera-se o clube profissional mais antigo em atividade, tendo sido criado em 1861. Dois anos depois, foi um dos fundadores da Football Association. A profissionalização do clube chegou em 1905. 

Durante a Primeira Guerra Mundial, o Governo Britânico requisitou as instalações originais do Palace, mas o clube decidiu manter-se em Croydon, onde se concentrava a sua base de adeptos, comprando o terreno para construir o Selhurst Park em 1922. 

Enraizado em Croydon, o Crystal Palace celebrou há um ano o seu primeiro título na elite ao vencer o Manchester City na F.A. Cup. Em agosto, nos penáltis, os Eagles levantaram a Supertaça frente ao Liverpool. Agora, o clube quer a Europa, na sua primeira final internacional. 

O austríaco Oliver Glasner é um dos grandes «culpados» pelo sucesso do clube. Com ele, o Palace conquistou os seus primeiros títulos na elite, registou a maior série de jogos sem derrotas da sua história no início da temporada e conseguiu afirmar-se na elite inglesa.

«É um grande feito para todos nós. Estamos a disputar esta competição pela primeira vez, muitos dos nossos jogadores nunca jogaram competições europeias, e precisávamos destes jogos, desta experiência, para avançar e melhorar. Agora, estamos de olhos postos na final, que será o nosso 17.º jogo na Conference e o nosso 60.º jogo da época, o que é incrível», destacou Glasner na conferência de imprensa de antevisão. 

Na realidade, o Palace deveria ter disputado a Liga Europa. Mas a relação com John Textor — então também dirigente do Lyon — acabou por levar o clube a uma derrota nos tribunais e a uma «descida» para a Conference. O Palace ainda teve de disputar as fases preliminares, eliminando o Fredrikstad, da Noruega, para chegar à fase de liga.

Seguiu para a fase a eliminar através dos play-offs e afastou Zrinjski Mostar, AEK Larnaca, Fiorentina e Shakhtar para chegar à final. Ismaila Sarr é o melhor marcador da equipa e da competição, com nove golos. 

O Rayo é Vallecas

Se há um bairro que vive o futebol em Madrid, chama-se Vallecas. Lá está o Rayo Vallecano, que para muita gente não representa Vallecas, mas é Vallecas. Os laços do clube com a região são inquebráveis. 

Se em Londres os adeptos dos Eagles têm a concorrência de rivais muito mais ricos e tradicionais, o que dizer da concorrência do Real e do Atlético em Madrid? Mas o Rayo não é rival desses clubes. É apenas um sentimento diferente. 

O clube foi fundado em 1924, na época da inauguração do Selhurst Park, por moradores de Vallecas numa casa do bairro. Curiosamente, também na zona sul de Madrid, Vallecas criou um clube para representar a identidade cultural do bairro. 

Vallecas é uma região de trabalhadores e viu no futebol a oportunidade de unir a comunidade. O Rayo é, muitas vezes, conhecido como o «club del pueblo» ou até como «equipo de barrio». E isso, em Vallecas, é o maior dos elogios. 

O Estadio de Vallecas é o maior exemplo possível de «clube de bairro»: modesto, «a cair de podre», como muitos dizem, tem prédios colados ao recinto que permitem aos moradores ver os jogos das suas próprias varandas. 

A relação com Vallecas não está apenas na identidade: está também em gestos do clube ao longo dos anos. Um dos mais marcantes aconteceu em 2014, quando uma moradora local de 85 anos foi despejada de casa. O então treinador da equipa, Paco Jémez, reuniu os jogadores para pagar a renda da senhora, e o clube fez um peditório coletivo que angariou mais de 20 mil euros. 

Considerado um clube progressista, o Rayo tem claques organizadas que participam em movimentos antifascistas e contra o racismo e a homofobia. Como forma de reforçar a identidade cultural e a proximidade com o bairro, clube e adeptos usam frequentemente a grafia «Vallekas». 

Com o jovem treinador Iñigo Pérez, que está no cargo praticamente há o mesmo tempo que Glasner no rival, o Rayo conseguiu duas épocas tranquilas na elite, na parte de cima da tabela, e chega agora ao auge com uma final europeia. 

«Ainda estamos nas nuvens depois do que conseguimos em Strasbourg. Não acho que tenhamos plena consciência do que alcançámos, e isso vai mesmo levar tempo a assimilar. De qualquer forma, foi uma longa caminhada, estamos a tomar consciência dos passos que demos, das lições que aprendemos e da experiência que ganhámos. E o passo final, obviamente, em Leipzig agora, esperamos que a nossa história tenha um final feliz», disse o treinador na conferência de imprensa de antevisão. 

À semelhança do Palace, também o Rayo iniciou a fase preliminar, eliminando o Neman, da Bielorrússia. A qualificação para a fase de liga foi carimbada com a quinta melhor pontuação geral, seguindo-se no mata-mata as eliminações do Samsunspor, AEK e Strasbourg. O brasileiro Alemão, melhor marcador da campanha do clube com quatro golos, em conversa com a imprensa brasileira, comparou o feito do clube com o Vitória chegar a uma final da Sul-Americana. 

Campeão apenas em divisões inferiores em Espanha, o Rayo chega à sua primeira final na história. Com uma estrutura muito abaixo dos padrões do Palace e uma situação financeira também inferior, a equipa de Vallecas chega à decisão como underdog, naquela que é a final mais alternativa que o futebol europeu viu nos últimos anos. Uma final de bairro em plena Leipzig, a valer um título internacional.

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