Zerozero
·13 juillet 2026
Fernanda Torres: «Adoro a Baixa, o Bairro Alto. Amo a Graça. E, no outro dia, fui a pé de Belém até ao Museu do Azulejo»

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·13 juillet 2026

A distância é enorme, entre Brasil e Portugal. Ao todo, 7495 quilómetros com o Oceano Atlântico pelo meio. Para diminuir essa diferença, já de si esbatida com os Descobrimentos e tal, a RTP importa as novelas da Globo. Começa com Gabriela, cravo e canela, em 1977. Depois. Bem, depois, respire, inspire e cá vai disto: Escrava Isaura (1978), O Astro (1979), Dancin´ Days (1980), Pai Herói (1983), Guerra dos Sexos (1984), Vereda Tropical (1986), Roque Santeiro (1987), Selva de Pedra (1988), Sassaricando (1989), Tieta (1991), Pedra sobre Pedra (1992) e por aí fora. É um fartar de vilanagem. De bom gosto e indiscutível qualidade.
A distância é enorme, entre Rio de Janeiro e Lisboa. Ao todo, 7724 quilómetros com o Oceano Atlântico pelo meio. Para diminuir essa diferença, já de si esbatida com as novelas da Globo, a editora Companhia das Letras lança o novo livro de Fernanda Torres (´A Glória e seu cortejo de horrores´) e aproxima-a de nós. O get together dá-se no sexto andar do Hotel Ritz, quarto 633. Dois toques leves e Fernanda fala um ´já vou´ longínquo do lado de lá, antes de nos abrir a porta. Ainda descalça e com uma chávena de café na mão, convida-nos a entrar e solta outro ´já vou´. Fernanda vira à esquerda, para o quarto, e indica-nos o caminho em frente, o da sala. E que sala, com uma janela a toda a largura e de alto a baixo. Quando reaparece em cena, já de saltos altos, serve-nos um copo de água e cá vai disto.
E esta vista?
Aiiii, Lisboa. Geralmente, a vista é para o outro lado e aí vê-se o Castelo, a Graça. Incrível, né?
Conhece Lisboa?
Muuuito. Desde 1974.
Antes ou depois da revolução?
Três meses depois.
E então?
Era deprimidííííííssimo. Os meus pais tinham ganho um prémio de teatro e saíram pela primeira vez do Brasil. Foi uma viagem louca: em 45 dias, fizemos toda a Europa, com 20 cidades em Itália, mais Nova Iorque e a Disney. Nós acabámos exaustos, a precisar de um hospital. Uma das passagens foi Lisboa e ficámos horrorizados com a atmosfera carregada de 30 ou 40 anos de Salazar. O povo era carrancudo, nossa. Saímos correndo daqui, a jurar para nunca mais. Só mais tarde é que pude conhecer Lisboa como deve ser. A partir daí, tem sido amor e já fiz três filmes aqui, duas peças e este é o segundo livro que lanço em Lisboa. É, Lisboa é mágica.
Esse mais tarde é quando?
Só voltei a Lisboa no final da década 80 para filmar o Judeu, conhece?
Nem ideia.
É um filme brasileiro sobre um judeu, dramaturgo e diretor de um teatro de marionetas. Ele foi para o Brasil e lá a Inquisição mandou-o de volta para Lisboa, onde foi queimado. As filmagens foram em Óbidos e chamaram-me para rodar uma semana. Eu adorei a ideia e fui. Quando cheguei aqui, havia um problema financeiro com o filme.
Então?
Estávamos na era Collor, ou perto disso, e não liberaram o dinheiro. O elenco estava junto com a produção, sem pagar o hotel e a viver de favores. Virei-me para o produtor e disse-lhe 'como é que você me traz para cá no meio deste caos?' Esse filme, imagina, demorou sete anos a ser feito e o elenco foi morrendo. [Judeu só sai para o cinema em 1996]
E depois?
Voltei a Lisboa para fazer um filme do José Fonseca e Costa, ´A Mulher do Próximo´, e ainda o ´Terra Estrangeira´, do Walter Salles. Amo esse filme, foi um período incrível aqui em Portugal, estávamos em 1991, acho. Agora, venho cá uma vez por ano, de férias.
A gente?
A família, ahahahah. O ponto de partida é Lisboa. A partir daí, pulamos para o resto da Europa. O meu marido, o Andrucha, nâo sacava Lisboa e, há uns três anos, ficou aqui comigo uns 10 dias.
E que tal?
Ele só me dizia 'isto é maravilhoso'.
És reconhecida nas ruas de Lisboa?
Sou. Houve uma altura em que Portugal era uma extensão do Brasil por causa das novelas. Depois, com a entrada na União Europeia e tal, Portugal voltou-se para a Europa e agora é menos brasileiro que antes pela globalização, pela Netflix. Aliás, os meus filhos não vêem mais televisão.
Ah pois.
Sacou? Então, agora é mais difícil.
Eu lembro-me da Fernanda por causa de uma novela.
Selva de Pedra?
Baila Comigo?
Nossa, não fazia nada: entrava muda, saía calada. Deve ser o Selva de Pedra.
Aí falavas mais?
Ahahahah, muito mais. Aliás, há uma história engraçada. Ao mesmo tempo do ´Selva de Pedra´, entrei em filmagens pelo ´Terra Estrangeira´. Uma parte desse filme implicou uma viagem a Cabo Verde. Mal aterrei lá, o povo cabo-verdiano gritava Simone, Simone [Fernanda muda de voz e fala como se estivesse a pedir um autógrafo]. Simone era o nome da minha personagem no ´Selva de Pedra´. Fiquei tão espantada, sabe? A globalização antes da globalização.
Da Globo, ainda por cima.
Ahahahahah. Isso, a Globo se mandou para fora do Brasil e os países lusófonos acolhiam muito material do Brasil.
A primeira novela brasileira em Portugal foi a Gabriela.
Excelente, foi uma febre lá no Brasil.
Aqui também. No último episódio, o Parlamento fechou mais cedo.
Para assistir?
Ya.
Maravilha.
O Roque Santeiro?
Outro fenómeno. Tô certo ou tô errada? Ahahahahahah.
Certíssima. O Diário de Lisboa até fez manchete com o último episódio: ?ganham os maus, perdem os bons?.
Que coisa, hein?! As novelas tinham esse plus, o de mexer com as pessoas. Incrível.
Mas a Fernanda retirou-se cedo das novelas.
Agora sou mais conhecida pela sitcom ´Os Normais´.
Quando vem a Lisboa, já sabe onde ir?
Tudo, restaurantes, cafés, passeios a pé. Adoro o Príncipe Real, um lugar de todo o mundo. Adoro a Baixa, o Bairro Alto. Adoro caminhar até Belém. No outro dia, fui a pé até ao Museu do Azulejo, que está numa zona mais industrial. Amo a Graça. Na última vez que vim cá, conheci a Serra da Arrábida. Que lugar ma-ra-vi-lho-so. Por falar nisso, amo pegar num carro e ir até ao Cabo da Roca. É incrível, aquela rocha simboliza o fim da Europa continental. E, claro, um peixe em Cascais, os castelos em Sintra e o Norte, que é lindo. O único lugar por visitar é o Algarve. Um dia, vou de carro. Ahahahahah.
E nós, portugueses, adoramos o Brasil, o Rio de Janeiro.
A geografia do Rio é uma coisa inacreditável.
Sempre foi assim?
O homem tenta destruir, mas a natureza é mais forte, mais resistente. O Rio é aquele verde, aquele céu, cheio de morros.
O Rio é a cidade maravilhosa. Sempre foi assim?
O Rio decaiu muito, perdeu poder aquisitivo a partir do momento em que deixou de ser a capital [por troca com Brasília]. Além disso, na redemocratização, foi dominada pelo populismo corrupto. Basta ver que os últimos quatro governadores do Rio foram presos.
Dá que pensar.
Não é? Depois veio a falência da Petrobrás, que atingiu o Rio em cheio. E agora, nossa senhora, a cidade entrou numa depressão violenta depois dos Jogos Olímpicos.
Isso sente-se na rua?
Claro que sente. E já escrevi isso numa coluna de opinião. Estava na rua a ir para casa, ali na Lagoa, e é costume haver engarrafamento. Naquele dia, não havia isso. Nem no outro. Nem depois, depois, depois, depois. Não há mais engarrafamento. Isso é bom, pensei eu no imediato. Só que depois pensei melhor e a falta de trânsito é o sinónimo do recolhimento. As pessoas já não andam na rua, estão recolhidas. E os restaurantes estão a fechar. A depressão económica é visível, impressionante.
Económica e também social?
Todos os problemas desaguam na sociedade. O Brasil é um país muito desigual e essa desigualdade é cada vez mais profunda. Que acaba em violência. No caso do Rio, uma cidade muito democrática, no sentido em que todo o mundo está junto, ao contrário de São Paulo, por exemplo, em que há um Centrão bem separado da periferia, a gente sente a violência em todo o lado. O meu filho estuda na Rocinha e estourou uma guerra por lá.
Eisch.
É, agora o meu filho pergunta à polícia se pode ir à escola. 'Tá fogo, o Rio está a viver um período muito difícil.
Sabe quem vi na minha primeira vez no Rio: Arnaldo Jabor.
Ai não, sério?
Sério mesmo. Em Ipanema, à saída do Restaurante Devassa.
Isso é comum no Rio, ainda é um centro de artistas e muitos moram lá. Por exemplo, a Companhia das Letras [editora de Fernanda Torres] é paulista e abriu no Rio, onde a é a sede da Globo. No dia em que a Globo sair do Rio, nem sei o que acontecerá ao Rio. Mas é isso, os artistas moram lá e é costume tropeçar neles: Jabor, Chico, Caetano.
Jabor é o realizador
Do ?Eu Sei que Vou te Amar?. Depois, na crise do Collor, ele virou jornalista.
E que jornalista.
Maravilhoso mesmo.
Como foi filmar com o Jabor?
O Jabor era um ídolo na minha casa, os meus pais viviam a falar dele, do quanto o admiravam. Aliás, a mamãe entrou num filme dele chamado ´Tudo Bem´, bem melhor que o ´Eu Sei Vou Te Amar´. Então, um dia, ele chama-me para filmar com ele e foi uma experiência inesquecível. A convivência do quotidiano com o Jabor marcou-me para a vida.
E ganhou o prémio de melhor atriz no festival de Cannes.
Como estava a filmar a novela ´Selva de Pedra´, fui a Cannes para a exibição do filme mas falhei a premiação. Ahahah. Por um lado, é ruim Por outro, teve um sabor de Copa do Mundo.
Ahahahah.
Foi uma época bem cheia de projetos, com filmes atrás de filmes. Fiz quatro nessa época e rodava o mundo inteiro a promovê-los. Fui a muitos países, tanto aqui na Europa como EUA e Cuba.
A cultura brasileira sempre vendeu muito bem em todo o mundo.
Verdade, só que depois o Collor acabou com a Embrafilmes, uma empresa estatal criada pelo cinema novo. Numa penada, isso acabou e foi um choque para todos nós. Quer dizer, o rapaz em Paris dizia-me que não tinha mais um telefone para ligar, não havia contacto para falar com quem quer que seja. A Embrafilmes acabou de um dia para o outro e foi um período negro para a cultura brasileira. O Jabor, por exemplo, deprimiu e mudou de profissão. Eu vivi no exílio e o ´Terra Estrangeira´ fala sobre isso mesmo, sobre a crise na era Collor. Lembro-me bem que estava a filmar no México e ligaram-me do Brasil a dizer que tinham confiscado o dinheiro de todo o mundo. Falei com a produtora, que era inglesa, e ela reagiu como se fosse uma piada: ´Fernanda, dont worry, it doesnt exist.´
Não houve contestação ao Collor?
Claro, só que houve muitas pessoas que se mataram. Foi um período negro e não havia uma solução à vista. Quer dizer, o vice do Collor era o Itamar e as pessoas viam-no como um incapaz. Mas não, o Itamar devolveu alguma confiança, meteu o Fernando Henrique na pasta da economia e o Brasil começou a sair lá de baixo. Anos depois, viveu uma era de realizações.
E agora?
O Brasil é uma montanha russa de emoções e diria que agora vamos passar uns 20 anos maus, bem estranhos. Já vou ter 70 anos quando tudo passar, em princípio.
Mudo de assunto. Já contracenaste com a tua mãe, que tal?
Ser colega da mamãe é algo imbatível. Até fizemos uma peça juntas em que ela me arrancava a cabeça e eu comia-lhe o coração. Olha, é uma peça experimental que apresentámos no Centro Cultural de Belém e rodou a Europa mais Nova Iorque.
Bem sei, bem sei, vi no wikipedia.
[Fernanda abre os olhos e lembra-se de algo] Por falar no wikipedia, um dos capítulos do livro é sobre um caso do wikipedia. Li sobre o Augusto Boal, um dramaturgo brasileiro, inventor do teatro invisível, que fazia intervenções na rua para criar pensamento. E estava lá no wikipedia que o tal teatro invisível tinha ido trabalhar o teatro revolucionário para o interior do Brasil e um operário da fazenda tinha sido feito prisioneiro pelo proprietário. Então, os operários disseram aos atores para intervir, só que os atores argumentaram que eram só atores e não iam participar nessa aventura. Escrevi sobre isso e o Boal escreveu-me a dizer 'que repetir falsidades era demais'. Ai meu Deus, que vergonha, imagina? E saiu um capítulo inteiro com essa história.
Como é que surge essa vontade de escrever?
Durante 30 anos, tive um nervoso de ser atriz, sempre à espera de convites para entrar aqui ou ali. Como já te falei, a era Collor acabou com o cinema. Então, comecei a escrever. E, às tantas, fui ganhando mais gosto, mais gosto, mais gosto. E escrevi um roteiro, que demorou seis anos a acabar e serviu para o filme Redentor, realizado pelo meu irmão Cláudio. Mais tarde, o Domingos de Oliveira e eu fizemos ´A Casa dos Budas Ditosos´, um monólogo do livro do João Ubaldo Ribeiro. Aí, tive de decorar um livro inteiro e isso transmitiu-me outro mundo, outra bagagem. A partir daí, passei a receber convites para escrever. O Sérgio Mário Conti foi o primeiro a falar comigo e convidou-me a escrever textos longos na revista Piauí, tipo New Yorker. O primeiro texto foi sobre stage fright, medo de entrar em cena, e dei conta disso. O começar, o desenvolver, o concluir. Escrevi direitinho, bonitinho. Ahahahah. Depois, ainda fiz mais dois perfis e veio um convite da Veja Rio. Depois, um convite do Folha durante as eleições já-não-sei-quais. Aí, virei colunista do Folha e ela obriga-te a escrever, com tamanho, a desenvolvimento do raciocínio. Antes, nunca tinha pensado em escrever. Só que
Aconteceu.
É. Até porque os convites sucederam-se. O Fernando Meirelles, por exemplo, quis que escrevesse um conto sobre terceira idade e aí escrevi sobre os cinco minutos finais da vida de um velho. Falei, pôxa, dei conta, tenho jeito. O conto era para a Companhia das Letras e o contacto ficou feito. Propuseram-me algo maior e fiz o Fim, em 2013. Como a repercussão foi boa, muito boa, com um texto enorme na ´New Yorker´, aventurei-me a escrever mais este aqui, o ´Glória e seu cortejo de horrores´.
E mostras a alguém da família?
Ninguém, só aos editores da Companhia das Letras.
E tens um horário específico para trabalhar?
Foi difícil, isso. Estava a gravar na televisão, naquele ambiente de convívio contínuo, barulhento, e era um alívio à noite quando chegava a casa, botava o filho mais novo para dormir e escrevia das 10 à meia-noite.
Conseguias nessas duas horas?
É incrível como criamos hábitos, não é? Em 2017, dei um tempo na carreira de atriz e dediquei-me mais à escrita. Aí, escrevia de dia e sabe o que me aconteceu? Foi-me dando uma trava, porque tive de aprender a escrever de dia. Esperava que todo o mundo saísse de casa. Aliás, bastava que eles batessem com a porta para eu começar a escrever. Estava igual a Pavlov, ahahahah. É como dizia aquele autor, o Paul Beatty: ´Se eu escrever uma página por semana, fico satisfeito.´ Isso destressou-me porque, de repente, estava com tempo a mais. Ahahahahah.
À mão ou...?
Poxa vida, tem de ser no portátil. Já ninguém escreve à mão. Por falar nisso, fico sempre a pensar no Victor Hugo. Escrever os Miseráveis à mão? Pobre copy desk, ahahahah
Tanto no ´Fim´ como n'´A Glória e seu cortejo de horrores´ só se vêem personagens masculinos. Porquê?
Não sei, vou corrigir isso no futuro, ahahahah, ahahahahah. Não sei porque traio o meu género. Não sei porquê. Acho que é vontade de ser quem não sou, acho que é imaginar alguém na pele que não você e acho também que a crise do macho é mais interessante. É mais fácil encontrar a falha humana e o desengano no homem. Também é verdade que sou ácida a escrever e não me vejo a escrever sobre a mulher com essa liberdade, ahahahah.
O título
É da mamãe. é uma frase de sempre dela. Sempre.
A propósito de quê?
Por exemplo, a nomeação para melhor atriz nos Óscares [1999, ´Central do Brasil´, de Walter Salles]. A campanha de apresentação do filme em não-sei-quantas-cidades-dos-EUA foi, assim, e-xaus-ti-vo. Aquilo é uma batalha, uma invasão napoleónica. Antes dos Óscares, havia o Globo de Ouro, onde ela também estava nomeada. Então, a mamãe dizia 'a glória e o seu cortejo de horrores'.
Toda a glória tem um lado negro?
Lembro-me da minha mãe abduzida, completamente. Foi um trabalho extra, mais duro ainda que o próprio filme. Havia cenas inacreditáveis. De bom, claro. Como a minha mãe no David Letterman.
Uauuuuu.
Uauuuuu, mesmo. E ela conseguiu fazer uma piada em inglês.
Como foi crescer ao lado dos teus pais, pessoas do teatro?
Andava sempre de um lado para o outro, dentro dos teatros, de terça a domingo. Foi uma aprendizagem desde bem cedo.
Sempre ao lado do teu irmão?
O Cláudio foi muito importante para mim. Devemos todos passar por essa sorte, a de ter um irmão ao teu lado a toda a hora. É uma aventura fantástica.
Imagino as histórias.
Ainda há poucos dias, falava disso lá em casa. A mamãe diz que o Cláudio tinha 16, ele diz 20. Seja como for, a mamãe liberou um pedido louco dele.
Qual?
Fazer o trem da morte.
Sério?
O trem sai do Brasil e vai para a Bolívia. Durante dois meses, o Cláudio sumiu. Nada, nem um telefonema, nem uma carta. Outros tempos, claro. Ao fim de dois meses, o Cláudio ligou do Peru a pedir dinheiro para regressar ao Brasil. Ahahahahah, esse tipo de histórias, 'tá vendo? Era uma época muito especial, em que se podia viajar de carona. Hoje, você não consegue atravessar o Estado do Rio sem levar uma bala. Mas isso do trem da morte para dizer que os meus pais tiveram-nos aos 30-e-tal anos e foram corajosos na forma como encararam o gap geracional, que não era normal na altura como o é agora, ainda por cima à entrada para os loucos anos 70. Mais interessante ainda, havia uma liberdade total da parte deles em relação a nós. Quero dizer, nunca se criou uma expectativa aos olhos deles sobre mim ou sobre o Cláudio. Eles nunca sonharam nada para gente. Isso é impressionante, deixar o outro ir. Nós podíamos ser o que quiséssemos. E a verdade é que não fiz a universidade e comecei a trabalhar aos 17 anos, idade em que comecei a ganhar a minha autonomia.
E tu com os teus filhos?
Vejo muitas parecenças, até pelo historial da minha família. A mamãe veio de um Brasil arcaico e é filha de operários, por isso sempre a considerei operária. Eu não, sou burguesa. Sou nascida e criada no Rio, tal como os meus filhos. Há aspetos em que eu e eles somos parecidos e fazemos as mesmas coisas. O que não é de todo descabido porque vivemos uma época muito global: assistimos aos mesmos programas, vestimo-nos de forma. Seja aqui, no Brasil ou na China. Você vai a qualquer lugar e as lojas são sempre as mesmas.
Também é assim na música e no futebol, dois expoentes máximos da cultura brasileira?
Agora é curioso o que se passa com a música, pelo intercâmbio entre Portugal e Brasil. Já fui ver Carminho e Zambujo, é uma ponte musical fantástica. O Zambujo, inclusive, ouvi-o a cantar Chico com uma intensidade genuína. Depois há valores fenomenais, que nos fazem esquecer toda a crise política, económica e social do Brasil.
Como por exemplo?
Há uns meses, ouvi Marisa Monte com Paulinho e saí do concerto com a certeza de que o Brasil é grande, tem potencial e merece mais e melhor.
E tu, a cantar?
Não tenho dotes musicais, bem tento, mas não tive essa sorte. Ahahahah.
Cresceste a ouvir quem?
Jorge Bem, Chico, Caetano, Novos Baianos, Baby, Pepeu, Marisa Monte, todo o rock brasileiro, cheio de poetas maravilhosos.
E o futebol, fintaste essa pergunta.
Olha, não sou tão ligada. Mas sei de uma coisa.
Qual?
Vou sentir a falta da Itália na próxima Copa, os jogadores italianos são belíssimos.
in Observador, Fev 2018







































