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·26 de junio de 2026

O multicampeão Mats Hummels teve fim de carreira inesperado na Roma

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Em um futebol cada vez mais acelerado, de linhas altas, coberturas longas e defensores obrigados a sobreviver em campo aberto, a reta final da carreira costuma ser particularmente cruel com zagueiros que construíram a própria grandeza menos por conta da explosão física do que da inteligência. Mats Hummels passou anos desafiando essa lógica: foi um dos grandes defensores de sua geração justamente por fazer o jogo parecer mais simples do que era, antecipando movimentos, organizando a última linha e transformando o passe em arma desde trás. Sua chegada à Itália, já aos 36 anos, colocaria isso em perspectiva, colocando suas qualidades em evidência numa liga nacional que não fosse a Bundesliga pela primeira vez na carreira.

Depois de uma carreira inteira entre Bayern de Munique e Borussia Dortmund, que o levou à seleção alemã, Hummels desembarcava na Roma não para inaugurar um novo auge, evidentemente, mas para tentar levar sua experiência, leitura de jogo e respaldo para um ambiente instável, no qual poderia ser muito útil. A Serie A parecia, em tese, um lugar plausível para esse último ato. Na prática, porém, a passagem pela Cidade Eterna se tornaria um epílogo irregular, cheio de ruídos, hesitações e pequenas frustrações para o grande defensor.


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Hummels foi, durante mais de uma década, sinônimo de elegância defensiva e leitura de jogo refinada no futebol europeu. Nascido em Bergisch Gladbach, Alemanha, iniciou sua formação no Bayern de Munique, mas foi no Borussia Dortmund que sua carreira ganhou verdadeira projeção. Emprestado em 2008, Hummels logo se firmou como titular absoluto, e o BVB não hesitou em contratá-lo em definitivo. Naquele período, além de se consolidar no clube, também começava a ganhar relevo no cenário internacional: em 2009, foi campeão europeu sub-21 com a Alemanha, um título que ajudou a apresentar ao continente uma geração que, pouco depois, abasteceria a seleção principal. Mais tarde, já como nome estabelecido, ainda participaria da Euro 2012, na qual a seleção seria eliminada pela Itália nas semifinais, e atravessaria diferentes fases da Mannschaft, entre idas e vindas que acompanharam o próprio envelhecimento de sua carreira.

Sob o comando de Jürgen Klopp, viveu o auge técnico e tático. Formando dupla com Neven Subotic, foi peça-chave nas conquistas da Bundesliga em 2010-11 e 2011-12, além da Copa da Alemanha e da memorável campanha até a final da Champions League de 2013, quando os aurinegros foram derrotados pelo Bayern em Wembley. Seu estilo de jogo – técnico, com qualidade no passe e refino nas antecipações – o colocava entre os melhores zagueiros do mundo.

Hummels não era um defensor exuberante pela imposição física, mas um jogador que parecia quase sempre um segundo à frente da jogada, capaz de corrigir posicionamentos pelo raciocínio e de iniciar ataques com uma serenidade pouco comum para a posição. Mesmo após a saída de Klopp, seguiria como uma das referências do Dortmund, trabalhando também com Thomas Tuchel e atravessando mudanças de elenco, de ideias e de ambições sem perder o status de líder.

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Hummels construiu carreira brilhante na Alemanha, mas enfrentou dificuldades no futebol italiano (Getty)

Esse reconhecimento culminou na sua atuação de destaque na Copa do Mundo de 2014, no Brasil. Hummels foi titular em quase todos os jogos e marcou dois gols decisivos: contra Portugal, na fase de grupos, na Fonte Nova, em Salvador, e contra a França, nas quartas de final, no Maracanã – palco da decisão. Na semifinal histórica contra o Brasil (7 a 1) e na final diante da Argentina, teve atuações seguras e firmou-se como um dos pilares da defesa alemã tetra campeã mundial. Aquele Mundial consolidou a imagem de Matze como um zagueiro de elite, capaz de unir imposição em jogos grandes, presença ofensiva em bola parada e uma casca que o transformava em peça de confiança em contextos de máxima exigência.

Em 2016, disputou mais uma Euro e voltou a cair nas semifinais: Hummels, porém, estava suspenso e não encarou a anfitriã França, que seria vice-campeã. Antes da competição, já havia sido anunciado que seguiria o mesmo caminho de tantos ídolos do Dortmund e retornou ao Bayern. Sua volta ao rival dos aurinegros foi marcada por polêmica entre as torcidas, mas Matze logo se consolidou como titular nos bávaros. Nos três anos em Munique, conquistou títulos nacionais e trabalhou sob treinadores de peso, como Carlo Ancelotti e Jupp Heynckes, inserindo-se em um ambiente de cobrança permanente e de domínio doméstico quase obrigatório.

Ainda assim, o retorno ao sul da Alemanha não teve o mesmo simbolismo da primeira passagem do zagueiro pelo Borussia Dortmund nem o mesmo impacto afetivo junto ao torcedor dos Roten. Hummels mostrou solidez, conquistou títulos e teve protagonismo, mas também críticas por atuações oscilantes em jogos decisivos, principalmente na Champions League, num período em que o Bayern de Munique não se contentava apenas com o domínio na Bundesliga, mas também sonhava com a orelhuda.

O zagueiro passou a perder espaço no Bayern e retornou ao Borussia Dortmund em 2019. Antes disso, Joachim Löw anunciara que Hummels deixaria de fazer parte dos planos da seleção alemã, num gesto que simbolizava a tentativa de renovação após o fracasso da Alemanha na Copa de 2018, na qual caiu na primeira fase, ocupando a lanterna de um grupo com México, Suécia e Coreia do Sul.

No BVB, apesar de não repetir os grandes momentos da primeira passagem, ainda demonstrou solidez, liderança e experiência em meio a uma defesa jovem. Assim, voltaria a ser convocado pela Alemanha e disputaria a Euro 2020, adiada em um ano por causa da pandemia de covid-19. Após a queda para a Inglaterra nas oitavas, no duro caminho teutônico no torneio, Hummels não entrou nos planos de Hansi Flick e ficou fora da Copa do Mundo de 2022. Já em reta final de carreira, ainda retornaria mais uma vez com Julian Nagelsmann em dois amistosos e acabou não incluído no grupo da Euro 2024. Essas idas e vindas diziam muito sobre o lugar que Matze passou a ocupar no futebol alemão: não mais uma peça central e incontestável, mas ainda um nome respeitado o suficiente para permanecer na órbita da Nationalmannschaft, mesmo quando o corpo já não sustentava com a mesma frequência o status construído ao longo da década anterior.

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Foram raros os momentos felizes do zagueiro na Roma (IPA)

Aos 36 anos e após temporadas sem grande brilhantismo, Hummels recusou propostas do futebol dos Estados Unidos e surpreendeu ao aceitar a oferta da Roma, em 2024. A negociação, porém, já nasceu atravessada por certa hesitação. Livre no mercado após deixar o Borussia Dortmund, o zagueiro passou semanas sem clube até que a Loba, que monitorava a situação, concretizasse a contratação apenas no início de setembro, já com a janela fechada – cenário possível justamente por se tratar de um jogador sem vínculo. A expectativa era que ele trouxesse experiência e estabilidade a uma defesa que ficara órfã de Chris Smalling. Entretanto, o timing da operação contribuiu para tornar tudo mais confuso: assim como Mario Hermoso, adquirido nas mesmas condições, Matze se integrou mais tarde do que o restante do grupo e praticamente não participou do fim do trabalho de Daniele De Rossi, surpreendentemente demitido ao fim da quarta rodada da Serie A. Quando o alemão esteve de fato em condições de atuar, o ambiente já era outro.

Desde o início, a adaptação foi difícil. Hummels chegou fora do ritmo ideal, e seu estilo cadenciado contrastava com a proposta agressiva de Ivan Juric, técnico contratado após a demissão de De Rossi. O relacionamento entre os dois rapidamente se desgastou, e a própria Roma do treinador croata era um time de pouca estabilidade, o que tampouco favorecia a integração de um defensor veterano que dependia de contexto, proteção e coordenação coletiva para render melhor. O alemão fez diversas piadas nas redes sociais sobre o banco de reservas, alegando que via a situação sob a lente da autoironia – veja aqui e aqui. O tom bem-humorado divertiu torcedores, mas irritou a comissão técnica e esfriou ainda mais as chances de conquistar espaço. Em vez de se tornar uma solução de emergência para uma defesa problemática, o zagueiro passou a simbolizar, em alguma medida, a própria desordem do momento romanista. Os giallorossi chegavam a brigar contra o rebaixamento.

Quando finalmente esteve em campo, os episódios acabaram sendo desastrosos. Na acachapante derrota por 5 a 1 para a Fiorentina, substituiu Paulo Dybala e, após três minutos em campo, marcou um gol contra bizarro ao tentar bloquear a cabeçada de Christian Kouamé, fechando o placar – curiosamente, Hermoso, o outro reforço de setembro, foi expulso pouco antes. A imagem do lance resumiria bem o início de sua passagem: um jogador de passado impecável, mas sem tempo de jogo, sem ritmo e sem o amparo coletivo necessário para disfarçar quaisquer lacunas. Naquele ponto, a impressão era a de que Roma e Hummels haviam se encontrado tarde demais: o clube precisava de impacto imediato, enquanto o zagueiro já não parecia capaz de oferecê-lo em um contexto tão pouco acolhedor.

Com a demissão de Juric, o veterano Claudio Ranieri assumiu o comando da equipe na 13ª rodada da Serie A e, ao menos num primeiro momento, abriu uma pequena janela para que a história de Hummels em Roma tomasse outro rumo, juntamente com o da própria temporada capitolina. Respeitado pelo treinador, que comentou publicamente sobre seu apreço, o alemão voltou a ser utilizado logo nos primeiros jogos do novo ciclo: entrou contra o Napoli e, na partida seguinte, viveu talvez seu momento mais alto na Loba ao marcar, já nos acréscimos, o gol de empate diante do Tottenham, em Londres, pela Liga Europa. Era um tento importante em um contexto igualmente relevante, e por alguns dias pareceu possível que o germânico enfim encontrasse um lugar na rotação romanista. O técnico passou a utilizá-lo com mais frequência, tanto na competição continental quanto em partidas da Serie A, e a sensação era a de que, se não recuperaria o antigo brilho, ao menos poderia oferecer alguma estabilidade numa reta final de temporada turbulenta.

A reação, contudo, durou menos do que o necessário para mudar de fato o tom de sua passagem. Hummels oscilou entre exibições em que mostrava experiência, capacidade de articulação e bom posicionamento e outras em que erros de cobertura expunham suas limitações físicas. A relação profissional com Ranieri foi marcada por idas e vindas sob escopo técnico. Ora parecia uma opção útil para jogos específicos, ora voltava a desaparecer do time. Foi na gestão do romano, aliás, que ocorreu outro dos episódios mais marcantes de sua breve aventura italiana: pela Liga Europa, contra o Athletic Bilbao, errou na saída de bola acabou expulso aos 12 minutos após impedir chance clara de gol, comprometendo novamente a equipe em um momento decisivo da temporada.

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Hummels pendurou as chuteiras após 20 aparições com a camisa da equipe italiana (Getty)

O lance teve peso simbólico porque ajudou a desmontar a possibilidade de uma redenção tardia na campanha continental dos giallorossi – permitiu a virada dos bascos nas oitavas e resultou na eliminação da Loba. Mesmo em um ambiente mais sóbrio e favorável do que o que encontrou nos tempos de Juric, o alemão continuava incapaz de oferecer continuidade e não contribuiu muito com a reação dos capitolinos em solo nacional. Os giallorossi emplacaram uma forte linha defensiva, liderada por Gianluca Mancini e Evan Ndicka, e terminaram a Serie A na quinta posição, com vaga na Liga Europa.

Ao fim, sua temporada romana ficou reduzida a 20 partidas e um único gol – justamente aquele contra o Tottenham. O número, por si só, não diz tudo, mas ajuda a medir o tamanho do desencontro. Ao longo da carreira, Hummels havia somado 508 jogos e 38 tentos pelo Borussia Dortmund, além de 118 aparições e oito bolas nas redes pelo Bayern de Munique. Era um zagueiro confiável, capaz de sustentar defesas de alto nível e ainda aparecer com frequência razoável no ataque, sobretudo em bolas paradas. Na Roma, não conseguiu ser nem uma coisa nem outra com constância. Faltou ritmo, faltou encaixe, faltou contexto, e faltou também ao corpo a resposta que outrora permitia que sua leitura de jogo bastasse para controlar qualquer eventual sinal de caos ao redor. Restou a sensação de uma passagem em que a reputação do jogador chegou maior do que sua capacidade de intervir no presente.

Ainda assim, nos bastidores, colegas o descreviam como um profissional sério, que não deixava transparecer frustração nos treinos. Talvez por isso, e também pelo peso da carreira que carregava, a separação tenha assumido um tom menos hostil do que o saldo esportivo sugeria. Na última rodada da Serie A, contra o Torino, a Loba deu a Hummels uma despedida simbólica. Ranieri o chamou para entrar nos acréscimos. Aplaudido pela torcida e visivelmente emocionado, recebeu uma faixa da Curva Sud com os dizeres: “Grazie, comunque” – “Obrigado, de qualquer forma”. Foi um gesto ambíguo, com algo de carinho e resignação, como se o público reconhecesse ao mesmo tempo a grandeza do nome que vestira a camisa da Roma e o fracasso da experiência em corresponder ao que se imaginava dela.

Aquela não seria ainda sua despedida formal dos gramados. No verão europeu, Hummels participaria por alguns minutos de um amistoso da pré-temporada 2025-26 do Borussia Dortmund contra a Juventus, em uma espécie de adeus oficial à carreira. Mas, competitivamente, a Roma acabou funcionando como o último capítulo do defensor em alto nível. Assim, despediu-se um dos grandes nomes do futebol alemão – não com um título, com ares de muralha intransponível ou um último jogo memorável, mas com humanidade, falhas e a lembrança de que até os craques têm direito a um final imperfeito.

Mats Julian Hummels Nascimento: 16 de dezembro de 1988, em Bergisch Gladbach, Alemanha Posição: zagueiro Clubes: Bayern de Munique (2007-09 e 2016-19); Borussia Dortmund (2008-16 e 2019-24) e Roma (2024-25) Títulos: Supercopa da Alemanha (2008, 2013, 2016, 2017 e 2018), Euro Sub-21 (2009), Bundesliga (2011, 2012, 2017, 2018 e 2019), Copa da Alemanha (2012, 2019 e 2021) e Copa do Mundo (2014) Seleção alemã: 78 jogos e 5 gols

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