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·24 de enero de 2026

Desejada por Trump, Groenlândia tem futebol e campeonato de apenas 10 dias

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No fim do verão ártico, quando o sol de 24 horas ilumina campos de grama artificial, o futebol emerge como a paixão mais popular entre os 56 mil habitantes da Groenlândia, a maior ilha do mundo. Mas, apesar do amor pelo esporte e de um campeonato local que já existe desde 1954, o futebol groenlandês vive uma luta silenciosa por reconhecimento internacional, ajudando a ilustrar uma narrativa esportiva que se cruza com questões geopolíticas profundas.

Seleção que joga, mas não entra no mundo

A Groenlândia tem, sim, uma seleção nacional de futebol. Jogadores amadores formam a equipe, que veste as cores vermelha e branca em amistosos não oficiais contra outras seleções não reconhecidas pela Fifa. Apesar do desejo de competir além das fronteiras, a seleção não disputa torneios oficiais porque a Federação de Futebol da Groenlândia (KAK) não tem filiação à Fifa.


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Seleção nacional da Groenlândia sofre pelo fato de a ilha não ser filiada à Fifa – Foto: Divulgação/KAK

A federação, criada em 1971 e sediada em Nuuk, tenta há anos romper esse isolamento. Em 2024, a Groenlândia inscreveu oficialmente sua candidatura para ingressar na Concacaf, um passo considerado crucial para, posteriormente, tentar a afiliação à Fifa. No entanto, em junho de 2025, essa candidatura foi rejeitada.

Os poucos jogos que a seleção local disputa são contra combinados ou seleção de territórios cuja independência não é reconhecida. A última vez que a Groenlândia encarou uma seleção filiada à Fifa, foi em junho de 2024. Goleada sofrida de 5 a 0 para o Turcomenistão. A organização levou a partida para a Turquia, pois a logística de um jogo internacional em seu próprio território é praticamente inviável.

Campeonato nacional e clubes: do sol de meia-noite às limitações climáticas

No nível doméstico, o Campeonato Groenlandês segue seu curso com a participação de oito clubes e disputado apenas em dez dias, justamente nos dias mais quentes do verão no hemisfério norte. O bicho-papão é o B-67 Nuuk, que soma 16 títulos nacionais e é o atual campeão. Apesar da paixão e da participação de cerca de 10% da população como jogadores registrados, a infraestrutura e as condições ambientais — curto período de clima ameno, poucos estádios climatizados e altos custos de viagens — limitam absurdamente a evolução do esporte.

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Geleiras fazem companhia ao acanhado estádio em Qeqertarsuaq, na região noroeste da ilha – Foto: Divulgação/KAK

Geopolítica e futebol: quando o ‘copo de gelo’ vira símbolo global

O contexto esportivo do país ganhou um pano de fundo inesperado nos últimos meses. Em 2026, o ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a colocar o nome da ilha nas manchetes globais. Ele defendeu publicamente que os EUA deveriam ter “acesso total” ou até mesmo adquirir a Groenlândia. A posição gerou forte reação de líderes europeus, que a consideraram uma afronta à soberania da ilha e um risco para a estabilidade transatlântica.

Enquanto autoridades da Groenlândia e da Dinamarca reiteram que o território “não está à venda” e defendem sua autonomia dentro do Reino da Dinamarca, o debate pôs a ilha no centro de uma disputa geopolítica que vai muito além do tilintar de uma bola — e respinga no futebol local.

Alguns observadores e entusiastas groenlandeses, inclusive, chegaram a associar a rejeição da candidatura à Concacaf a essa turbulência política.

A federação havia programado uma viagem à sede da Concacaf, em Miami, para o fim de fevereiro de 2025, com o objetivo de discutir uma eventual filiação. No entanto, o encontro foi adiado após declarações de Donald Trump manifestando interesse em que o país assumisse o controle da ilha.

Diante do impasse, a expectativa passou a ser de que a reunião ocorresse em Londres no mês seguinte. Apesar disso, em junho de 2025, a Concacaf decidiu rejeitar a candidatura sem divulgar justificativas.

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