Calciopédia
·1 avril 2026
Fora da Copa de novo: a Itália caiu nos pênaltis para a Bósnia e escancarou falhas de gestão

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·1 avril 2026

A Itália voltou a falhar quando a margem de erro era mínima – e, mais uma vez, não se tratou de um episódio isolado. A eliminação diante de Bósnia e Herzegovina, na final da repescagem europeia para a Copa do Mundo de 2026, não apenas confirmou a ausência no torneio pela terceira edição consecutiva, como também expôs, de forma definitiva, uma cadeia de decisões equivocadas que perpassam o comando da federação, a execução do planejamento esportivo e a própria formação da comissão técnica.
Em Zenica, o roteiro teve contornos conhecidos. A equipe de Gennaro Gattuso começou organizada, chegou ao gol e pareceu, ainda que sem brilho, controlar o cenário. Mas bastou um episódio adverso para que tudo desmoronasse – como já ocorrera contra Suécia e Macedônia do Norte. A fragilidade emocional de um time extremamente pressionado pelas falhas que se sucedem, sobretudo entre cartolas, voltou a cobrar seu preço.
O início não foi negativo. A Itália tentou escapar da pressão bósnia com bolas verticais, buscando Kean e Retegui, enquanto o adversário apostou na intensidade e no apoio de um público fanático, que não se limitou às tribunas do acanhado estádio Bilino Polje e lotou até as varandas de prédios vizinhos, acendendo sinalizadores e formando um verdadeiro paredão iluminado e esfumaçado. A partida foi disputada, com sinais claros de que o controle territorial não seria facilmente imposto por nenhum dos lados.
O gol italiano nasceu de um erro grotesco da defesa adversária, aos 15 minutos. O goleiro Vasilj entregou a bola a Barella, que serviu Kean para abrir o placar com precisão. Era um cenário ideal: vantagem no marcador e um adversário vulnerável. Mas, a partir dali, a equipe recuou – e esse movimento se revelou fatal.
Um grande gol e uma chance cristalina desperdiçada: a vaga na Copa, para o bem e para o mal, passou pelos pés de Kean (Getty)
Em vantagem, a Itália perdeu agressividade na primeira etapa. Passou a conceder campo, permitiu infiltrações pelas laterais e viu a Bósnia crescer gradualmente no jogo. Donnarumma já havia sido exigido por Dedic e Katic, enquanto a equipe demonstrava dificuldade em sustentar intensidade e organização sem a bola.
O ponto de ruptura veio ainda no primeiro tempo, aos 41. Após um chutão de Donnarumma, a Bósnia recuperou a bola e Mancini, fora de posição, deixou Bastoni vendido: o zagueiro da Inter cometeu falta clara em Memic na entrada da área e recebeu o cartão vermelho direto. A partir dali, o jogo mudou completamente de natureza. A Itália, que já vinha cedendo terreno, passou a sobreviver por mais de 80 minutos.
Com um a menos, Gattuso reorganizou a equipe em um 3-5-1, sacrificando Retegui para colocar Gatti – abriu mão da presença ofensiva e apostou na resistência. A proposta deixou de ser competir pelo controle e passou a ser resistir ao que viria a se mostrar inevitável. A Bósnia, em superioridade numérica, assumiu o comando absoluto das ações.
O segundo tempo foi um longo exercício de pressão bósnia. A Itália se fechou, protegeu a área e dependeu muito de Donnarumma, que acumulou intervenções decisivas, como sobre Alajbegovic e Tahirovic. A equipe perdeu saída, não conseguiu reter a bola e se limitou a tentativas esporádicas de contra-ataque, apesar da boa entrada de Palestra no lugar de Politano e do trabalho leonino de Tonali no centro do campo.
Ainda assim, houve um momento que poderia ter mudado tudo. Kean roubou uma bola e disparou em direção ao gol, mas, após longa condução, finalizou sem direção, por cima do gol. Era a chance de encerrar o confronto. Não aproveitada. Mais tarde, a Itália ainda perderia oportunidades com um arremate alto de Esposito e um peteleco de Dimarco, de ótima posição. Os erros cobrariam seu preço minutos depois.
Noite de pesadelo: a Itália jogou com um a menos por mais de 80 minutos, perdeu chances, pênaltis e ficou fora da Copa (Getty)
O empate nasceu de um cruzamento pela direita e da incapacidade italiana de sustentar a pressão por 90 minutos. Dzeko ganhou de Mancini no alto, Donnarumma fez um milagre e, no rebote, Tabakovic marcou. A partir dali, o desfecho pareceu inevitável: a Itália já não tinha energia para reagir.
Nos minutos finais e na prorrogação, o cenário se manteve. A Bósnia pressionou, criou, insistiu; a Itália resistiu como pôde. Donnarumma fez outro milagre, dessa vez ante Demirovic. Houve tentativas isoladas, bolas paradas, disputas físicas – mas nenhuma sensação real de que os azzurri poderiam marcar. Nem mesmo quando Muharemovic calçou Palestra na meia-lua e possibilitou a Tonali uma cobrança de falta perigosa, já no tempo extra, a chama da esperança se acendeu de forma definitiva. O jogo caminhou naturalmente para os pênaltis.
Nas cobranças, o colapso se completou. Esposito desperdiçou, Cristante acertou o travessão, e a Bósnia foi impecável, como no lado italiano, só Tonali foi capaz de sê-lo. Tahirovic, Tabakovic e Alajbegovic bateram bem e Bajraktarevic levou sorte na cobrança decisiva, que escapou entre as mãos de Donnarumma. A eliminação se consumou. Pela terceira vez consecutiva, a Itália ficou fora de uma Copa do Mundo. Um fato que, por si só, já não podia mais ser tratado como acidente.
O desfecho do jogo em Zenica, no entanto, foi apenas a superfície. O problema foi mais profundo e anterior. A escolha de Gattuso para conduzir a seleção, cercada de desconfiança, já revelava um ambiente sem direção clara. A própria reação do técnico após a eliminação – pedindo desculpas e classificando o golpe como difícil de digerir – indicou consciência do fracasso, mas não explicava sua origem. Rino, em que pese seu histórico vencedor como atleta e sua vergonha na cara, evidenciada pelas lágrimas que derramou e pelas escusas, não tinha capacidade para estar no cargo. Nem deveria ter sentado naquela cadeira.
O capitão Donnarumma estreou pela Itália aos 17 anos e, uma década depois, já careca, nunca atuou num Mundial pelos azzurri (Getty)
Mais emblemática foi a postura de Gabriele Gravina, o grande responsável pelo fracasso. O homem que escolheu Gattuso, alçando-o de uma carreira errática como técnico, com direito à passagem direta do Hajduk Split, que briga por vaga na Liga Europa no Campeonato Croata, ao posto de comandante da seleção. O homem que defendeu a continuidade do treinador e fez elogios ao seu trabalho.
Gravina também é o homem que estava à frente da FIGC, a Federação Italiana de Futebol, quando os azzurri perderam para a Macedônia do Norte. Quando foram humilhados pela Suíça na Euro 2024. O mesmo que insistiu em Luciano Spalletti após um trabalho decepcionante e que produzira um ambiente desgastado com o elenco. Ainda assim, ele decidiu mantê-lo por mais tempo do que o razoável, prolongando um ciclo que já dava sinais claros de esgotamento.
Nesse intervalo, havia uma alternativa concreta no mercado: Carlo Ancelotti, ainda compromissado com o Real Madrid, mas que – já se sabia mundo afora, conversava com a CBF. Um treinador italiano. De elite, experiente, vencedor e, sobretudo, capaz de reorganizar um ambiente instável. A Itália, no entanto, sequer tentou procurá-lo, como fizera em 2018, após a primeira das três quedas seguidas em Eliminatórias para a Copa do Mundo. Meses depois da queda na Euro, Carletto assumiu a seleção brasileira. A oportunidade desapareceu não por falta de disponibilidade inicial, mas por falta de ação. O treinador emiliano não foi abordado mesmo que fosse para dizer “não”.
Afinal de contas, falamos de Gravina. O pequeníssimo homem que se agarra ao título europeu de 2020, cujos méritos vão para Roberto Mancini e seus atletas, para se recusar a deixar o cargo. Sim, o dirigente novamente não se demitiu. Não teve hombridade para isso nem mesmo após o terceiro vexame consecutivo de sua gestão. O cartola apuliano, na presidência da FIGC desde 2018, condicionou a eventual decisão sobre sua permanência ao conselho federal da entidade – por muito menos, o técnico Cesare Prandelli e Giancarlo Abete, manda chuva à época, pediram o boné após a queda na fase de grupos da Copa de 2014. Com sua postura irredutível e desrespeitosa com os amantes do futebol italiano, o engravatado reforçou a sensação de inércia institucional que paira sobre a Itália em tantos âmbitos e há tanto tempo. É um país acostumado a absorver os seus erros e a prolongá-los.
A Itália, mais uma vez, está imersa numa sequência lógica de erros – que pouco têm a ver com bola e campo. Seus cartolas insistiram em um projeto desgastado, fizeram uma substituição mal planejada (já não havia mais técnicos no mercado e a situação nas eliminatórias, com a Noruega disparada no Grupo I, era praticamente irreversível) e confirmaram a ausência de visão estratégica que atravessa a modalidade. A eliminação para a Bósnia foi apenas o capítulo mais recente de uma crise que já se arrastava há anos.
Incompetente e apegado ao cargo: Gravina, ao centro, é o pior tipo de dirigente que a Itália poderia ter (Getty)
Não se trata de falta de talento. A boa geração está aí – subaproveitada e castigada pela dificuldade de lidar com o peso dos erros de quem sequer chutou uma bola na vida. É verdade que existem problemas de formação de jovens e de sua transição dos juvenis ao profissional e que a federação, conduzida por Gravina, pouco fez para alterar um quadro que não é positivo para o futuro da Nazionale. Por outro lado, não há dúvidas de que, no papel, a Itália tem um elenco suficientemente capaz de se classificar para um Mundial sem problemas.
Entretanto, os pilares dessa geração, alguns remanescentes do título europeu de 2021, jamais jogaram uma Copa. Muitas dessas peças já beiram os 30 anos de idade. A ausência de um projeto técnico sólido e a enorme pressão externa (que só crescerá de agora em diante) vêm derrubando diuturnamente a confiança de atletas que estão entre os melhores da Europa em suas posições. O temor na fisionomia dos jogadores azzurri, partida após partida, é cristalino.
O grande problema da Itália neste ciclo – em especial – esteve na condução. Na incapacidade de tomar decisões no tempo certo. Na dificuldade de reconhecer erros e corrigi-los com rapidez. Na complacência generalizada com os incompetentes engravatados.
A Itália não perdeu apenas um jogo. Não perdeu “só” uma vaga na Copa do Mundo pela terceira vez seguida. Perdeu, novamente, o timing. E, agora, com uma tensão nunca antes vista na história da seleção, será difícil deixar de lado a passionalidade na hora de tomar decisões para entrar nos eixos. O medo e a raiva não costumam ser bons conselheiros. Os italianos precisarão esfriar o seu sangue, algo raro, para não cometerem erros que aprofundarão o caos no pesadelo futebolístico que têm vivido.









































