Jornal do Fla
·3 de julio de 2026
Ederson quebra silêncio sobre negligência do DM e diz que Flamengo pediu para omitir gravidade de lesão

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·3 de julio de 2026

O ex-jogador Ederson, que passou pelo Flamengo entre 2015 e 2018, fez excelentes partidas com o Manto Sagrado, mas teve seu período em campo reduzido por conta dos problemas envolvendo lesões e o câncer no testículo.
Esta sexta-feira (3) marca dez anos desde a dura entrada de Fágner, do Corinthians, no então meia do Flamengo. O Jornal do Fla conversou com Ederson para relembrar o momento, e ele diz que tudo começou ainda na primeira lesão, que teria sido mal conduzida pelo Departamento Médico do clube.
Em um forte desabafo, emocionante e repleto de bastidores, Ederson detalha uma sucessão de diagnósticos confusos, divergências médicas e pressões nos bastidores que encurtaram sua carreira.
Não foi em 2016, contra o Corinthians, que Ederson começou a ter problemas no Flamengo. Em 2015, em clássico contra o Vasco, ele sofre uma grave lesão no joelho direito. Mas ela teria sido negligenciada pelo Departamento Médico do clube, segundo o ex-meia.
“Foi uma sucessão de coisas que dificultou minha passagem pelo Flamengo, não apenas a lesão no joelho esquerdo e depois o câncer de testículo. Tudo começou depois de uma séria lesão que tive no joelho direito, na verdade, que foi contra o Vasco, no Maracanã. Tive uma ruptura do ligamento lateral externo do joelho direito. Começaram os problemas, porque nos exames que fiz, no dia seguinte, quando cheguei para fazer o treino, os médicos me passaram que não tinha nada, não era nada, que eu poderia voltar a treinar normal. Me troquei, fui tentar fazer o treino e quando comecei a correr, um trotezinho de aquecimento, já senti uma dor enorme, muito, muito forte”, inicia, antes de prosseguir:
“Falei para os médicos, para os fisioterapeutas e eles não acreditavam que eu estava com dor, porque eles estavam falando que o exame não tinha nada. No dia seguinte também, mesma coisa, pediram para eu treinar e tentei, e não consegui, porque tinha muita dor. Somente nesse segundo dia, dois dias depois da segunda tentativa de treino, que chegou realmente o resultado do exame, que veio dizendo que tinha uma ruptura total do ligamento”.
Com a confirmação do diagnóstico, Ederson diz ter batido de frente com o DM, então chefiado pelo Dr. Márcio Tannure, e com Rodrigo Caetano, então diretor de futebol, hoje na Seleção Brasileira. Ele afirma que o clube optou tratamento conservador, indo contra indicação de especialistas externos que Ederson buscou, e criando uma versão para blindar o DM diante da mídia.
“Fiquei muito desconfiado. Como é possível te falarem que não tem nada, nenhuma lesão, que você tinha que treinar e aí dois dias depois chega o resultado com uma ruptura do ligamento. Ali começaram já as primeiras batalhas, porque quando você rompe um ligamento, o tratamento mais indicado seria a cirurgia, para reconstituir esse ligamento, reposicionar esse ligamento no lugar correto, para que ele possa cicatrizar corretamente, para você voltar mais forte depois e mais rápido. E aí começaram as discordâncias, porque o doutor Tannure não concordava em fazer essa cirurgia“, comenta, antes de continuar:
“Os outros médicos que foram consultados indicavam a cirurgia. Inclusive, eu pedi autorização para o Flamengo para fazer essas consultas. Eu tive autorização, foi indicada a cirurgia e o doutor Tannure foi contra. Isso foi em outubro, final de setembro, outubro de 2015. Eu poderia ter feito uma cirurgia que não era complicada e ter voltado no comecinho da outra temporada, em 2016, bem. Eles preferiram, o doutor Tannure e depois o diretor Rodrigo Caetano também, que confiava muito no doutor Tannure, preferiram não deixar eu operar e fazer um tratamento conservador”.
Ederson, então, afirma que o clube pediu para que ele omitisse o que estava acontecendo.
“E o que me fez ficar ali fora dos campos também muito mais tempo do que o necessário. E aí existiu toda uma narrativa que eles pediram para eu falar para a imprensa que, na verdade, eu estaria supostamente fazendo um trabalho de reequilíbrio muscular, quando, na verdade, eu só estava tentando tratar a lesão, esperar o tempo de cicatrização desse ligamento, o que demorou muito tempo. Acho que perdi muitos meses, já comecei a ter muita desconfiança dos tratamentos e era difícil lidar com essa situação”, comenta.
Quando conseguiu voltar a jogar em 2016, Ederson seguia com preocupação constante e desconfiança por conta do joelho, e o desfecho foi uma tragédia com a entrada de Fágner resultando em uma nova lesão grave.
“Quando consigo voltar a jogar, fiz alguns bons jogos, estava pegando sequência de novo, estava voltando a pegar ritmo. O detalhe é que voltei com esse ligamento, que nunca tinha operado do joelho direito. Eu voltei com ele ainda não 100%, porque não fiz a cirurgia, tentei voltar assim naturalmente, então sempre tinha ali um ponto frágil nesse joelho direito, no ligamento lateral externo. Voltei, assim, um pouco sem confiança, com relação a isso, porque não tinha feito o tratamento correto”, comenta, antes de seguir:
“Mesmo assim, com determinação, foco, fé, muito trabalho, consegui voltar. Consegui ir superando aos poucos e estava pegando o ritmo quando aconteceu o lance contra o Corinthians e a lesão no joelho esquerdo também dessa vez. Tanto é que quando o Fágner dá aquela entrada, a minha preocupação maior foi com o joelho direito, que é o que eu tinha sofrido a lesão antes e estava voltando. Eu jogava com uma preocupação enorme com esse joelho direito, que não foi operado e que estava voltando sem ter sido operado. Era assim um ponto de preocupação muito grande para mim”.
Ederson, enfim, relembra o fatídico lance e diz que o Flamengo estava mais preocupado com o que a imprensa diria caso ele buscasse tratamento fora do clube.
“Tanto que quando o Fágner dá aquela tesoura, me preocupo com o joelho direito, sendo que a lesão ali, o que ficou no chão apoiado foi o joelho esquerdo, que foi depois se agravando a lesão durante o jogo. Todo esse conjunto de coisas, já a lesão do joelho direito que não foi muito bem tratada, demorei muito para voltar, depois consigo voltar e estou pegando o ritmo, faço o gol contra o Inter, volta a confiança e aí depois vem a entrada, lesões múltiplas no joelho esquerdo, o mesmo problema, dificuldade de tratamento, divergência de tratamento. Me lembro de uma conversa que tinha nos bastidores com o médico, com o diretor, dizendo que eu não podia fazer o tratamento fora. Eles estavam muito preocupados com o que a imprensa ia dizer sobre o Departamento Médico do Flamengo se eu tratasse fora”, lembra.
O Flamengo dominou o Corinthians, e Ederson lembra que continuou em campo, o que fez piorar a sua situação.
“Essa entrada do Fágner vai ficar marcada para sempre na memória, não só minha, mas também de muitos torcedores. Muita gente, ainda hoje, quando me encontra, ainda cita esse lance, fala que estava assistindo o jogo. E as pessoas lembram que, nesse jogo, eu estava muito bem. Estávamos pressionando o Corinthians, acertei uma bola na trave e o Flamengo estava jogando bem melhor. Infelizmente, depois dessa entrada, eu ainda tentei continuar em campo. O que piorou também foi a condição do meu joelho”, diz Ederson.
Ederson fala em derrocada após após o jogo entre Flamengo e Corinthians.
“Depois do intervalo, quando esfriou mais o sangue, quando eu voltei para o segundo tempo, eu senti mais dores. E eu tive que sair. Depois que eu saio do jogo, infelizmente, alguns minutos depois, o Flamengo toma o primeiro gol e aí vem uma sucessão de gols. O Corinthians acaba fazendo 4×0, mas é um resultado que não mostrou realmente como foi todo o jogo. Porque, no primeiro tempo, a gente massacrou o Corinthians e faltou apenas fazer o gol. E eu estava, no primeiro tempo, muito bem junto com o time. Infelizmente, depois que eu saí, veio a derrocada. Mas, assim, o que mais marca para mim não foi nem esse lance. Claro que foi um lance duro, uma chegada firme”, concorda.
Ele diz que o pior foi a impunidade para Fágner, além do juiz ter expulsado o então técnico do Flamengo, Zé Ricardo, por pedir a expulsão do lateral do Corinthians.
“O juiz não deu nem falta e o nosso treinador, Zé Ricardo, foi reclamar e acabou sendo expulso. Foi tudo muito inacreditável, sabe? E aí, depois, como eu estava bem no jogo, continuei no jogo, mesmo machucado. E agravou mais ainda a situação”, lembra.
Ederson, então, lista os problemas que teve depois dessa questão.
“Mas o que mais me doeu foi o que aconteceu depois. Porque tive várias lesões no joelho. Foram lesões graves. Lesão no menisco, lesão no cruzado posterior, lesão no ligamento colateral interno. E o tratamento, os exames, foi tudo muito confuso. Porque, uma hora, se falava uma coisa, uma hora se falava que não era nada. Que foi apenas um edema, uma pancada. Que eu iria voltar a jogar em 30 dias. Sendo que eu não conseguia nem colocar o pé no chão. E aí, esses dias foram se transformando em semanas, meses. E aí, infelizmente, acabei ficando fora dos gramados por mais de 10 meses. Foi, com certeza, o momento mais difícil da minha carreira”, lamenta, antes de continuar:
“Porque eu sabia que teria que buscar um outro tipo de tratamento para conseguir voltar. E, infelizmente, a decisão do departamento médico, do clube, foi de tentar um tratamento conservador. O que me fazia sofrer muito, porque não melhorava, não progredia. E quando progredia um pouquinho, se tentava voltar para o campo, forçar. E as dores voltavam, pioravam, na verdade. E aí, regredia completamente, piorando cada vez mais a situação do meu joelho”.
Ederson chega a comparar a postura do Flamengo com a do Lyon, clube onde jogou na França. Isso porque ele culpa o Rubro-Negro de ter se preocupado mais com a opinião pública.
“Tinha todas essas questões que eu não conseguia entender, porque meu objetivo principal era me recuperar, independentemente de quem iria fazer cirurgia, de quem iria fazer tratamento. Meu foco era recuperar, mas eles tinham todas essas preocupações, que não era o foco principal, infelizmente se sobrepôs ao foco principal. Isso me deixava muito contrariado. Foi muito difícil para mim enfrentar tudo isso, porque para mim era inédita essa situação. Passei por clubes europeus, no Nice, graças a Deus, eu não tive muitas lesões, e depois no Lyon, infelizmente no Lyon eu tive uma lesão séria também, mas o tratamento comigo lá foi completamente diferente”, lembra, antes de explicar:
“Eu fiz a cirurgia com um doutor que não era do clube, depois o clube deu todo o acompanhamento. Me recuperei super bem, foi tudo muito bom. Tinha um lado mais humano, um lado mais correto, na questão de fazer o tratamento, não tinha essa preocupação do que a imprensa ia falar, o que que iam dizer do Departamento Médico do Clube. Lá foi tudo muito mais fácil, mais tranquilo pra recuperar”.
Ederson diz que o Flamengo fez com que ele tivesse que escalar uma montanha.
“Aqui no Flamengo eu enfrentei essas dificuldades que não deveriam existir, mas infelizmente existiu o que fez com que virasse uma montanha pra mim escalar. Poderia ter sido muito mais tranquilo a recuperação”, reclama.
Ele só contou esses detalhes anos depois, levando até alguns torcedores a duvidarem da veracidade das suas palavras.
“Foi tudo muito complicado na questão da recuperação com o Departamento Médico do Flamengo. Me expressei apenas alguns anos depois porque não queria, de maneira nenhuma, causar uma intriga dentro do clube, uma discordância, causar polêmica. Nunca fui um jogador de polêmica negativa, sempre procurei ser um cara muito positivo na minha carreira, sempre fui um exemplo em todos os clubes que passei, fui muito bem respeitado e não queria no Flamengo ficar causando polêmica na imprensa, não queria explanar tudo o que estava acontecendo”, rememora.
Para Ederson, ter guardado os bastidores por tanto tempo se deu por priorizar o ambiente do Flamengo. Ele levanta a hipótese dolorosa de um estresse acumulado que teve que suportar por conta do episódio.
Ederson entende que o silêncio pode ter sido até um dos fatores que contribuíram para o desenvolvimento do câncer no testículo.
“Meu foco era fazer o tratamento correto, me recuperar e voltar a jogar. Infelizmente bati de frente contra um muro, uma barreira muito grande, não consegui fazer o tratamento que seria necessário e não queria explanar isso para não criar um ambiente ruim dentro do clube. Foi muito difícil naquele momento. Ao mesmo tempo que eu estava passando por tudo aquilo, eu tinha que segurar tudo aquilo comigo para não causar toda essa polêmica e foi muito difícil segurar. A doença que tive, certamente foi um fator que deve ter contribuído, mas procurei não causar polêmica pensando no clube e acabei enfrentando tudo aquilo calado“, comenta, antes de continuar:
“Talvez possa até ter servido para o clube, para o DM, para melhorar nesse sentido. Depois eu vi que alguns jogadores que tiveram lesões sérias tiveram a oportunidade de operar com outros médicos fora do clube. Recuperou, foi tudo bem, voltou a jogar. Com a dificuldade que eu tive, muito provavelmente até o DM do Flamengo melhorou, abriu mais a mente e possibilitou a outros jogadores de conseguir um tratamento melhor para voltar a jogar mais rápido, que era tudo que eu queria e não pude ter”.
Ederson faz questão de esclarecer que ama o Flamengo e seu problema não foi com o clube ou com a toricda, mas sim com pessoas específicas que atrapalharam sua recuperação.
“Quero deixar bem claro que nunca tive nada contra o Flamengo, a instituição Flamengo. Sempre amei o Flamengo, sempre vou respeitar essa camisa, sempre vou respeitar o clube. A questão foi com algumas pessoas ali dentro, mais especificamente com o doutor Márcio Tannure, que dificultou muito os meus tratamentos”, diz.
Ao fim de seu contrato com o Flamengo, Ederson se viu obrigado a encerrar a carreira de forma precoce, com apenas 32 anos. O futebol se tornou uma rotina de dores, e quando pôde encerrar o sofrimento, o sentimento foi de alívio.
“Quando encerrei o contrato com o Flamengo, eu ainda tinha muitas dores no joelho. E mais uma prova de que eu deveria ter sido operado, feito a cirurgia, é de que a opção de ter feito o tratamento conservador, de não fazer a cirurgia, não foi a correta, porque eu fiquei mais de sete meses para tratar o tumor de testículo, a cirurgia para tirar a massa, a quimioterapia. Fiquei seis, sete meses tratando do testículo, então o meu joelho ficou sem fazer nenhum esforço”, diz, antes de seguir:
“E mesmo assim, depois que voltei de tudo isso, ainda tinha muitas dores no joelho. Por quê? Porque realmente eu deveria ter feito a cirurgia. Voltei a treinar, ainda com muitas dores no joelho, e segui mesmo assim, aguentando dor para tentar fazer o que eu mais gosto, que era jogar futebol. A dor persistiu. E quando você joga por muito tempo com dores crônicas, não é mais um prazer, né? Você não joga mais com alegria, com felicidade, porque quando você vai treinar ou jogar, tem que passar por cima de dor todos os dias, aí já não vira mais um prazer. Então, eu tive que optar por encerrar a carreira, Mas como um alívio mesmo, um alívio para não sentir mais tanta dor”.
Ederson diz ter força mental para superar dores, mas ninguém aguenta ter que conviver com elas diariamente.
“Porque se é uma dor suportável, se é uma dor que não é constante, que vem de vez em quando, a gente supera, né? Já joguei com dores, já treinei com dores, de momento, e depois passou, e isso é tranquilo. A gente supera. Tem essa mentalidade, essa força mental para superar, mas quando se trata de uma dor insuportável, todos os dias, aí não tem quem aguente, né? Encerrar a carreira ali acabou sendo um alívio mesmo.
Apesar disso, ter que se aposentar cedo doeu pelo fato de sempre ter se cuidado justamente para poder atuar por um longo período.
“Os companheiros sempre me falavam que eu era muito certinho. Certinho até demais, que não saía para a balada, não bebia, me alimentava bem, cuidava do meu sono, dormia certinho nos horários. Dava até conselhos de alimentação para outros jogadores que me perguntavam. Sempre buscava fazer o mais correto possível para ter uma longevidade na carreira. Meu objetivo era jogar até uns 38, 40 anos, mas, infelizmente, devido a tudo isso, eu tive que parar nos 32 anos. Isso me machucou muito”, afirma.
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