Calciopédia
·14 de julio de 2026
Líder e herói da Dinamarca, o zagueiro Simon Kjaer foi campeão italiano pelo Milan

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O dinamarquês Simon Kjaer sempre se destacou como um zagueiro de muita capacidade técnica e com uma disposição que remetia à tradição escandinava. Na antiguidade, os vikings acreditavam que apenas quem morresse em batalha poderia apenas chegar a Valhalla – um salão para os mais nobres guerreiros e o mais próximo, para a religião pagã nórdica, do que seria o paraíso. O defensor, sempre que entrou em campo, se entregou até a última gota de suor para conquistar um lugar entre os vencedores e, apesar de ter obtido somente uma glória, a da Serie A, pelo Milan, nunca deixou seus companheiros para trás. Que o diga Christian Eriksen.
Nascido na cidade de Horsens, em março de 1989, Kjaer iniciou sua carreira no Midtjylland, na temporada 2007-08. Ele não demorou muito para se tornar um titular do time, se tornou a grande revelação da Superliga na campanha do vice-campeonato dos rubro-negros e foi vendido depois de apenas 19 partidas como profissional.
Apesar de ter sido sondado por diversos gigantes do futebol mundial e ter recebido uma proposta do Real Madrid, sua opção foi por um passo mais cauteloso – e concreto. Então com 19 anos, o zagueiro acertou com o Palermo, que fez uma proposta superior à merengue e vinha fazendo boas campanhas na Serie A, sempre mostrando eficiência em sua prospecção de talentos e valorizando jovens. O fato é que Kjaer havia impressionado o diretor Rino Foschi depois de ter atuado na Copa Viareggio de 2008 com o time juvenil do Midtjylland e, naquele mesmo mês, assinou com o clube italiano. Só se juntaria ao novo time, entretanto, na temporada seguinte, depois do vice-campeonato dinamarquês.
Quando chegou à Itália, o zagueiro já havia queimado etapas e passado rapidamente da seleção sub-18 à sub-21 de seu país, estando na mira da equipe principal dinamarquesa. Na Sicília, ele teria um ambiente frutífero para desenvolver seu futebol, considerando que o Palermo costumava brigar na parte superior da tabela da Serie A. Em 2008, o elenco rosanero contava com outros jogadores de muita qualidade, como o brasileiro Fábio Simplício, Antonio Nocerino, Marco Amelia, Fabrizio Miccoli, Mark Bresciano, Federico Balzaretti, o jovem talento uruguaio Edinson Cavani e mais outros bons nomes.
Habilidoso na construção de jogo e nas bolas aéreas, além de ter bom físico e ser eficaz em antecipações e roubadas de bola, Kjaer logo se tornou titula do Palermo, chamando atenção desde o início, tanto por sua capacidade defensiva quanto por sua maturidade com a bola nos pés. Em sua primeira temporada, somou três gols em 27 aparições, ajudando os rosanero a ficarem com o oitavo lugar na Serie A. E, merecidamente, ganhou convocações para a seleção da Dinamarca.
Durante sua militância pelo clube da Sicília, o viking desempenhou tão bem seu futebol que recebeu o prêmio de melhor jogador dinamarquês do ano de 2009 – o mesmo em que estreou pela seleção de seu país. E, se foi bem em sua temporada de debute na Itália, brilhou mais intensamente ainda em 2009-10, quando um Palermo reforçado por Javier Pastore e pelo amadurecimento de Cavani teve um desempenho deslumbrante e se classificou para a Liga Europa devido a um excelente quinto lugar na Serie A. Com participação intensa de Kjaer, que marcou duas vezes em 38 aparições totais, somando três jogos da Coppa Italia, o time rosanero ficou apenas dois pontos atrás da Sampdoria, que ficou com vaga na fase preliminar da Champions League.
Ao final da temporada 2009-10, Kjaer representou a Dinamarca na Copa do Mundo, concluída pelos escandinavos com queda na fase de grupos. Em seguida, o Palermo recebeu uma boa proposta e decidiu lucrar com o defensor, que somou 65 aparições vestindo rosa e preto: contratado por cerca de 3 milhões de euros, foi vendido por 12,5 ao Wolfsburg, que fora campeão da Bundesliga um ano antes.
Kjaer chamou a atenção do futebol italiano na Copa Viareggio e foi parar no Palermo, eficiente na prospecção de jovens (Getty)
O clube da Alemanha vinha investindo pesado em seu elenco e contratando reforços jovens e de talento, como os brasileiros Diego e Cícero, além de Mario Mandzukic, que se juntavam a nomes como Andrea Barzagli, Edin Dzeko, Josué e Grafite. Apesar de, individualmente, o zagueiro dinamarquês mostrar bom futebol, coletivamente o time estava extremamente desajustado e brigou até o final contra o rebaixamento na Bundesliga. A expectativa era de que Kjaer desse continuidade à evolução apresentada na Itália, mas o ambiente instável acabou dificultando sua experiência e os próprios resultados esportivos dos Lobos.
Na época seguinte, 2011-12, Kjaer jogou algumas partidas vestindo a camisa verde e acabou sendo emprestado para a Roma no fim do mercado de verão. Sua contratação atendia a um pedido do diretor esportivo Walter Sabatini, que conhecia muito bem seu futebol desde os tempos de Palermo e acreditava que o defensor poderia reencontrar na capital italiana o nível apresentado na Sicília. A Loba, entretanto, atravessava um momento de profundas mudanças.
A Roma iniciava um novo projeto sob o comando de Luis Enrique, treinador que chegava cercado de expectativas após o bom trabalho realizado no Barcelona B e carregando a missão de implantar uma filosofia baseada na posse de bola e na construção desde a defesa. A adaptação, contudo, foi muito mais difícil do que o imaginado. Entre oscilações de desempenho, pressão por resultados e dificuldades para consolidar o novo modelo de jogo, os giallorossi fizeram uma temporada decepcionante, terminando apenas na sétima colocação da Serie A e acumulando eliminações precoces nas competições de mata-mata. Inserido nesse contexto instável, Kjaer demorou a se firmar. O beque disputou boa parte da campanha como titular, mas as 24 aparições acabaram não convencendo a diretoria a exercer sua compra em definitivo.
Mesmo nesse cenário turbulento, o dinamarquês manteve prestígio suficiente para seguir frequentando a seleção nacional e foi titular da Dinamarca na Euro 2012. Escalado por Morten Olsen em todas as partidas da fase de grupos, confirmou sua condição de principal nome da nova geração defensiva do país, embora os escandinavos não tenham conseguido avançar ao mata-mata.
De volta ao futebol alemão após a competição continental, ele mais uma vez teve dificuldades para se firmar, mas eventualmente se tornou titular incontestável e pedra basilar para um resultado de muito mais solidez na Bundesliga: o 11º lugar – ainda que isso nem se compare ao título do Wolfsburg anos antes. Concluída mais uma etapa em sua carreira, decidiu novamente mudar de ares. Sua nova casa seria a França. Simon chegou ao Lille, onde jogaria por duas temporadas.
Três anos antes, em uma época ainda anterior à compra do Paris Saint-Germain, que mudaria o eixo do futebol francês, os Dogues haviam sido campeões com um elenco recheado de talentos, como Yohan Cabaye, Gervinho e Eden Hazard, mas, após muitas saídas importantes, o rendimento já não era o mesmo e havia preocupação de que a queda de desempenho seguiria. Ainda assim, a equipe conseguiu montar um sistema defensivo bastante sólido, do qual Kjaer rapidamente se tornou uma das referências. Com uma defesa segura, o Lille terminou a Ligue 1 na terceira colocação e garantiu vaga nas fases preliminares da Champions League. O desempenho, contudo, não se repetiu na temporada seguinte, quando o LOSC caiu para o oitavo lugar – o que terminou encerrando mais um ciclo do dinamarquês, que decidiu aceitar um novo desafio.
O dinamarquês parecia uma boa contratação para a Roma, mas acabou não se firmando num ano atribulado para os giallorossi (Getty)
Na metade de 2015, o zagueiro desembarcou na única cidade do mundo que se divide entre dois continentes, Istambul, e rumou à parte asiática da metrópole para jogar pelo Fenerbahçe, onde reencontrou Diego e ainda teve a oportunidade de atuar ao lado do matador Robin van Persie. Entretanto, a história se repetiu. Apesar do bom nível apresentado pelo defensor, a equipe acabou decepcionando, não conquistando nenhum título nos dois anos em que ele esteve lá – o Fener terminou a Süper Lig com um terceiro e um segundo lugares. Também foi nesse período que, infelizmente, Kjaer passou a conviver com problemas físicos de forma mais frequente. A situação acompanharia sua carreira nos anos seguintes.
Já um jogador experiente e muito regular, Kjaer voltou a uma das cinco principais ligas europeias em 2017. O viking se mudou, então, para a Andaluzia, como nova contratação do Sevilla. O clube ainda procurava se manter entre os protagonistas do futebol espanhol, mas já dava sinais de instabilidade administrativa e esportiva que se agravariam nas temporadas posteriores, apesar dos títulos da Liga Europa obtidos em 2020 e 2023. Em dois anos, o escandinavo disputou um número expressivo de partidas e seguiu demonstrando a regularidade que marcara sua carreira, porém a combinação entre o rendimento irregular da equipe e seus problemas físicos fez com que o ciclo chegasse ao fim antes do esperado.
Nesse período em que pouco tempo passava nos clubes que o contratavam, Kjaer alcançou o auge de sua liderança na seleção dinamarquesa. Desde 2016, quando herdou a braçadeira de capitão após a aposentadoria de Daniel Agger, havia se consolidado como uma das principais referência da equipe nacional. Sob seu comando, a Dinamarca voltou a disputar uma Copa do Mundo em 2018, na Rússia, torneio em que o zagueiro atuou como titular nas quatro partidas da campanha, encerrada apenas nas oitavas de final, nos pênaltis, diante da Croácia.
Em setembro de 2019, o beque voltaria ao país em que teve seus momentos de maior estabilidade em nível de clubes: a Itália. Dessa vez, entretanto, não no ensolarado sul italiano, mas no sisudo norte. Ao fim da janela de transferências, o dinamarquês chegou por empréstimo à Atalanta, uma das equipes mais fascinantes da Europa naquele momento. Contudo, encontrou dificuldades para se adaptar ao exigente sistema de Gian Piero Gasperini, especialmente pela utilização constante de uma linha de três defensores, na qual nunca conseguiu se encaixar plenamente.
As oportunidades foram escassas e, diante da falta de espaço, o vínculo foi encerrado já em janeiro de 2020. Assim, Kjaer deixaria Bérgamo pouco antes de a Dea viver os momentos mais marcantes daquela temporada, encerrada com o terceiro lugar na Serie A e uma histórica campanha até as quartas de final da Champions League. Seu destino, porém, acabaria sendo ainda mais significativo: no dia seguinte à rescisão, seu repasse ao Milan foi confirmado.
Veterano e trazendo consigo menos expectativas do que outrora, Simon demonstrou desde o início seu empenho e sua dedicação à camisa rossonera. Contratado inicialmente por empréstimo, precisou de pouquíssimo tempo para conquistar a confiança de Stefano Pioli e assumir a titularidade da defesa milanista. A segurança transmitida por suas atuações, aliada à experiência acumulada em diferentes ligas europeias, fez dele uma das peças fundamentais na recuperação da equipe durante a segunda metade da temporada. Não por acaso, o Milan decidiu exercer sua compra definitiva ainda antes do encerramento da campanha – que, em razão da pandemia de covid-19, só terminaria em agosto de 2020. Seu período mais marcante como jogador estava apenas começando.
Depois de girar o mundo, Kjaer voltou à Itália para ter uma brevíssima passagem pela Atalanta (Getty)
A reta final de 2019-20 representou o início da reconstrução rossonera, iniciada quando Pioli assumiu o lugar de Marco Giampaolo, após a sétima rodada do Italiano. Com Kjaer já consolidado como um dos pilares do sistema defensivo, o Milan cresceu de rendimento após a retomada do campeonato e encerrou a sua campanha de recuperação na sexta colocação da Serie A, assegurando uma vaga na Liga Europa. Embora ainda distante da disputa pelo título, o desempenho alimentava a expectativa de que o clube enfim pudesse voltar a competir entre os protagonistas do futebol local. Naquela mesma temporada, o Diavolo foi semifinalista da Coppa Italia.
A impressão de retomada se confirmou logo nos primeiros meses da temporada seguinte. Antes mesmo do início da fase de grupos da Liga Europa, Kjaer mostrou personalidade ao converter duas cobranças de pênalti que garantiram a dramática classificação sobre o Rio Ave, num rocambolesco 9 a 8 nas penalidades nos playoffs – sim, foi necessário que dois atletas de cada equipe batessem novamente. Aquele momento acabou simbolizando o espírito competitivo de uma equipe que voltava a disputar competições europeias com ambições maiores e que encontrava no zagueiro dinamarquês uma de suas referências dentro de campo.
Sob o comando de Pioli, o Milan realizou um excelente primeiro turno e terminou a metade da Serie A na liderança, sustentado por uma defesa cada vez mais consistente. Kjaer viveu uma das melhores fases de sua carreira, formando uma dupla sólida no setor defensivo e oferecendo a experiência necessária para um elenco que misturava juventude e jogadores mais rodados. Mesmo sem conseguir manter o ritmo na segunda metade do campeonato, os rossoneri encerraram a temporada na segunda colocação, 12 pontos atrás da rival Inter, que somou 91. O desfecho daquele certame foi apertado, visto que somente dois pontinhos separaram o vice-campeão do Napoli, quinto colocado. Alcançar o objetivo teve um enorme passo na recuperação do clube, já que garantiu o retorno do Diavolo à Liga dos Campeões depois de sete anos de ausência.
Além da campanha doméstica, o defensor também deixou sua marca nas oitavas de final da Liga Europa. Na ocasião, marcou seu único gol com a camisa do Milan em Old Trafford, garantindo o empate por 1 a 1 diante do Manchester United nos acréscimos. Na volta, porém, os ingleses venceram em San Siro e avançaram – mais tarde, ainda eliminaram a Roma nas semifinais e, ao perderem para o Villarreal na decisão, ficaram com o vice.
Enquanto vivia um dos melhores momentos de sua trajetória em clubes, Kjaer foi convocado para ser o capitão da Dinamarca na disputa da Euro 2020, competição adiada em um ano por causa da pandemia. Seu papel de liderança naquele torneio, porém, ultrapassaria completamente os limites do futebol. No dia 12 de junho de 2021, a seleção estreava na competição contra a Finlândia quando, aos 42 minutos de jogo, Christian Eriksen sofreu uma parada cardíaca e caiu desacordado no gramado. As equipes de emergência foram imediatamente acionadas, mas, antes mesmo da chegada dos médicos, Kjaer assumiu o protagonismo em uma situação que exigia sangue-frio muito mais do que qualquer qualidade futebolística. O dono da braçadeira colocou o companheiro em posição adequada para manter as vias respiratórias desobstruídas, protegeu seu pescoço e permaneceu ao seu lado até que o atendimento especializado pudesse prosseguir.
Enquanto os médicos tentavam reanimar Eriksen, Simon ainda organizou seus companheiros para formar um cordão humano ao redor da cena, preservando a privacidade do camisa 10 e de sua família diante de milhões de espectadores. Em seguida, foi também ele quem amparou a esposa do meia, visivelmente abalada com a situação. Aquelas atitudes ultrapassaram qualquer obrigação de um capitão e transformaram o zagueiro em símbolo de serenidade em um dos momentos mais dramáticos da história recente do futebol.
Já veterano, o viking viveu os melhores momentos de sua carreira no Milan, clube pelo qual conquistou seu único título (Getty)
Segundo especialistas, sua rápida intervenção foi determinante para preservar as condições necessárias até o início do atendimento médico. Eriksen voltaria a atuar profissionalmente no ano seguinte e Kjaer acabaria reconhecido mundialmente por sua postura. Ao lado da equipe médica da seleção dinamarquesa, recebeu o Prêmio do Presidente da Uefa de 2021, concedido por feitos notáveis, excelência profissional e qualidades humanas exemplares. Naquele mesmo ano, o reconhecimento extrapolou o episódio vivido em Copenhague: impulsionado também pela excelente temporada realizada com o Milan e pela incrível campanha da Dinamarca na Euro, o defensor apareceu entre os 30 finalistas da Bola de Ouro, encerrando a votação na 18ª colocação.
Dentro de campo, a própria seleção dinamarquesa encontrou forças para reagir ao trauma vivido na estreia. Liderada por Kjaer, que precisou superar o impacto emocional daqueles acontecimentos, a equipe alcançou uma histórica semifinal da Eurocopa, sua melhor campanha desde o título conquistado em 1992. A caminhada só terminou diante da Inglaterra, na prorrogação, depois de uma campanha que reforçou ainda mais a identificação do capitão com seu país.
Poucos meses depois, entretanto, o melhor momento da carreira sofreria uma interrupção brusca. Em dezembro de 2021, durante uma partida contra o Genoa, Kjaer rompeu os ligamentos cruzado anterior e colateral medial do joelho esquerdo. Era a lesão mais grave de sua trajetória profissional e ela o afastaria dos gramados por aproximadamente seis meses, justamente quando o Milan liderava a disputa pelo Campeonato Italiano de 2021-22.
Sua ausência representou um duro golpe para a equipe de Pioli, mas não diminuiu sua importância dentro do grupo. Mesmo afastado dos gramados, o dinamarquês permaneceu próximo do elenco durante o processo de recuperação, mantendo o papel de uma das principais lideranças do vestiário. Ao final da temporada, o Milan conquistou o scudetto pela primeira vez em 11 anos, encerrando um longo período de jejum e coroando o trabalho de reconstrução conduzido pelo técnico. Embora tenha participado apenas da primeira metade da campanha em campo, Kjaer foi reconhecido internamente como uma das figuras mais importantes daquele título, tanto pelo rendimento apresentado antes da lesão quanto pela influência exercida sobre um elenco relativamente jovem – era um dos líderes, juntamente ao igualmente veterano Zlatan Ibrahimovic.
Recuperado para a temporada 2022-23, o defensor já não tinha as mesmas condições físicas de antes da grave contusão. A concorrência aumentara, especialmente com a afirmação de Pierre Kalulu, e Kjaer passou a atuar com menor frequência. Ainda assim, continuou sendo uma peça de confiança de Pioli, que recorria constantemente à sua experiência em momentos decisivos da temporada. Enquanto terminava a Serie A na quarta colocação e era vice-campeão da Supercopa Italiana, o Milan voltou a figurar entre os protagonistas do continente ao alcançar as semifinais da Liga dos Campeões, eliminando o Napoli nas quartas de final antes de cair diante da rival Inter, nas semis.
Mesmo com a perda gradual de espaço no Milan, Kjaer seguiu como presença constante na seleção dinamarquesa. Convocado para a Copa do Mundo de 2022, no Catar, voltou a integrar o grupo comandado por Kasper Hjulmand, embora a campanha não repetisse o desempenho apresentado quatro anos antes ou na Eurocopa. A Dinamarca acabou eliminada ainda na fase de grupos, encerrando de forma precoce uma participação que gerava expectativas maiores após o excelente ciclo anterior.
Kjaer nem sempre foi titular no time rossonero, mas foi um dos grandes líderes do elenco na gestão Pioli (Getty)
Ao longo desse período, o defensor também continuou ampliando sua importância histórica com a camisa da seleção. Em outubro de 2023, superou o então recorde de partidas de Peter Schmeichel pela Dinamarca, consolidando-se entre os jogadores que mais vezes representaram o país em toda a história. A marca seria posteriormente ultrapassada por Eriksen, mas simbolizava a longevidade de uma trajetória construída sempre como protagonista.
Na última temporada de sua carreira, em 2023-24, Kjaer já desempenhava um papel muito mais voltado à liderança do grupo do que propriamente à titularidade. O Milan voltou a terminar o Campeonato Italiano na segunda colocação, além de alcançar as quartas de final tanto da Coppa Italia quanto da Liga Europa, competição para a qual foi transferido após a eliminação na fase de grupos da Champions League. Ao final da campanha, foi convocado para disputar a Euro 2024. Já em uma condição física diferente daquela que o transformara em um dos melhores zagueiros do continente poucos anos antes, não chegou a entrar em campo durante a competição.
Em junho de 2024, se encerrou seu contrato com o Milan e chegou também ao fim sua passagem pelo futebol italiano, justamente aquela que lhe proporcionara os maiores momentos da carreira. Pelos rossoneri, Kjaer totalizou 121 aparições. A última partida de sua trajetória como profissional, entretanto, seria com a seleção dinamarquesa, entrando no segundo tempo de um amistoso preparatório para a Eurocopa, contra a Noruega – uma vitória por 3 a 1. Pouco depois do torneio, anunciou sua despedida da equipe nacional, encerrando um ciclo de 15 anos e 132 jogos. Apenas Eriksen vestiu a camisa da Dinamarca mais vezes.
Sem clube após o término de seu vínculo com o Milan, o veterano optou por colocar um ponto final na carreira em janeiro de 2025. A decisão encerrava uma trajetória marcada pela regularidade e por passagens importantes em algumas das principais ligas da Europa. Embora tenha conquistado menos títulos do que o talento demonstrado ao longo dos anos poderia sugerir, Kjaer deixou sua marca em praticamente todos os clubes pelos quais passou graças à segurança defensiva, ao profissionalismo e à capacidade de liderança.
O scudetto conquistado pelo Milan representou o único grande troféu de sua carreira em clubes e coroou justamente o período em que conseguiu reunir experiência, maturidade e protagonismo dentro de um time que voltava ao topo do futebol italiano após um jejum de uma década. Foi referência mesmo sem jogar, mostrando uma influência que ia muito além dos 90 minutos em campo. Se já não conseguia oferecer o mesmo vigor físico dos primeiros anos, seguia exercendo um papel fundamental nos bastidores, servindo de exemplo para um grupo que voltava a competir em alto nível.
Mas a verdade é que seu verdadeiro legado ultrapassa qualquer conquista esportiva. Ao agir de forma decisiva para socorrer Eriksen em uma das cenas mais dramáticas já vistas em um campo de futebol, Kjaer demonstrou que liderança não se resume à braçadeira de capitão nem aos títulos conquistados. Sua coragem, serenidade e senso de responsabilidade diante de uma situação extrema transformaram-no em um personagem inesquecível da história do esporte. O viking deixou lições que nenhuma estatística seria capaz de traduzir.
Simon Thorup Kjaer Nascimento: 26 de março de 1989, em Horsens, Dinamarca Posição: zagueiro Clubes: Midtjylland (2006-08), Palermo (2008-10), Wolfsburg (2010-11 e 2012-13), Roma (2011-12), Lille (2013-15), Fenerbahçe (2015-17), Sevilla (2017-19), Atalanta (2019-20) e Milan (2020-24) Títulos: Serie A (2022) Seleção dinamarquesa: 132 jogos e 5 gols







































