Um campeonato, duas equipas: a realidade única do futebol em São Jorge | OneFootball

Um campeonato, duas equipas: a realidade única do futebol em São Jorge | OneFootball

In partnership with

Yahoo sports
Icon: Zerozero

Zerozero

·9 de abril de 2026

Um campeonato, duas equipas: a realidade única do futebol em São Jorge

Imagen del artículo:Um campeonato, duas equipas: a realidade única do futebol em São Jorge

Na Ilha de São Jorge, nos Açores, vivem cerca de oito mil pessoas e disputa-se um invulgar campeonato.

São apenas duas equipas - o FC Calheta e o GD Velense -, que tão bem se conhecem e que jogam entre si 12 jornadas. O vencedor disputa a fase de campeão com os vencedores da Ilha Terceira e da Graciosa e apenas um consegue ser promovido ao campeonato dos Açores. 


OneFootball Videos


Para satisfazer a sede de saber mais, o zerozero procurou o presidente do Calheta, António Miguel Viegas; o dirigente do futebol do Velense, André Rodrigues, e o melhor marcador do campeonato, Hélio Ocante, que atua no Calheta. Venha connosco...

*com Francisco Martins

«Eu esperava honestamente que fôssemos campeões»

O atual campeão fez a festa no dia 8 de março e o presidente revelou que não esperava vencer com tanta facilidade.

«Eu esperava honestamente que fôssemos campeões. Isto é uma direção nova que está aqui há cerca de um ano e o nosso claro objetivo era este, de ser campeões. Assim com tanta facilidade e sem nenhuma derrota até à data, confesso-lhe também que não esperava que fosse», começou António Miguel Viegas, à conversa com o nosso jornal.

«Fomos campeões em casa do nosso adversário, que é no concelho vizinho. Tivemos uma caravana até aqui à Calheta, até cima do cais, onde lançamos aqui umas caixas de fogo de artifício, e depois então fomos até o nosso campo e a festa prolongou-se mais umas horas aqui com os adeptos, com os sócios, com todos aqueles que simpatizam com o clube.».

André Rodrigues, responsável pelo futebol do segundo e último classificado Velense, falou dos principais fatores do que é preciso para haver sucesso na próxima temporada e das peculiares eleições do clube:

«Estamos a falar de um clube que todos os anos vai a eleições e ainda não alterou os seus estatutos para que as eleições sejam a cada dois anos ou de três em três anos, em que as pessoas possam programar e organizar o futuro do clube de maneira diferente. Portanto, nós estamos sempre condicionados a eleições anuais. E isso leva-nos, por exemplo, a que se houver eleições em junho ou julho deste ano, com que as coisas sejam preparadas mais tarde.».

«Infelizmente não há mais equipas na ilha»

André Rodrigues também deixou uma palavra sobre como as equipas se mantêm motivadas num campeonato a dois: «É muito difícil. É um grande trabalho por parte das estruturas, dos clubes, também das equipas técnicas, o que não é fácil. As nossas camadas jovens nos juvenis também já passam por isso.».

Hélio Ocante, o melhor marcador deste peculiar campeonato, falou da motivação para jogar sempre contra os mesmos: «Infelizmente não há mais equipas na ilha, é assim um pouco por todas as ilhas dos Açores. O que nos motiva é vontade de ganhar, vontade de estarmos juntos, conviver também.»

«Podemos ver os dois lados, mas acaba por ser, talvez a minha opinião, mais fácil. Porque estamos sempre a ver os mesmos, já sabemos como é que eles jogam, como é que a equipa joga. Mas também poderia ser o outro lado, porque eles também já me conhecem.».

Em São Jorge, com uma população tão reduzida e envelhecida, acaba por ser difícil formar equipas de jovens, isso faz com que tenha que se juntar escalões. Ambos os responsáveis abordaram a temática da formação:

«Não temos gente para fazer um campeonato de iniciados, um campeonato de juvenis e um campeonato de juniores. Fazemos então aqui um campeonato que é considerado um campeonato sub-16, que engloba três escalões. Claro que não é o ideal para o crescimento de jogador», disse António Manuel Viegas.

«O facto de termos uma população mais envelhecida faz com que se passe para esta nova realidade. Estamos a falar de uma realidade em que normalmente os iniciados se juntam aos juvenis para haver competição de juvenis. E os nossos juniores juntam-se aos seniores para haver competição. É uma realidade que é difícil de alterar, porque a demografia é o que é, os nascimentos são o que são», referiu, por sua vez, André Rodrigues.

«Uma das dificuldades é arranjar equipas técnicas»

Há uma notória dificuldade em atrair e recrutar jogadores, mas ainda mais para arranjar equipas técnicas para os clubes de São Jorge, e o presidente do Calheta abordou essa questão: «Uma das dificuldades prende-se aqui em arranjar equipas técnicas. Treinadores, com curso habilitado, porque é obrigatório ter, e na nossa realidade também é obrigatório ter treinadores.».

Hélio está no lote de jogadores que não são naturais da ilha, passou por Portugal Continental e por Itália, antes de chegar. O avançado fez a distinção do futebol jogado no país transalpino e entre o continente e São Jorge: «No continente há muito mais equipas, os campeonatos são muito mais disputados. Em Itália, o que eu notei é que o campeonato é muito mais físico. Os jogadores batem mais, há mais agressividade. Na Ilha de São Jorge, é um campeonato que quase podia melhorar se tivesse mais competitividade, mas joga-se bem à bola.»

André Rodrigues falou sobre as condições para treinar e jogar no Velense: «Neste momento temos as condições que eu não tive há 20 anos atrás, tive uma realidade de pelados, de poucas infraestruturas, de pouca luz para dar treino. Neste momento há 3 sintéticos, há 3 campos iluminados e, portanto, nunca houve tantas instalações. Sou treinador de infantis, mas já fui treinador de juvenis. Eu consegui ser campeão de ilha, ganhei as taças todas cá e consegui ganhar ao campeão da Terceira e o campeão da Graciosa. Fizemos esse feito histórico, nunca ninguém tinha feito na formação.».

«Nunca nas camadas jovens tínhamos vencido um torneio da Associação de Futebol de Angra na formação. Mas foi porque, excecionalmente, nós tínhamos 12, 13 atletas bons. Todos eles de último ano de juvenis. Quando bem trabalhado o jogador tem disponibilidade para o patamar. O Djaniny Semedo é o exemplo disso», acrescentou.

Mesmo habitando numa ilha com uma população reduzida, o responsável máximo do atual campeão deixou elogios aos adeptos da equipa: «Conseguimos mover aqui uma massa adepta muito significativa para a nossa realidade, tanto nos jogos aqui na nossa casa, como nos jogos fora. Temos sempre bastante gente que nos acompanha, que são muito interessados e que nos dão realmente um grande apoio.».

Com a fase de campeão e a taça na calha, o melhor marcador não escondeu as suas ambições: «É como se diz no futebol, é limpar tudo. Mas se eu pudesse escolher mesmo só um, eu queria ser mesmo campeão.».

Qual será o futuro do futebol em São Jorge? Uma união com os outros integrantes da AF Angra do Heroísmo? Ao zerozero dizem que já houve muitas conversas nesse sentido, mas falta o consenso.

Ver detalles de la publicación