A história da atacante ex-Palmeiras que virou bombeira e estuda para 'cuidar' do futebol feminino | OneFootball

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·9 avril 2026

A história da atacante ex-Palmeiras que virou bombeira e estuda para 'cuidar' do futebol feminino

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Quem conhece o futebol feminino para além da bolha dos grandes clubes sabe a luta de muitas meninas. Da falta de condições de trabalho no campo até a jornada dupla para conseguir manter vivo o sonho do futebol. Tábata Vieira viveu os dois mundos e hoje começa a escrever sua história fora dos gramados. Ela é bombeira civil, mas estuda psicologia para ser a ajuda que não teve ao longo da carreira. 

Mineira de Contagem, Tábata começou a jogar no futsal, como tantas craques do nosso futebol. Incluindo a Rainha Marta, que fez das quadras mineiras o palco dos seus lances geniais antes de migrar para o campo. Quando começou a jogar pelo Contagem, Tábata ouviu muitas histórias da Rainha por lá. Mas só depois conheceria a dimensão daquilo tudo. 


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O início em Minas

Para entrar no time da cidade, Tábata precisou de um treino. Apesar de ter sido menosprezada pelo técnico da época (quem se identifica?). 

"Quando cheguei, o treinador não queria me deixar jogar. 'Para ela não perder tempo, deixa ela brincar no meio das meninas'. Fiquei triste, fui lá, joguei, dei minha vida e no fim, acredito que ele tenha ficado impressionado, consegui me destacar e fiquei lá dos 12 aos 15 anos", contou, em conversa com a reportagem. 

Tábata precisou pegar uma medalha da época para lembrar dos tempos de futsal. E lembrou de muito mais. Do futsal, mas principalmente quando mudou para o campo, de tanto ouvir que "o futsal não dá em nada". "As meninas já não tinham visibilidade no campo, imagina no futsal". 

E no campo, Tábata foi defender o Atlético. Ainda menina, mas já no time principal. "Naquela época não tinha base. Ou você jogava, ou não jogava (risos)". 

E no caso as atletas jogavam de graça, quando não pagavam para jogar. "No Atlético, eu ganhava um salário de 70 reais", lembrou. Ainda em Minas, passou por Nacional e Santa Cruz, e chegou a viver a experiência de jogar no futebol universitário dos Estados Unidos antes de estrear no Brasileirão Feminino. 

Tábata lembra da realidade diferente que viveu no Texas, mas não se arrepende por ter voltado ao Brasil por questões familiares. No América na sequência, fez suas duas únicas temporadas na elite do futebol nacional, em 2015 e 2016. 

"A gente estava em êxtase, porque a gente pagava para jogar praticamente, não tinha recurso, mas a gente era muito bem acolhida pelo Éder, que acho que está no Catar treinando futsal. Mas ele e a esposa montaram essa equipe, com dinheiro do próprio bolso, como era natural daquela época. A Babi (Bárbara Fonseca) também chegou, atualmente no Grêmio (é executiva de futebol das Mosqueteiras). Foi incrível para a gente vestir uma camisa de peso, um time muito organizado. Poder disputar um campeonato brasileiro foi sensacional. No segundo ano a gente foi remunerada, então foi sensacional", fez questão de ressaltar. 

Mesmo quando recebeu salário e jogou o Brasileirão Feminino, Tábata teve de trabalhar fora do futebol para conseguir pagar as contas em casa. Ela trabalhou como coordenadora de uma escola em Belo Horizonte. 

"Eu tenho na carteira um salário mínimo, e era coordenadora em uma escola. Eu trabalhava de 7h às 17h, como coordenadora da escola. E o treino era de 19h às 21h30", conta. 

Tábata sabe que essa jornada dupla ainda é a realidade de muitas jogadoras pelo Brasil. "Estou feliz pelo patamar que o futebol feminino alcançou, em alguns clubes as meninas conseguem viver (só com futebol). Mas sei que existe ainda meninas que precisam ter dupla jornada. E a cobrança é a mesma (de quem só vive de futebol)", comentou. 

Oportunidade no Palmeiras

Em 2018, Tábata viveu a temporada goleadora da carreira. Foi artilheira do Campeonato Mineiro pelo Ipatinga, com 12 gols, ao lado de Vanessa e Duda, e com direito a três hat-tricks. Acabou vice-campeã, nos pênaltis, para o América... Mas guarda com carinho a campanha e o trabalho com a técnica Kethleen Azevedo, hoje no Minas Brasília. Foi esse trabalho que deu para Tábata a grande oportunidade da carreira: participar do elenco que marcaria a retomada do Palmeiras no futebol feminino. 

"Poder fazer parte do primeiro time do Palmeiras foi sensacional, não me arrependo de ter vivido aquilo. Só não foi tão bom porque não tive tantos jogos, tantas oportunidades. Mas conheci pessoas incríveis, como o Alberto Simão (hoje diretor de futebol). Foi muito gratificante viver esse início", reforçou. 

A falta de oportunidades em campo Tábata explicou em dois momentos: primeiro com a técnica Ana. "Foi um grupo montado pela Ana. Eu nunca vi um nível de inteligência e de planejamento de treinos como o dela. Só que eu não era atleta dela, então foi diferente as coisas", começou por explicar. 

Tábata não estava entre as "favoritas" de Ana. Quando mudou o comando técnico, questões físicas atrapalharam. "Eu tinha me lesionado, emagreci muitos quilos. Fui tendo lesão atrás de lesão, então não consegui ter sequência", completou. 

Ainda assim, participou da campanha que colocou as Palestrinas na elite do futebol brasileiro. "Foi tudo muito diferente do que eu já havia vivido na carreira. Questões técnicas, físicas, alimentação. Vi que a alimentação era importante no futebol, estava em um clube que estava investindo, e que tinha uma visão futura diferente dos clubes que eu tinha passado. O Palmeiras é um clube com boas condições financeiras, e isso me fez enxergar o futebol diferente. Tudo que precisava, eu tinha", fez questão de afirmar. 

Já na reta final da carreira, Tábata conquistou seu único título nacional: o da A3 do Brasileirão com o Taubaté, em 2022, em cima do 3B da Amazônia.

"É um título que toda atleta procura, apesar de ser Série A3, foi gratificante. Até pelo enredo na final. Chegamos na final sem ter perdido e tomamos 2 a 0 no primeiro jogo. A gente tinha certeza que não poderíamos deixar escapar. Nunca vou esquecer. Ali respirei, e falei: pronto, consegui". 

Um novo capítulo

Não foi o último capítulo da carreira, mas depois de passagens por União Desportiva, Vasco, São José e pelo último vice-campeonato mineiro com o Itabirito, Tábata se aposentou em 2024. Após 24 anos dedicados ao futebol. Já nessa reta final de carreira no futebol, ela abriu caminho para um reinício um tanto diferente: se tornar bombeira civil. 

"Comecei a cursar bombeira civil lá na União Desportiva. Meu professor diz que a gente vai ter a oportunidade de salvar o amor da vida de alguém. Isso é para mim".

Tábata trabalha no hospital Sarah, em Belo Horizonte. Trabalhadora e sonhadora, não foge da dupla jornada: "Tenho plantão de 7h às 19h e faço faculdade a noite. Acho que nem aposentei, eu dobrei o serviço", brincou.

No hospital, trabalha na prevenção de incêndios. "Quem vê um bombeiro civil fala: 'olha lá, estão à toa'. Mas é porque não entendem que a gente trabalha na prevenção. Quer ver a gente trabalhar? Põe fogo no hospital. De vez em quando toca uns alarmes, mas graças a Deus até agora foi falso", comentou, sempre com bom humor. 

Quando acaba o plantão, ela vai para a faculdade. O sonho é "não deixar as meninas passarem o que passei". Tábata estuda para atuar como psicóloga no futebol. 

"A mente é o que temos de mais importante e a gente precisa cuidar. Não podemos deixar o outro estragar a nossa saúde mental. Muitas pessoas sofrem de depressão, ansiedade. Dentro do futebol, não quero que as meninas passem o que passei. Porque é difícil se reencontrar", refletiu. 

Tábata quer transformar suas cicatrizes em ferramenta de trabalho para que as próximas gerações do futebol feminino não tenham que carregar tantas feridas.  

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