Calciopédia
·17 juillet 2026
Controverso, o zagueiro Danilo teve longa carreira na Itália e foi líder de Udinese e Bologna

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Ao longo da história da Serie A, diversos jogadores brasileiros marcaram época nos principais clubes italianos. Filó, Julinho Botelho, José Altafini, Paulo Roberto Falcão, Zico, Ronaldo, Adriano, Kaká e tantos outros costumam ser lembrados quase automaticamente quando se fala na relação entre Brasil e Itália. Há, porém, personagens que construíram trajetórias reconhecidamente relevantes sob outro prisma: longe dos holofotes dos gigantes europeus, fizeram carreira graças à regularidade, à capacidade de adaptação e à permanência por muitos anos em um campeonato conhecido por exigir excelência defensiva. É nesse grupo que se encaixa Danilo, zagueiro que vestiu as camisas de Udinese e Bologna.
Sem nunca ter figurado entre os grandes astros do futebol brasileiro, o zagueiro transformou a Serie A em sua principal vitrine e passou mais de uma década atuando no país. Forte fisicamente, destacava-se pela leitura de jogo, pelas antecipações e pelo bom posicionamento, características que compensavam a falta de velocidade. Era eficiente nas disputas aéreas, tanto na defesa quanto no ataque, sabia atuar em diferentes funções da linha defensiva e raramente complicava a saída de bola, privilegiando passes simples e seguros. Essas qualidades fizeram dele um defensor bastante valorizado por diferentes treinadores ao longo da carreira. Ao mesmo tempo, sua trajetória esteve longe de ser marcada apenas pelo desempenho dentro das quatro linhas: uma condenação por injúria racial no Brasil e sucessivos episódios de atrito durante sua passagem pela Itália também ajudaram a moldar sua imagem pública.
Danilo Larangeira nasceu em 10 de maio de 1984, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, mas ainda criança mudou-se com a família para Itatiba, no interior de São Paulo. Cresceu em um ambiente familiar estável, sem enfrentar dificuldades financeiras, e iniciou sua trajetória no futebol aos 14 anos, quando ingressou nas categorias de base do Paulista de Jundiaí. A aprovação na peneira significou também a primeira grande mudança de sua vida: passou a morar no alojamento do Estádio Dr. Jayme Cintra, convivendo desde cedo com a distância da família e a rotina do futebol profissional.
A adaptação foi rápida. Ainda na categoria júnior, passou a treinar com a equipe principal e estreou profissionalmente em 2003. O primeiro jogo, contudo, esteve longe de ser tranquilo. Logo aos 5 minutos, cometeu um pênalti contra o Sport, mas acabou salvo pelo goleiro do Paulista, que defendeu a cobrança. Sem muito espaço naquele momento, foi emprestado ao Ituano, onde integrou o elenco campeão da Série C do Campeonato Brasileiro, conquistando o primeiro título profissional da carreira.
No ano seguinte, retornou ao Paulista mais amadurecido e assumiu a titularidade durante o estadual de São Paulo. O clube surpreendeu ao chegar à decisão, terminando com o vice-campeonato diante do São Caetano, numa campanha que contribuiu para projetar o jovem zagueiro no cenário nacional. O desempenho chamou a atenção do Atlético Paranaense, que – bem antes de se chamar Athletico – o contratou para a temporada de 2005.
Foi em Curitiba que Danilo deu um salto importante em sua evolução. Em um elenco competitivo, participou da campanha que levou o Furacão à final da Copa Libertadores de 2005, encerrada com o vice-campeonato diante do São Paulo. Nos anos seguintes, consolidou-se como um dos principais nomes do sistema defensivo rubro-negro e ganhou experiência suficiente para despertar o interesse de um dos principais clubes do país.
Danilo chegou à Udinese em 2011, quando atravessava período turbulento no Brasil (Getty)
A oportunidade surgiu em 2009, quando foi contratado pelo Palmeiras com o aval do técnico Vanderlei Luxemburgo e do diretor de futebol Toninho Cecílio. A expectativa em torno da equipe era alta, e Danilo rapidamente conquistou espaço. Teve atuações marcantes na Copa Libertadores, especialmente diante de Sport e Colo-Colo, e marcou um gol importante no clássico contra o Corinthians pelo Campeonato Brasileiro. Apesar da boa temporada individual, viu o Palmeiras desperdiçar uma vantagem construída ao longo da competição e perder um título brasileiro que parecia muito próximo.
Foi justamente durante sua passagem pelo clube paulista que ocorreu o episódio mais grave de sua carreira. Em 2010, durante uma partida contra o Atlético Paranaense, Danilo dirigiu ao zagueiro Manoel a expressão “macaco”. O caso teve repercussão nacional e resultou em um processo judicial que culminou, em janeiro de 2013, na condenação do jogador a um ano de reclusão domiciliar. A pena acabou convertida em prestação pecuniária equivalente a 500 salários mínimos – cerca de 366 mil reais na época – destinada a uma entidade de finalidade social. Foi um dos primeiros casos no futebol brasileiro a resultar em uma punição dessa natureza. Após recurso, em maio de 2015, a condenação foi parcialmente reformada, reduzindo o valor para o equivalente a 100 salários mínimos, cerca de 78,8 mil.
Enquanto o processo ainda seguia seu curso na Justiça brasileira, a carreira de Danilo tomava um novo rumo. Em agosto de 2011, aos 27 anos, acertou sua transferência para a Udinese, iniciando o capítulo mais longo e significativo de sua trajetória como jogador. A negociação representava uma exceção à política do clube friulano, tradicionalmente voltada à contratação de atletas mais jovens. O incentivo do lateral Pablo Armero, seu antigo companheiro de Palmeiras e já adaptado ao futebol italiano, ajudou na decisão de atravessar o Atlântico.
A chegada ao Friuli trouxe desafios imediatos. Danilo precisou aprender um idioma completamente novo e mergulhar em uma cultura diferente da brasileira. Para acelerar o processo, seu professor recomendava até que assistisse a desenhos animados em italiano, já que os diálogos eram mais lentos e facilitavam a compreensão. Paralelamente, passou a acompanhar partidas da Serie A e da Coppa Italia para incorporar também o vocabulário específico do futebol. Dentro de campo, o desafio não era menor. Sob o comando de Francesco Guidolin, precisaria se adaptar rapidamente a um sistema com três zagueiros e assumir justamente a posição que havia pertencido ao colombiano Cristián Zapata, negociado após anos como referência da defesa bianconera.
A adaptação aconteceu mais rapidamente do que se poderia imaginar. Danilo estreou na Serie A em setembro de 2011, na vitória por 2 a 0 sobre o Lecce, e rapidamente conquistou espaço entre os titulares de Guidolin. Logo em sua primeira temporada, fez 36 partidas pelo Campeonato Italiano e foi um dos pilares defensivos de uma Udinese que viveu um de seus últimos grandes momentos antes de passar a frequentar campanhas mais modestas. Os bianconeri encerraram a Serie A na terceira colocação, garantindo vaga no playoff da Liga dos Campeões, e voltaram a se destacar por uma defesa sólida, a terceira menos vazada do certame.
A campanha consolidou Danilo como uma aposta acertada da diretoria. Além da consistência defensiva, começou a contribuir também ofensivamente. Em fevereiro de 2012 marcou, diante do PAOK, seu primeiro gol em competições europeias. Poucos meses depois, anotou também seu primeiro gol na Serie A em grande estilo: um chute de longa distância contra a Inter, no Friuli. A Udinese acabou derrotada por 3 a 1, mas o lance permaneceu como um dos gols mais bonitos de sua passagem pelo clube.
O desempenho daquela temporada levou a Udinese novamente ao cenário europeu. A equipe, porém, viu o sonho de retornar à fase de grupos da Liga dos Campeões terminar de maneira frustrante nos playoffs, diante do Braga. A disputa foi decidida nos pênaltis e ficou marcada pelo erro crasso de Maicosuel, que foi displicente e desperdiçou a sua cobrança com uma cavadinha terrível. Restou ao clube disputar a Liga Europa. E, apesar de uma vitória histórica sobre o Liverpool em Anfield, os bianconeri caíram na fase de grupos.
O zagueiro alcançou feitos relevantes pela Udinese, equipe da qual chegou a ser capitão (Getty)
Na temporada 2012-13, Danilo confirmou que seu bom primeiro ano não havia sido circunstancial. Manteve a titularidade e marcou dois gols no Campeonato Italiano, ambos em jogadas iniciadas por Antonio Di Natale – contra Cagliari e Sampdoria. Também passou a usar, ocasionalmente, a braçadeira de capitão, um indicativo do respaldo que conquistava dentro do elenco mesmo dividindo vestiário com um dos maiores ídolos da história da Udinese. Naquela campanha, os friulanos abocanharam a quinta posição na Serie A e se classificaram para a Liga Europa.
A partir de 2013-14, entretanto, o cenário esportivo do clube começou a mudar. A Udinese deixou de frequentar a disputa por competições europeias e passou a viver temporadas mais discretas na Serie A – foi apenas 13ª colocada nesse ano, além de ter sido eliminada ainda nos playoffs da Liga Europa, pelo Slovan Liberec, vitorioso no Friuli. Ainda assim, chegou às semifinais da Coppa Italia, enquanto Danilo permanecia como um dos poucos pontos de estabilidade de um elenco que começava a sofrer constantes reformulações. A troca de treinadores passou a fazer parte da rotina do clube, mas sua condição de titular praticamente nunca foi colocada em dúvida.
Nos anos seguintes, trabalhou sob o comando de Andrea Stramaccioni, Stefano Colantuono, Luigi De Canio, Giuseppe Iachini, Luigi Delneri, Massimo Oddo e Igor Tudor. Independentemente das mudanças no banco de reservas, continuou sendo uma presença constante na defesa friulana, algo que ajuda a dimensionar o prestígio conquistado internamente ao longo de sete temporadas.
As campanhas da Udinese, porém, tornaram-se cada vez mais pobres. Em 2014-15, a equipe terminou apenas na 16ª colocação, escapando do rebaixamento depois de conviver durante boa parte da temporada com a zona de perigo. Ainda assim, Danilo teve participação importante na permanência dos bianconeri e marcou um gol decisivo na vitória sobre o Napoli logo nas primeiras rodadas do campeonato.
Foi também nesse período que sua identificação com o clube aumentou. Depois de já ter usado a braçadeira esporadicamente nos anos anteriores, tornou-se vice-capitão e passou a substituir Di Natale com frequência, sobretudo quando o veterano atacante começava as partidas no banco de reservas. Em 2015, o zagueiro também chegou a flertar com uma possibilidade anteriormente inesperada: naquele ano, Antonio Conte, então treinador da seleção italiana, acompanhou de perto diversos clubes da Serie A em busca de alternativas para ampliar o leque de convocáveis antes da Eurocopa de 2016. Nos bastidores da Udinese, Danilo foi informado por dirigentes de que seu nome havia sido sondado para uma eventual naturalização. A hipótese, contudo, nunca avançou.
Se dentro de campo sua importância aumentava, fora dele a relação com parte da torcida começava a se desgastar. Após uma derrota para a Roma, na temporada 2015-16, Danilo protagonizou um primeiro desentendimento ao responder de forma áspera a torcedores que o cobravam diante da Curva Nord. O episódio antecipava uma convivência que se tornaria cada vez mais turbulenta.
Em contrapartida, sua relevância no grupo bianconero seguia evidente. A temporada 2015-16 terminou com a Udinese apenas na 17ª posição, a pior campanha do clube desde sua chegada e justamente a última de Di Natale antes da aposentadoria. Com o fim da histórica trajetória do atacante, Danilo passou a assumir a braçadeira de capitão em definitivo no início da temporada seguinte, simbolizando a transição para uma nova fase da equipe.
Já veterano, Danilo se transferiu ao Bologna e, além de ser titular no clube rossoblù, usou a faixa de capitão diversas vezes (Getty)
A promoção, entretanto, não significou uma relação pacífica com o ambiente ao redor do clube. Já como capitão, voltou a discutir com torcedores e chegou a declarar, em meio a uma troca de acusações, que pouco lhe importava usar a braçadeira. A repercussão obrigou a Udinese a atuar para reduzir a tensão entre o jogador e os ultras, mantendo, ainda assim, sua condição de dono da faixa.
Pouco depois, outro episódio contribuiu para desgastar sua imagem. Durante um treinamento, entrou de maneira excessivamente dura em disputas com Ali Adnan, Francesco Lodi e Adalberto Peñaranda, obrigando os três companheiros a receberem atendimento médico. O caso repercutiu internamente e foi encerrado apenas depois que o brasileiro pediu desculpas ao elenco e à direção do clube.
Apesar desses casos, Danilo permaneceu como referência técnica da defesa em 2016-17 e 2017-18, anos em que os friulanos ficaram na 13ª e na 14ª posição do Italiano, respectivamente. Ao longo de sete temporadas na Udinese, participou de 282 partidas oficiais, marcou 11 gols e entrou para o grupo dos 10 jogadores que mais vezes vestiram a camisa do clube. Na Serie A, tornou-se o quarto atleta com mais jogos (244) na história da equipe. Um retrato da longevidade alcançada em um período marcado por profundas transformações no elenco e por sucessivas mudanças de comando técnico.
Em agosto de 2018, sua passagem chegou ao fim. Aos 34 anos, Danilo chegou ao Bologna por empréstimo com obrigação de compra, encontrando um clube que atravessava um momento de ascensão, ao contrário do que ocorria com a Udinese em boa parte de sua passagem. Sob a gestão do presidente Joey Saputo, os rossoblù buscavam consolidar um processo de reorganização que começava a afastá-los das frequentes lutas contra o rebaixamento. A experiência acumulada pelo brasileiro na Serie A fazia dele um reforço importante para um elenco que buscava maior estabilidade.
A afirmação foi imediata. Mesmo já veterano, Danilo assumiu rapidamente a condição de titular e tornou-se uma presença constante na equipe durante um triênio. Seu primeiro gol pelo Bologna saiu no fim de 2018, numa derrota por 3 a 2 para o Napoli. Ao longo de três temporadas, somou 102 partidas e três tentos – números que refletem a confiança depositada nele pelos dois técnicos que teve; Filippo Inzaghi e Sinisa Mihajlovic.
Poucos meses depois de sua chegada, o Bologna passou a ser comandado por Mihajlovic. Dono de uma personalidade forte, o treinador sérvio, que foi um duro zagueiro enquanto atleta, encontrou em Danilo um defensor experiente para liderar a retaguarda emiliana. E isso ocorreu mesmo em um período em que a idade já poderia indicar uma perda de espaço natural do beque no elenco. Ao contrário, o paulista utilizou a braçadeira de capitão em algumas oportunidades, reforçando seu status de líder.
Embora o Bologna ainda estivesse distante de disputar competições europeias, o cenário era bem diferente daquele vivido por Danilo em seus últimos anos na Udinese. Depois de terminar a temporada 2018-19 na décima colocação, a equipe repetiu campanhas seguras, encerrando os campeonatos de 2019-20 e 2020-21 em 12º lugar. O clube passou a frequentar com mais regularidade o meio da tabela, sem conviver com a ameaça do descenso, e o brasileiro participou diretamente desse período de estabilização.
O defensor brasileiro encerraria sua carreira no Parma (Arquivo/Parma Calcio)
Ao término do contrato, em 2021, Danilo cogitou encerrar a carreira. Depois de 10 anos consecutivos na Itália, imaginava que seu ciclo no futebol estivesse chegando ao fim. A possibilidade mudou quando surgiu o interesse do Parma, recém-rebaixado para a Serie B e empenhado em iniciar um processo de reconstrução. Após ficar sem clube pelo verão europeu inteiro, o brasileiro firmou um vínculo com os crociati, rivais do Bologna, no último dia de agosto daquele ano, realizando o sonho de atuar ao lado de Gianluigi Buffon, que voltara ao time com o objetivo de pendurar luvas e chuteiras por lá.
No Parma, Danilo foi treinado por Enzo Maresca, ainda no início de carreira, e por Iachini, que fora seu comandante na Udinese. No clube, encontrou um elenco que reunia jogadores extremamente experientes e jovens vistos como promessas do futebol europeu. Além de Buffon, dividiu o vestiário com atletas como Franco Vázquez e Goran Pandev, enquanto acompanhava o desenvolvimento de nomes como Dennis Man, Ange-Yoan Bonny e Adrián Bernabé. A combinação entre juventude e experiência era uma das marcas daquele grupo, e o brasileiro passou a desempenhar justamente um papel de dar casca ao plantel.
Sua passagem foi curta, mas consistente. Estreou na Serie B em setembro de 2021, assumiu a titularidade e, com 29 jogos realizados, participou bastante da campanha de uma equipe que terminou no meio da tabela. O xerife marcou seu único gol pelo clube na vitória por 3 a 1 sobre o Cosenza, em abril de 2022. Logo depois de seu contrato terminar, o defensor anunciou oficialmente sua aposentadoria no início de julho, encerrando a carreira aos 38 anos.
Sem títulos conquistados, a trajetória de Danilo na Itália acabou marcada pela longevidade. Foram 11 temporadas consecutivas no país, quase 300 partidas pela Udinese, onde fez história, pouco mais de uma centena pelo Bologna e mais uma campanha honrosa pelo Parma. Em diferentes momentos e contextos, conseguiu preservar seu espaço no onze inicial desses três times mesmo trabalhando com treinadores de perfis bastante distintos.
Sua história, entretanto, dificilmente pode ser resumida apenas pela regularidade em campo. A condenação por injúria racial no período em que defendia o Palmeiras permaneceu como um dos episódios mais graves de sua trajetória, enquanto as discussões com torcedores friulanos e outros episódios disciplinares mostraram um personagem mais complexo do que a imagem tradicional do atleta discreto e exclusivamente profissional. Ainda assim, poucos brasileiros conseguiram construir uma permanência tão longa e consistente no futebol italiano, permanecendo competitivos até os últimos anos da carreira e sem perderem espaço no onze inicial dos times que representou. Danilo foi capaz de tudo isso.
Danilo Larangeira Nascimento: 10 de maio de 1984, em São Bernardo do Campo (SP) Posição: zagueiro Clubes: Paulista (2002 e 2004), Ituano (2003), Atlético Paranaense (2005-09), Palmeiras (2009-11), Udinese (2011-18), Bologna (2018-21) e Parma (2021-22) Títulos: Série C (2003) e Campeonato Paranaense (2005)







































