oGol.com.br
·5 de agosto de 2026
Por que o Milan acredita que desta vez a reformulação será diferente?

In partnership with
Yahoo sportsoGol.com.br
·5 de agosto de 2026

Depois de desperdiçar uma vaga praticamente assegurada na Liga dos Campeões e encerrar 2025/26 sob forte contestação, o Milan fez algo que se tornou comum após as mais recentes decepções: uma reformulação. A premissa é de que, para 26/27, as coisas sejam diferentes, mas o clube não precisa de novas promessas vazias.
Com nova gestão, alteração no comando técnico, mudanças na diretoria e maiores investimentos, os Rossoneri traçaram uma estratégia mirando alto que refletiu no mercado de transferências. O clube deixou claro que "os valores não assustam mais" e parece confiante nisso, embora os torcedores não estejam tanto.
O futebol italiano por si só está longe de seus dias de glória. Hoje, é difícil que uma equipe do País da Bota possa competir com equipes como PSG, Real Madrid e Manchester City pelos principais títulos da Europa, algo que era comum no fim do século anterior e no começo desse.
O Milan não foge a essa regra e foi quem mais sofreu com a perda de poderio financeiro do futebol local. Depois de viver sua época mais gloriosa entre os anos 80 e 90 e empilhar taças no começo dos anos 2000, a equipe italiana passou dificuldades financeiras seguidas de decisões duvidosas, o que fez o Milan de antigamente "desaparecer".
"O futebol funciona em ciclos. Hoje, a Itália está muito em segundo plano. Independente disso, se um clube fizer um bom trabalho, ainda pode conseguir ascender e voltar a ser uma força dominante na Europa, mesmo que a liga nacional não seja de primeira linha. Se o Milan trabalhasse de forma eficaz, poderia voltar a ser competitivo todos os anos, mesmo que não fosse necessariamente dominante em todas as temporadas. Isso é certamente possível. Mas a atual estrutura não dá a impressão de que um retorno aos tempos de glória esteja no horizonte. Não acho que existam, no momento, as capacidades ou as pessoas certas para levar o clube de volta a esse patamar", disse Simone Cristao, jornalista italiano da Radio Rossonera, em conversa com oGol.
Em 2017, o lendário Silvio Berlusconi (dono da equipe em seus anos mais áureos) anunciou a venda para o empresário chinês Li Yonghong. O que parecia uma mudança de rota, porém, se tornou uma mentira. Yonghong não pagou o montante emprestado para viabilizar a transação e entregou o clube na mão dos credores, o Fundo Elliot, que pouco se importava com o futebol e com a agremiação.
A novela ganhou novos capítulos na temporada 22/23, quando a RedBird, outro fundo de investimentos, assumiu o comando da equipe na figura de Cardinale, que pegou outro empréstimo com o Grupo Elliot para comprar o clube, também o deixando como garantia, tal qual fez Yonghong em 2017.
Ainda em situação delicada financeiramente, com problemas de fairplay financeiro, o Milan seguiu atolado, acumulando maus resultados dentro de campo e sem conseguir relembrar seus tempos áureos. E as trocas na diretoria não davam certo: ídolos dentro de campo, Maldini e Ibrahimovic voltaram ao clube, agora como diretores, e se desgastaram com a torcida.
Depois de mudanças que pareciam infinitas, chega a temporada 26/27. O fiasco de 25/26, quando o clube perdeu a vaga "ganha" na Liga dos Campeões com uma campanha decepcionante na reta final da temporada, foi o estopim. Cardinale, ainda CEO da equipe, pegou outro empréstimo, agora para quitar as pendências com o Fundo Elliot e afastar os americanos. Isso não é, necessariamente, uma garantia de sucesso. Talvez o contrário.
"O proprietário do Milan não é, de forma alguma, um especialista em futebol. Ele entende muito pouco do esporte e, talvez, ainda menos sobre o Milan e sua história. Ele construiu uma organização que carece de figuras com vasta experiência. Sinceramente, não sei se Cardinale conseguirá ajudar. É melhor do que nada, suponho, já que até alguns meses atrás sua presença era inexistente. Mas, se você me perguntar se as coisas podem melhorar... sinceramente, não sei. Se eu realmente tivesse que dar uma resposta, diria que não", pontuou Simone.
O Milan vai, agora, para a sua primeira temporada sem os norte-americanos no comando, algo que já revelou uma postura diferente. No mercado de transferências, os Rossoneri não pouparam esforços nem dinheiro para contratar nomes como Gonçalo Ramos e Mario Gilá. Foram mais de 100 milhões de euros gastos apenas nesses dois jogadores, ainda únicos reforços para a equipe principal.
Mas a busca por novos jogadores não deve parar tão cedo. Ethan Nwaneri e Matìas Soulé despertam o interesse de olho nas beiradas, Pierre-Emile Hojbjerg e Zaniolo chamaram a atenção para o meio, e Gerard Martín, Mazraoui e Dayann Methalie são alvos para a defesa. Sankhoun Diawara, zagueiro jovem ex-Troyes, chegou como promessa ao futuro.
E a manutenção de alguns nomes é crucial para um eventual sucesso. O principal deles é Luka Modric, que dispensa comentários na parte técnica e surpreendeu na parte física: aos 40 anos, foi o quarto atleta com mais jogos do time na última temporada. E a história vai continuar, com a renovação de contrato do croata.
"A permanência de Modric é essencial. Um eventual sucesso passa por ele. Acredito que ele vai passar muita confiança, muita paciência, muita experiência para esses novos jogadores. Ele é extra classe, é um pilar da equipe. É necessário ter uma figura de respeito no vestiário, que transmita confiança, que seja experiente, que já tenha vivido muito no futebol. Ele é esse cara. Foi um dos poucos que não caiu de rendimento na temporada anterior", pontuou Charley Moreira, redator do portal Calciopédia, a oGol.
Enquanto segue de olho em reforços, o clube rossonero deixou claro que atletas caros e de pouco retorno esportivo buscarão novos ares. São os casos de Loftus-Cheek, Rafael Leão (que parece ter forçado uma saída do clube mirando Espanha ou Inglaterra, mas sem propostas desses países recuou em sair para Arábia Saudita e Turquia), Youssouf Fofana, Giménez, Fikayo Tomori e outros, que devem buscar novos destinos. Jovens destaques da base, como Camarda, Comotto e Davide Bartesaghi serão ainda mais importantes.
"Muita coisa mudou. O Milan não vai só investir em jovens, vai gastar mais, algo que não estava na nossa expectativa. O Cardinale estará mais presente. E, competitivo como é, vai fazer de tudo para que o clube não perca. Antes era um 'parto' para contratar jogadores, agora não. A gente piscou e o Gonçalo chegou. A postura é diferente no mercado. Eu não acho que chegue para a próxima temporada com o objetivo de brigar pelo título. É um trabalho a longo prazo", falou o jornalista.
O Milan não trocou apenas de treinador. Ruben Amorim, marcante positivamente no Sporting e negativamente no Manchester United, foi escolhido à dedo para ser o comandante. O treinador português prioriza a posse de bola em seu estilo de jogo e adota um sistema defensivo consistente, com três zagueiros. O pragmatismo dará lugar a mais dinamismo.
Apesar do destaque no Sporting, com foco nas temporadas 23/24 e 24/25, Ruben não deixou saudades na Inglaterra. Seu caráter irredutível foi algo amplamente comentado em seu trabalho no United, sendo isso apontado, algumas vezes, como uma das causas do trabalho instável. E, também, o motivo do receio do casamento com o Milan.
"Ele vai chegar numa liga nova que ele nunca treinou, e em que a experiência conta muito, com um time que jogava com uma postura muito mais reativa, muito mais pragmática. Então ele vai ter que virar essa chavinha na cabeça dos jogadores. Vai ter essa ruptura de pensamento, de ideia de jogo, de modelo de jogo. Ele não vai ser só um treinador, mas sim um manager com influência no mercado. Ele que indicou o Gonçalo. Por não ser italiano, ele vai ter dificuldade, vai tomar 'porrada' da imprensa também. Temos que ter os pés no chão", seguiu dizendo.
Toda essa mudança de imagem no mercado tem um objetivo bem definido, evitar algo que se tornou comum ao Milan nos últimos anos: fiascos. Nos anos 90, os Rossoneri ergueram 16 taças. Na década seguinte, oito. E, desde o Scudetto de 10/11, o clube faturou um Campeonato Italiano e duas Supercoppas, enquanto Juventus e Internazionale, os dois maiores rivais, armaram uma hegemonia na Itália e ultrapassaram a marca de 20 títulos da Serie A, nesta ordem.
E muito disso se explica por erros no mercado de transferência. Em 2017/18, quando o fundo chinês assumiu o controle, o clube realmente abriu os cofres, trazendo nomes como Bonucci, Higuaín e Calhanoglu, e em nada deu. Depois de 22/23, quando o Milan chegou ao último Scudetto, ocorreu o mesmo, com De Ketelaere, Thiaw e Origi. E, com gastos exorbitantes e pouco resultado esportivo, as crises se escancaram.
"Já são anos ouvindo esse discurso de que o Milan acabou, não é uma novidade. E o mais frustrante é ver que o rival segue ganhando, segue com estabilidade, traz reposições à altura. O Milan ainda tem certa dificuldade de se estabilizar de volta tanto na cena do futebol italiano quanto no futebol europeu. E esse discurso é muito forte por conta da queda de rendimento nos últimos anos. Eu só espero que essa próxima temporada seja melhor. Não pode acontecer o que aconteceu na reta final da última temporada. Todos precisam jogar juntos, para que isso seja o reflexo", disse Giovana de Assis, membro do AC Milan Brasil.
A esperança de dias melhores segue viva para os milanistas. O ressabio, porém, é uma verdade, até por tantas promessas antigas não cumpridas. Se quiser voltar ao que foi, a equipe ítaliana terá de ter muita paciência e, lá na frente, colher os frutos de algo que não faz há muitos anos: um trabalho cauteloso e inteligente.
"O que se espera daqui para frente o do Milan é que tenha uma construção devagar, um tijolo por vez, com calma. Um clube dessa grandeza não pode viver só das glórias do passado, precisa construir a sua história de novo, precisa continuar escrevendo os seus capítulos. A expectativa é que jogue bem o Campeonato Italiano, que já começa em agosto, que consiga se sair bem na Liga Europa, que traga reforços à altura e que continue progredindo, melhorando, para que as situações do passado não voltem a se repetir", finalizou a torcedora.
O Milan já prometeu recomeçar diversas vezes na última década. A diferença, agora, será medida menos pelo dinheiro investido e mais pela capacidade de transformar um elenco reformulado em um projeto duradouro. Porque o mercado pode comprar esperança. O tempo, porém, será o responsável por dizer se ela finalmente virou realidade.







































