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·9 de junio de 2026

O que diz o relatório apresentado por Armando Mendonça para contestar auditoria do caso Nike no Corinthians

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Por Larissa Beppler e Henrique Vigliotti | Redação da Central do Timão

Um relatório elaborado pela Villela & Associados Auditoria e Consultoria, empresa contratada pelo vice-presidente do Corinthians Armando Mendonça, contesta de forma ampla as conclusões da auditoria interna que embasou o pedido de afastamento cautelar do dirigente e a denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público de São Paulo por supostos desvios de materiais esportivos fornecidos pela Nike ao clube.

O documento, concluído em 2 de maio de 2026 e composto por 64 páginas, foi produzido sob a modalidade de “Procedimentos Previamente Acordados”, tendo como objeto a análise técnica do relatório interno elaborado pelo departamento de Tecnologia do Corinthians, a pedido do presidente Osmar Stabile, sobre a gestão dos estoques de materiais esportivos da fornecedora.


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Armando Mendonça, vice-presidente do Corinthians. Foto: Reprodução.

Ao longo de 39 quesitos, a consultoria afirma que o trabalho conduzido internamente pelo clube apresenta falhas metodológicas, ausência de documentação comprobatória, deficiência na rastreabilidade das informações e insuficiência de elementos técnicos para embasar responsabilizações individuais. O relatório foi apresentado por Armando Mendonça à diretoria do Corinthians antes do anúncio de sua licença de 30 dias do cargo.

Críticas à metodologia da auditoria interna

Uma das principais conclusões do relatório é que a auditoria interna não teria observado integralmente os requisitos previstos nas Normas Brasileiras de Contabilidade para trabalhos de auditoria interna. Segundo a consultoria, o documento do Corinthians apresenta objetivos, mas não delimita a extensão dos trabalhos realizados, nem informa o universo auditado ou a representatividade das amostras analisadas.

A Villela & Associados afirma ainda que a metodologia descrita pelo clube se restringe à apresentação de conceitos genéricos, sem detalhar critérios de amostragem, materialidade, inventário, avaliação de riscos, testes de corte ou outros procedimentos normalmente exigidos em auditorias dessa natureza.

O parecer também questiona a forma como depoimentos e entrevistas foram utilizados para fundamentar conclusões. Conforme a análise, as declarações reproduzidas no relatório interno não estariam acompanhadas de atas assinadas, termos de entrevista formalizados ou referências a papéis de trabalho que permitissem verificar sua autenticidade e validade como evidência de auditoria.

Contestação sobre os 131 itens atribuídos ao dirigente

O ponto mais sensível do relatório refere-se à conclusão da auditoria interna de que Armando Mendonça teria retirado 131 itens esportivos entre junho e outubro de 2025.

Após examinar as solicitações de materiais utilizadas pela auditoria do clube, a consultoria afirma ter identificado inconsistências na atribuição desses produtos ao vice-presidente. Segundo a análise, nove das vinte solicitações consideradas pela auditoria não tinham Armando como destinatário final dos materiais, além da existência de registros em duplicidade.

De acordo com o documento, dos 131 itens atribuídos ao dirigente, 97 teriam sido destinados a terceiros ou corresponderiam a movimentações internas entre setores do clube, representando cerca de 74% do total apontado pela auditoria interna.

A consultoria detalha que entre esses materiais estariam transferências entre almoxarifados, produtos destinados à Federação Paulista de Futebol, itens utilizados por integrantes da equipe de segurança, uma mala de viagem entregue ao diretor jurídico, materiais doados a ex-atletas e camisas fornecidas a patrocinadores do clube.

Com base nessa revisão, o relatório conclui que a informação utilizada pela auditoria interna para atribuir os 131 itens ao vice-presidente seria inconsistente.

Camisas da NFL

O documento também aborda as camisas comemorativas produzidas para o evento da NFL realizado em parceria com o Corinthians.

Segundo a consultoria, uma troca de e-mails analisada indica que as peças seriam destinadas a colaboradores envolvidos na organização do evento. A Villela afirma que essa informação não teria sido considerada pela auditoria interna ao avaliar a movimentação desses materiais.

Responsabilidade sobre materiais da Nike

Outro ponto da defesa técnica apresentada no relatório é a alegação de que não existe instrumento estatutário, normativo ou administrativo que atribua ao vice-presidente responsabilidade operacional sobre os estoques de materiais esportivos ou sobre o almoxarifado do Corinthians.

A consultoria sustenta que, de acordo com o organograma do clube e com os artigos 113 e 114 do estatuto alvinegro, a vice-presidência possui funções institucionais e de substituição do presidente, sem participação direta em atividades relacionadas à logística, armazenamento, recebimento ou distribuição de materiais esportivos.

O relatório afirma ainda que as atribuições ligadas ao controle de estoques, almoxarifado e fornecimento de materiais estão vinculadas às áreas administrativas e operacionais do clube, sem subordinação hierárquica ao vice-presidente.

A Villela & Associados também rejeita a possibilidade de responsabilizar Armando Mendonça por supostas notas fiscais não lançadas. Segundo o documento, os processos contábeis e fiscais do Corinthians são conduzidos por departamentos específicos e submetidos anualmente a auditorias independentes externas.

A consultoria destaca que os relatórios das auditorias independentes das demonstrações financeiras de 2024 e 2025 não apontaram ressalvas relacionadas à omissão de notas fiscais de materiais esportivos, argumento utilizado para sustentar a ausência de fundamentos técnicos para responsabilização direta do dirigente.

Ao final dos procedimentos, a Villela & Associados conclui que o relatório interno do Corinthians não apresenta evidências documentais suficientes para demonstrar participação direta, ingerência ou poder decisório de Armando Mendonça sobre a gestão dos materiais da Nike. A consultoria afirma não ter encontrado elementos técnicos capazes de estabelecer nexo causal entre as irregularidades apontadas pela auditoria interna e atos praticados pelo vice-presidente.

Denúncia criminal e licença temporária do cargo

Na última quarta-feira (3), o Ministério Público denunciou criminalmente Armando Mendonça pelos supostos crimes de apropriação indébita qualificada, tentativa de apropriação indébita, furto qualificado mediante abuso de confiança e coação no curso do processo. Segundo a acusação, baseada em auditoria interna do Corinthians e em investigações complementares, o dirigente teria se apropriado de 131 itens esportivos da Nike pertencentes ao clube entre junho e outubro de 2025.

O MP também afirma que Armando tentou constranger os responsáveis pela auditoria interna por meio de notificações extrajudiciais enviadas após o início das investigações, além de citar uma gravação telefônica anexada aos autos como elemento de prova. Em seu depoimento, o vice-presidente admitiu ter retirado parte dos materiais, mas afirmou que os produtos eram destinados a ações institucionais e negou qualquer irregularidade.

Além da abertura da ação penal, a promotoria pediu medidas cautelares, incluindo o afastamento temporário do dirigente dos quadros do Corinthians. Paralelamente, associados e conselheiros protocolaram pedido de afastamento cautelar imediato. Diante da repercussão do caso, Armando anunciou licença de 30 dias do cargo.

Em nota, o dirigente negou qualquer envolvimento em desvio de materiais, afirmou que parte dos itens nunca deixou o clube e que os demais foram distribuídos de forma regular e documentada. Armando também declarou que está sendo perseguido por ter denunciado irregularidades relacionadas ao caso VaideBet e afirmou que sua licença não representa admissão de culpa, mas uma medida para preservar sua família e evitar novos desgastes ao Corinthians.

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