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·9 de junio de 2026

Do ‘yo yo’ ao triunfo: a revolução do Fulham, por Marco Silva, antes da mudança para o Benfica

Imagen del artículo:Do ‘yo yo’ ao triunfo: a revolução do Fulham, por Marco Silva, antes da mudança para o Benfica

A espera foi longa, mas eis que houve fumo branco. Esta terça-feira à noite, o Benfica oficializou a saída de José Mourinho para o Real Madrid e, prontamente, o seu substituto. Trata-se de Marco Silva, um treinador que está de regresso a Portugal, depois de ter passado nove anos em Inglaterra.

Cinco dos quais, os últimos, por sinal, foram no comando do Fulham, onde ajudou a transformar os cottagers, deixando para trás a fama de clube «yo yo» - em constante descida e subida de divisão.


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Por isso mesmo, o zerozero convida-o a reler, em baixo, a reportagem feita sobre o impacto do técnico lisboeta em Craven Cottage - a Reportagem original, publicada em janeiro de 2023.

Do ‘yo yo’ ao triunfo: a revolução do Fulham, por Marco Silva

A peregrinação a Craven Cottage já não é um penoso auto de fé. A procissão é feita de sorrisos, de esperança, e no andor-mor carrega-se o nome de um português, o responsável por esta revolução de futebol e de mentalidades no Fulham.

Há um antes-de-Marco, instabilidade e medo; há um depois-de-Marco, euforia histórica e medida de lápis atrás de orelha pelo brilhante – e impensável – sexto lugar na Premier League.

«Em 18 meses, o nosso treinador revolucionou o clube.»

A frase é de Jacqui Button, escritora e co-autora do blog ‘Jack and Loz at the Cottage’, um domínio de ternura desmedida pelo popular emblema londrino, parceiro de todas as horas das águas mansas do Tamisa.

Peter Rutzler, repórter do respeitado The Athletic, segue o dia-a-dia do Fulham. Enche o peito, pensa as palavras e confessa uma «paixão rara» pelo futebol criado por Marco Silva no velhinho Cottage.

«Ele foi capaz de dar ordem e de colocar a equipa a jogar ao ataque e a bater recordes. 106 golos marcados no Championship, uau!», exclama o jornalista, conhecedor profundo dos métodos e do pensamento do ex-treinador de Estoril e Sporting.

«A grande questão era esta: conseguiria o Marco manter este nível com o Fulham na Premier League? Sim, conseguiu. Há muitas razões para isso, a começar pelo quarteto defensivo. É o mesmo da época anterior e mostra uma solidez e organização perfeitas.»

Há um clamor coletivo, uma surpresa a passar de boca em boca, a rotular Marco Silva de «treinador da moda» quando, na verdade, o técnico já anda por Inglaterra desde 2016 – Hull City, Watford, Everton e, finalmente, Fulham.

«Quando o Marco chegou ao Fulham, os adeptos não sabiam bem o que esperar», confessa Jacqui Button na conversa com o zerozero. «Sabíamos que as equipas dele jogavam um bom futebol, mas o Marco mudou muitas vezes de clube e as coisas terminaram mal em alguns.»

Dúvidas de quem ama, hesitações de quem inicia uma nova relação. Será assim tão bom para sempre? Quando esfria esta paixão que nenhum de nós quer parar?

Stephen Gillett, editor do playmaker – irmão britânico do zerozero -, recorda os dias vividos em Londres, muitos deles nas bancadas de templo vitoriano de Craven Cottage, «uma casa pitoresca».

Com Marco Silva, o clube mantém os traços originais, mas a olhar para o futuro com «futebol moderno e atraente».

«Depois de subir na última temporada, os Cottagers estão de volta e em grande estilo. São os reis do oeste de Londres, à frente do ascendente Brentford e dos vizinhos chiques de Chelsea. O Marco só pode estar nos corações desta gente boa.»

O fim da via sacra, o início de um mundo de maravilhas, de um futebol que bate certo com a essência de uma instituição peculiar. Um clube de modos cavalheirescos, que ainda levanta o chapéu e faz uma vénia a quem chega.

A revolução está em marcha. Sem cravos, sem tiros, mas assaltada por uma ideologia carregada de convicções.

PASSO 1: O YO YO DE CRAVEN COTTAGE

As primeiras memórias de Stephen Gillett levam-nos aos anos 90. O Fulham anda perdido no terceiro escalão, engolido pelos gigantes de Londres e as sombras de uma pequenez não assumida.

«Craven Cottage sempre resumiu e simbolizou o Fulham, para o bem e para o mal. Esses foram tempos madrastos, apesar dos bons esforços do presidente de então, Jimmy Hill. Era um conhecido comentador, mas não deixou um bom legado.»

Em 1997, o destino – seja lá isso o que for – começa a mudar. Mohamed Al-Fayed, multimilionário e dono dos armazéns Harrods, investe 6,25 milhões de livras [7,2 milhões de euros], passa a ser o dono do Fulham e a vesti-lo, literalmente, com as peças mais caras da época.

«Ele contratou o treinador Kevin Keegan, mudou a imagem do clube e o Fulham reapareceu no mapa futebolístico. Em 2001 vi-os a jogar muitas vezes, já na Premier League, até aos dias do Chris Coleman», conta o analista britânico.

«Steed Malbranque, Van der Sar, nomes muito grandes, se calhar demasiado grandes para a equipa, e tudo às custas do dinheiro do senhor Al-Fayed.»

A glória, ainda que efémera, chega anos mais tarde. Marc Schwarzer, Aaron Hugues, Danny Murphy, Damien Duff e Bobby Zamora são a tropa de elite de um pelotão competente em Inglaterra e atrevido na Europa.

a vitória na Intertoto de 2002, a final perdida da Liga Europa em 2010 [para o Atlético Madrid], uma era de resultados consistentes e financiados pelo homem certo, na perspetiva cottager.

Uma perspetiva reforçada em 2013. Al-Fayed vende o Fulham a Shahid Khan e encerra 16 anos memoráveis. Com Khan, inicia-se o famoso ciclo yo yo, de ups and downs, uma montanha-russa desproporcionada nos idílicos recantos de Fulham. Sinistro.

«A nova administração do senhor Khan investiu em muitos reforços, na altura do treinador Slavisa Jokanovic e depois com o Claudio Ranieri. Mas a equipa subia e descia, não se estabilizava. Com o Scott Parker foi a mesma coisa. Pior, até. Demasiados jogadores emprestados, demasiadas mexidas, não foi um período fácil», assinala Peter Rutzler.

«Foi este, de resto, o clube encontrado pelo Marco Silva, um pouco à semelhança do Jean Tigana em 2000/01. Muito instável em todos os aspetos.»

Jacqui Button tem, ainda, dificuldades em analisar essas épocas de enjoo constante. «É stressante ver a nossa equipa a lutar pela promoção numa temporada, é ainda mais stressante vê-los a lutar e a falhar para evitar a despromoção na seguinte», desabafa, ainda a sentir na alma as dores de demasiadas batalhas perdidas.

«Dizer que o nosso treinador anterior, o Scott Parker, não tirou o melhor proveito dos jogadores seria um eufemismo. Ele quase não usou o Aleksandar Mitrovic [goleador da equipa] na Premier League», recorda a escritora inglesa.

«Os adeptos do Fulham sempre acreditaram que o Mitro tinha tudo para ser um atacante de sucesso na Premier League. Foi tão frustrante para nós quanto para o Mitro vê-lo preso no banco. O futebol do Parker era excessivamente cauteloso e chato de assistir, além de ineficaz.»

Como se resolve uma maleita grave? Com o antídoto certo.

E Marco Silva chega a Craven Cottage.

PASSO 2: «MARCO SILVA, HE’S A GENIUS»

O cântico enche as traves negras de Craven Cottage. Gargantas aquecidas por pints, camisolas brancas, 30 mil ingleses rendidos a um lisboeta.

F… off, Scott Parker, We’ve got Marco Silva He’s a genius He’s a genius

A tradução é desnecessária. Um palavrão para o antigo treinador, uma lâmpada de génio para Marco Silva, o mundo cottager de braço dado com a equipa.

Marco está bem acompanhado em Londres, nada é por acaso. Na equipa técnica está um português que tem mais de 250 jogos pelo Fulham (Luís Boa Morte), um treinador que torna em ouro todos os guarda-redes em que toca (Hugo Oliveira), mais Gonçalo Pedro e Bruno Mendes. O inglês Stuart Gray completa o sexteto.

O que tem de especial o trabalho de Marco Silva, afinal?

«O futebol dele é rápido e emocionante», responde Jacqui Button, detentora de um lugar anual em Craven Cottage. «Há um plano claro para colocar a bola em zonas perigosas, da maneira mais eficaz possível. A equipa sabe usar os passes longos de forma precisa e os jogadores conhecem os seus papéis tão bem que é como se estivessem a comunicar-se telepaticamente.»

Peter Rutzler continua surpreendido. Em teoria, explica, este plantel do Fulham tem um nível algures «entre o topo do Championship e o poço da Premier League».

«O Mitrovic, o [Tom] Cairney e o [Tim] Ream pareciam demasiado bons para o segundo escalão e não suficientemente bons para a primeira divisão. O Marco colocou-os a jogar num nível absurdo. Não só a eles, praticamente a todos os jogadores.»

Jacqui e Peter concordam na perspetiva do «rendimento acima das expetativas», muito acima.

«O Marco melhorou todos os jogadores, e não apenas tecnicamente. Incutiu crença e confiança num clube que não estava acostumado a vencer», prossegue a autora inglesa, em confesso deleite.

«Esta temporada está a ser inacreditável. Os jogadores que chegaram adicionaram qualidade e encaixaram perfeitamente. Adoramos o João Palhinha pelos desarmes duros e a atitude sensata, mas também porque é um rapaz discreto, genuíno e engraçado. O Willian encontrou um novo sopro de vida. O Andreas Pereria não brilhou no Manchester United, mas é uma revelação no Fulham.»

Tudo bate certo, na «combinação de antigos e novos talentos» e «uma clara identidade de ataque».

Fora do campo, a harmonia é evidente. Outra novidade. «A ligação entre os jogadores e os adeptos está mais forte do que nunca, fomentada pelo Marco. Ele fala muito sobre o trabalho duro e a família, o que ressoa nas bancadas. E, claro, ajuda muito ter um adjunto que é uma lenda do Fulham, o Luís Boa Morte.»

De acordo com Jacqui, o braço de influência de Marco estende-se até à academia, aos escalões jovens. A ligação entre os vários escalões está reforçada, há «positividade e emoção».

«O Fulham e o Marco são a combinação perfeita. Ele é bem sucedido e humilde, ambicioso e realista. Queremos que faça de Craven Cottage a casa dele durante muito tempo.»

PASSO 3: MUNDO MODERNO NA RIVERSIDE STAND

Erguido no final do século XIX, Craven Cottage tem tanto de ultrapassado como de icónico. É uma delicada peça de ourivesaria, a exigir o tratamento adequado e paciente.

Uma das bancadas [The Riverside Stand] está a ser remodelada e será o poro por onde entrará o mundo moderno.

«Craven Cottage é único, mas o futebol contemporâneo talvez exija estruturas com capacidade para acomodar restaurantes, lojas, outras comodidades. É isso que o Fulham tentará com a nova The Riverside Stand. Acredito que no verão esteja pronta», explica Peter Rutzler.

«O clube não gera receitas suficientes, quando comparado com outros, e daí a necessidade de encontrar outras formas de atrair investimento. Os adeptos lidam há algumas décadas com o receio de uma relocalização. A zona do estádio é muito rica, valiosa e isso impede um grande investimento em obras, por isso o clube tem ficado e mexido só naquilo que considera prioritário.»

A área das Finanças não é de Marco Silva mas, até aí, o treinador tem um papel de influencer. «O clube está na direção certa, onde estava há uma década. E está a procurar ir além disso, a ser sustentável, e acho que o Marco Silva está a acelerar esse processo (risos), a quebrar com o ciclo-yo yo

O que é o Fulham, para além das quatro linhas? Que tipo de vida vive a equipa técnica portuguesa? Rutzler pinta um requintado quadro social.

«O estádio está numa das zonas mais bonitas de Londres, muito bem projetada e com o rio a dar uma beleza especial. É uma zona glamourosa, na realidade, e o Fulham está a tentar explorar isso cada vez mais. É mais uma forma de atrair os futebolistas, os treinadores, até os adeptos.»

Vários atletas vivem na zona de Chelsea Harbour ou Parsons, «áreas maravilhosas», e é por aí que a procissão das primeiras linhas passa em dia de jogo. Um auto de fé feito, cada vez mais, de sorriso nos lábios.

Gentileza de Marco Silva, o revolucionário. 

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