Michael Kimmel, da Bundesliga até Leiria: «João Vieira Pinto? Eu dava-lhe muitas dores de cabeça» | OneFootball

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·6 de enero de 2026

Michael Kimmel, da Bundesliga até Leiria: «João Vieira Pinto? Eu dava-lhe muitas dores de cabeça»

Imagen del artículo:Michael Kimmel, da Bundesliga até Leiria: «João Vieira Pinto? Eu dava-lhe muitas dores de cabeça»

A Taça da Liga volta a passar por Leiria e, com ela, regressa também a atenção ao Estádio Dr. Magalhães Pessoa e à cidade que 'não existe'. Um palco de decisões no presente que serve também de pretexto para olhar para o passado e recuperar histórias que ficaram ligadas ao futebol português.

Entre elas está a de Michael Kimmel. Um percurso pouco comum, sobretudo para o contexto da época: um jogador formado na Alemanha, com jogos na Bundesliga e um título da 2.ª divisão alemã no currículo, que trocou o futebol germânico por uma aventura em Portugal, mais precisamente na UD Leiria.


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Médio defensivo de perfil combativo, Kimmel explica os motivos que o levaram a trocar a Alemanha por Portugal, numa decisão influenciada por um convite que surgiu quase por acaso, depois de um inocente período de treinos na Cidade do Lis.

Em campo, recorda episódios marcantes da passagem pelo futebol português, desde os duelos frequentes com João Vieira Pinto, à chatice com Sá Pinto, sem esquecer o gesto «surpreendente» de Vítor Baía.

Tendo isto em conta, o zerozero entrou em contacto com Kimmel para revisitar o percurso que o levou da Bundesliga até Leiria, perceber as razões que o trouxeram para Portugal e recuperar, pela sua voz, algumas destas aventuras.

zerozero [ZZ]: Bom dia, Michael. Tudo bem?

Michael Kimmel [MK]: Tudo bem, sim. Obrigado pelo convite.

ZZ: Consegue ouvir-me bem? [ajustamos o telemóvel]

MK: Agora sim, melhorou.

ZZ: Podemos tratá-lo por Michael ou prefere Kimmel?

MK: Como quiser, os dois estão bem.

ZZ: Então ficamo-nos pelo Kimmel. [risos]

Como lhe tínhamos dito, vamos estar em Leiria esta semana para cobrir a Taça da Liga e lembrámo-nos da sua história, que é muito curiosa. O Kimmel deixou a Alemanha e a Bundesliga para vir jogar para Leiria, algo pouco comum na altura e, portanto, queríamos muito falar consigo.

MK: Claro, o gosto é todo meu.

ZZ: Recuemos ao início: nasce na Alemanha, faz lá toda a formação e acaba por vencer a Bundesliga 2 em 1988/89. Estreia-se depois na Bundesliga em agosto de 1989, frente ao Eintracht Frankfurt. Lembra-se desse jogo?

MK: Sim, lembro-me bem.

ZZ: O que guarda dessa estreia?

MK: Jogar na Bundesliga é sempre especial.

ZZ: Um sonho?

MK: Curiosamente, não era propriamente um sonho de infância. Eu comecei nos escalões mais baixos e fui subindo todos os anos. Quando saí da minha terra, fui para o Frankfurt, mas para a equipa B. Depois surgiu a oportunidade de ir para Dusseldorf. Eles estavam a fazer uma equipa para subir. Foi especial também porque a minha estreia na Bundesliga foi contra um clube onde já tinha estado.

ZZ: Exato, ganha a 2.ª Bundesliga pelo Fortuna Düsseldorf, certo?

MK: Exatamente. O Dietrich Weise, que era selecionador dos sub-21 na altura, aconselhou-me. O Fortuna queria voltar a subir e perguntou-me se eu queria ajudar. Fui e conseguimos.

ZZ: Foi especial conquistar esse título?

MK: Muito. O primeiro título nunca se esquece.

ZZ: E o grupo?

MK: Era um grupo muito jovem. O Fortuna não tinha muito dinheiro e apostava muito na formação. A maioria tinha entre 20 e 23 anos, dois jogadores mais experientes e o resto malta nova.

ZZ: O Kimmel tinha que idade nessa altura?

MK: Tinha 23 anos.

ZZ: Fez cinco jogos na Bundesliga. Lembra-se de cada um deles?

MK: Lembro-me, sim, lembro-me bem.

ZZ: Há um episódio marcante... uma expulsão logo no segundo jogo.

MK: Foi em Nuremberga. O jogo estava empatado. Entrei, um colega falhou um penálti e, no lance seguinte, para travar um contra-ataque, fiz falta e levei vermelho.

ZZ: Essa expulsão acabou por marcar o resto da época?

MK: Marcou muito. O treinador acabou por me responsabilizar um pouco pela derrota. Depois disso, nunca mais consegui mudar a ideia que ele tinha de mim.

ZZ: Ainda voltou a jogar...

MK: Sim, ainda fiz alguns bons jogos, mas já não consegui ganhar espaço.

ZZ: Ficou seis jogos sem ser convocado.

MK: Sim, fui castigado. Houve um caso estranho. Outro jogador também tinha sido expulso, o clube conseguiu reduzir o castigo dele e eu acabei por cumprir o castigo todo. Fui a tribunal, mas ficou assim.

ZZ: Ah! O castigo foi de seis jogos? [interrogamos, chocados com tamanha duração]

MK: Tal e qual. Na altura era assim.

ZZ: E depois? Volta a jogar quando termina o castigo e só volta a aparecer passado bastante tempo.

MK: Houve outro episódio. Era a semana de enfrentar o Bayern e eu peguei-me com o guarda-redes titular. Tive uma entrada mais dura, discutimos um bocado e isso também não ajudou.

ZZ: Agrediram-se?

MK: Trocámos uns miminhos [risos]. E aí fui 'arrumado' de vez. Acabei por não jogar contra o Bayern por causa disso.

ZZ: Arrepende-se?

MK: De não ter jogado contra o Bayern? Claro, mas eu era assim. Não era por maldade, fazia parte do meu estilo.

ZZ: Era essa a imagem que tinha como jogador? Como se descreveria?

MK: Agressivo, rápido sobre a bola, forte na minha posição. Sempre fui assim. Muito agressivo, mas sem maldade. Jogava sempre no limite.

ZZ: Essa agressividade acompanhou-o depois em Portugal?

MK: Sim, fazia parte do meu jogo.

A chegada a Portugal

ZZ: E como é que surge então a vinda para Portugal?

MK: Conheci a minha esposa na Alemanha. Ela é filha de emigrantes portugueses, da zona de Düsseldorf. Mais tarde, passei por um clube onde não me senti bem - Homburg - e, numa pré-época, vim a Portugal passar férias.

Para manter a forma, fui treinar à União de Leiria. Os vizinhos dos meus sogros eram adeptos do clube e ajudaram no contacto. Em abril ligaram-me a perguntar se tinha interesse em jogar cá. O meu contrato estava a acabar e aceitei.

ZZ: A sua mulher deve ter ficado radiante com a mudança.

MK: Pelo contrário [risos]. No início não gostou nada. A vida na Alemanha era muito diferente. Em Leiria, na altura, não havia praticamente nada. Com o tempo adaptou-se, começou a trabalhar, a fazer a vida dela e hoje estamos muito bem.

ZZ: Passa quatro épocas na União de Leiria. Que memórias guarda com mais carinho?

MK: Muitas. O jogo com a Académica, quando subimos de divisão, no antigo estádio, foi marcante. Ganhar 1-0, o ambiente, tudo isso. Foi uma fase espetacular, mesmo não tendo acabado como eu queria.

ZZ: Chega à I Liga no ano seguinte. Como foi enfrentar aqueles FC Porto, Sporting e Benfica dos anos 90?

MK: Eram jogos especiais. Eu gostava desses jogos.

ZZ: Com quem é que se 'picava' mais?

MK: João Vieira Pinto. Acaba por ficar sempre responsável por marcá-lo. Ele estava sempre a reclamar, sempre no chão.

ZZ: Dava-lhe dores de cabeça?

MK: Acho que eu lhe dava mais dores de cabeça a ele do que ele a mim [risos].

ZZ: Foi ele o jogador que o marcou mais?

MK: Gostava muito dos jogadores mais antigos. O Paul Breitner, por exemplo. Em Portugal, jogadores como o Jorge Costa, o Rui Barros, o Balakov, JVP… havia muita qualidade.

ZZ: Por falar em JVP... e aquele jogo para a Taça? 2-2, certo?

MK: Sim, nas meias-finais. Decidido no prolongamento. O Marcelo marcou dois golos. Eu saí aos 90 minutos porque já tinha um cartão e o jogo estava muito quente. Houve expulsões dos dois lados. O Benfica seguiu em frente.

ZZ: Guarda boas memórias desses confrontos?

MK: Desse em especifico tenho pena porque não consegui trocar de camisola com o JVP.

ZZ: Então?

MK: Eu já estava no banco e depois não tive oportunidade de lhe pedir a camisola no final do jogo.

ZZ: E com Sporting e FC Porto? Algum episódio do género?

MK: Tenho um episódio com o Vítor Baía... ah! E tive um problema com o Sá Pinto [risos].

ZZ: Outro 'calminho'...

MK: Mas foi só mais tarde, quando ele era treinador. Fizemos um treino conjunto [Sá Pinto era treinador adjunto do UD Leiria, Kimmel era treinador dos sub-19 dos unionistas] e discuti com ele por causa da forma como apitou o jogo-treino [Sá Pinto assumiu o papel de árbitro]. Disse-lhe que se era para aquilo não voltava a treinar com ele.

ZZ: O Kimmel sabia que foi o único jogador a ver 20 cartões amarelos numa época na 2.ª Divisão de Honra?

MK: Não fazia ideia. Na altura dava para ludibriar a coisa e limpar os cartões no campeonato de reservas.

ZZ: Sentiu muita diferença entre o futebol alemão e o português? Via tantos cartões, o futebol português prejudicou o seu estilo de jogo?

MK: Não, de todo. Eu é que era muito agressivo, os árbitros não tinham culpa [risos]. E tecnicamente, os portugueses eram superiores aos alemães. Hoje em dia ainda mais.

ZZ: Estamos a chegar à reta final, mas dizia há pouco que tinha tido um episódio com o Baía.

MK: Bem lembrado, mas esse foi pela positiva. Fomos às Antas jogar e no final do jogo fomos os dois ao controlo anti-doping. Aquilo normalmente demorava bastante tempo e ele esteve o tempo todo a falar comigo, ofereceu-me comida, ofereceu-me bebida... não estava à espera de uma atitude daquelas de uma estrela como o Baía.

ZZ: Estava em casa, é daquelas que não se esquecem.

MK: Também tenho uma dessas com o Benfica, mas pela negativa. Aquando daquela eliminatória na Taça [abordada anteriormente], e perante uma eminente eliminação do Benfica, lembro-me de alguns jogadores dizerem que seria uma vergonha o União seguir em frente e lembro-me do árbitro condicionar o jogo. Outros tempos...

ZZ: O Kimmel acaba por abandonar Leiria nessa temporada, não houve hipótese de ficar?

MK: Não. Surgiu uma proposta para a 2.ª divisão B e acabei por aceitar. Talvez tenha sido precipitado.

ZZ: Mais tarde dedica-se ao treino. Ainda mantém o sonho de ser treinador?

MK: Não, queria assumir a equipa principal da União, mas na altura estava nos juniores e nunca surgia oportunidade. Já nem penso nisso.

ZZ: Kimmel, muito obrigado pela sua disponibilidade. Foi um gosto conversar consigo.

MK: O gosto foi meu, ainda nos encontramos em Leiria na Final Four. Um grande abraço!

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