Manuel José: «Marquei um golo ao Damas quase do meio-campo num Benfica-Sporting em juniores» | OneFootball

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·14 juillet 2026

Manuel José: «Marquei um golo ao Damas quase do meio-campo num Benfica-Sporting em juniores»

Image de l'article :Manuel José: «Marquei um golo ao Damas quase do meio-campo num Benfica-Sporting em juniores»

Manuel José dispensa apresentações. É um homem com uma obra tão vasta, tão vasta, tão vasta que a sua lista de títulos ultrapassa as duas dezenas. Mas quantos ao certo? Ah pois é... Com que então, Manuel José dispensa apresentações? Onde é que julga que vai com essa atitude? Nã, nã, nã, Manuel José tem de ser apresentado. Porque não estamos a falar de Manuel José, estamos isso sim a escrever sobre O Manuel José. O jogador campeão da 1ª divisão. O treinador das quatro Ligas dos Campeões. O homem do Cairo. Pelo meio, um trajeto de loucos entre jogos e mais jogos, títulos e mais títulos, confusões e mais confusões, a última das quais no Mali. O i liga-lhe para saber se já está recomposto do susto. Porque de resto dispensa apresentações, verdade?

Bom dia, Manuel José. Há quanto tempo...


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Boa tarde, Rui. Você nem imagina a loucura aqui no Egipto.

Então?

Não dá para manter o mesmo número porque há sucessivas fugas de informação. No último ano e meio, troquei seis vezes de número. Não dá, não dá. Eles aqui são...

Loucos?

Dedicados [gargalhadas], extremamente dedicados. Isto já tem história. No verão de 2008, por exemplo, lembro-me que se falou da minha eventual saída do Al Ahly. Sabe o que aconteceu?

Nem ideia.

Os adeptos criaram um blogue para evitar a minha saída. Alguém que escreveu o meu telefone e, pronto, metade do Egipto já sabia o meu número. A brincadeira só acabou quando troquei de telemóvel. Nem imagina a quantidade de chamadas que recebia. De 15 em 15 minutos, lá atendia uma pessoa qualquer. Até no hotel onde vivo [o Marriott, curiosamente no bairro Zamalek e na torre Zamalek, nome do maior inimigo do Ahly], tive de pedir aos funcionários para não passarem mais chamadas para o quarto.

E agora mais do mesmo.

Agora, antes, depois. Isto é incrível. Às vezes, fico a pensar para mim mesmo o que é isto que se passa aqui no Egipto? Esta adoração toda. É que não são só os adeptos do Al Ahly. Os outros também me chamam na rua, também querem trocar umas palavras comigo, também querem tocar-me e tirar fotografias. ... Às vezes, pareço que estou no jardim zoológico. Sabe quando nós vamos ver os animais e apontamos olhò leão, olhò tigre, olhò aquele, aqueloutro. Nas ruas, é a mesma coisa, olhò José e lá vou eu falar com eles. Não que me dê trabalho, mas eles são uns quantos milhões.

Então deve estar mais à vontade nos jogos fora.

Qual quê?! Isto não é só no Cairo. A devoção deles pelo futebol é uma coisa extraordinária, e aprendi isso muito cedo. Em 2002, na minha primeira passagem pelo Al Ahly, ganhámos 6-1 ao Zamalek. É um dérbi como o Benfica-Sporting mas potencializado sei lá eu quantas vezes. O treinador do Zamalek, um alemão qualquer, foi demitido no dia seguinte. Num outro Ahly-Zamalek, o Flávio, um fantástico avançado nosso, de origem angolana, aquele que esteve no Mundial-2006 e marcou ao Irão de cabeça, sabe?

Sim, agora sim.

Esse Flávio falhou um penálti num dérbi que ganhámos por três ou quatro. Sabe o que lhe aconteceu? Alguns adeptos do Al Ahly vaiaram-no nos jogos seguintes. Às vezes, nos treinos. É a loucura.

Dizia-me que não podia andar à vontade no Egipto.

Acredite, Rui, não dá. Tentei ir duas vezes à biblioteca de Alexandria e qual quê?! Em ambas as vezes, fugi a sete pés e numa delas até me escondi num café. Isso comparado com o que vive agora não é nada.

Ah claro, sem dúvida.

Os últimos meses foram demasiado intensos.

No Mali, por exemplo.

Sim, sim. Fomos lá jogar para a Liga dos Campeões. Perdemos um-zero com um golo nos descontos e não voltámos para casa nesse dia porque Bamako [capital do Mali] foi varrida por uma tempestade de areia. Como tal, fecharam o aeroporto, o que impediu que o nosso avião proveniente da Tunísia pudesse aterrar.

E?

E fomos obrigámos a pernoitar em Bamako. Nessa madrugada, um contragolpe de Estado militar varreu a cidade. Como resultado, tivemos de ficar no hotel.

Quanto tempo?

Cinco dias.

Cinco?

Estivemos cinco dias fechados no hotel com outra equipa de futebol, o Sunshine Stars da Nigéria.

Como é que se passam cinco dias no meio de um contragolpe de Estado?

Nada fácil, e muito assustador. Os revoltosos entraram no hotel de metralhadora em punho e isso assusta qualquer um. Além disso, ao segundo dia já não havia comida no hotel.

Como resolveram isso?

A sorte é que de dia a vida parecia correr normalmente e à noite só se ouviam disparos de metralhadoras e canhões. Portanto, de dia, o cozinheiro do Al Ahly ia ao mercado, comprava uns alimentos e fazia almoços e jantares.

E os treinos?

Na piscina, uns dentro de água, outro fora, mas o medo estava sempre presente. Até porque ninguém sabia muito bem o que ia acontecer. Nós saímos de lá ao quinto dia. Anteontem, pelo que soube, a tal equipa nigeriana continua por lá.

Xiiii

Pois é. E nós saímos ao quinto dia, num avião militar, com aqueles bancos de lona, está a ver? Uma viagem de 15 horas naquela situação... Nós, a equipa do Al Ahly, mais umas famílias egípcias.

O que interessa é que está a salvo. Tal como no Masry-Al Ahly.

Foi outra história. Isto tem sido um corropio que nem lhe conto. A minha vida já não dá um livro. Tem de ser um filme [gargalhadas tímidas]. Nesse Masry-Al Ahly, aquilo foi organizado. Foi uma manobra política. Eles tinham um dístico em inglês, com letras garrafais, onde se lia ´hoje vocês vão morrer todos aqui´. Aquela mensagem não era para mim nem para a minha equipa técnica, era para a imprensa internacional ver. Invadiram o campo cinco vezes, o jogo devia ter sido suspenso ao intervalo e não foi. Estávamos a viver um clima horrível perante centenas de polícias que não mexeram um dedo! Terrivelmente triste. A partir daí, acabou-se o futebol no Egipto.

Nem para a Liga dos Campeões?

Na segunda-feira, jogamos a segunda mão com a tal equipa que nos venceu no Mali mas o estádio estará vazio porque a polícia não se responsabiliza pelos atos de vandalismo durante o jogo. É um jogo da CAF (Confederação Africana de Futebol). Aqui no Egipto ninguém quer jogar. Nem campeonato, nem Taça nem Supertaça. O futebol está parado e assim vai continuar. Por isso, tenho este jogo de segunda-feira, mais um particular em Barcelona com o Espanyol no dia 18 de maio e depois tomarei obrigatoriamente uma decisão sobre o meu futuro.

Uma decisão? Mas e o Al Ahly?

Eles contam comigo mas nestas situações...

Sente a paixão dos egípcios por si?

Isso nem se fala mas não é isso que me agarra aqui. O Cairo é uma loucura. Os egípcios sabem falar ao coração como ninguém. Julgava que os brasileiros eram os que trabalhavam melhor nesse campo mas enganei-me. Os árabes dão 10-0 aos brasileiros. Quando estamos em baixo, o melhor que temos a fazer é ouvi-los. Até pode ser mentira, mas isso não vem ao caso. Eles mentem muito, porque são orgulhosos. Não conseguem dizer ´não sei!´ São palavras muito complicadas. E ouvi-los a discutir? Isso é um tratado! A entoação alta misturada com aquela voz arranhada que todos têm? É bonito de se ver, mas nem me aproximo.

São ordeiros?

Muito. Há exceções, claro.

Tais como?

No trânsito, por exemplo. Se me virem na estrada, encurralam-me, a entoar o meu nome, e só saio dali uns 30 minutos depois. E tentar atravessar?

Que é que tem?

É uma das atividades mais perigosas. Uma vez, um canal televisivo convidou-me para ir a um programa e lá fui. Cheguei dez minutos antes da hora, ao outro lado da rua. Acredita que estive dez minutos sem conseguir passar para o lado de lá? A televisão telefonou-me e justifiquei-me. Passados uns minutos, chegou um polícia sinaleiro, requisitado pelo canal, que mandou parar os carros e, enfim, pude entrar no edifício e ser entrevistado. Já estive em muitos sítios do mundo e isto é incrível. E a condução? Aqui, conduz-se como em Portugal nos anos 60: ninguém liga a ninguém, não há respeito.

Já se imaginou sem futebol?

A culpa disto tudo é do meu irmão. Ele é que me convenceu a ser treinador. Eu queria lá ser treinador. Jogava futebol e estava bom.

Jogava a quê?

Extremo-esquerdo, juniores do Benfica.

A sério?

A sério, ahahahah. Já tinha marcado um golo quase do meio-campo do Damas num Benfica-Sporting em juniores e estava feliz da vida. Depois, subi a sénior e fui campeão pelo Benfica, com um jogo apenas.

Ai sim?

Com a Académica, em Dezembro 1968. Ganhámos 3-2 na Luz. Entrei na segunda parte, não me lembro se para o lugar do Eusébio ou do Simões, mas não joguei um caracol. Tanto assim é que o Otto Glória nunca mais me convocou. Quem nos salvou nessa tarde foi o Praia, que correu, pulou, rematou e, se não me engano, marcou dois golos, os da reviravolta.

Iniciou-se como treinador no Espinho, não foi?

Sim, e mais uma vez a culpa é do irmão. Telefonei-lhe a dizer que o presidente do Espinho queria-me como treinador e ele convenceu-me a aceitar. A negociação teve até piada.

Conte lá.

O presidente Carlos Cabral disse-me que eu ia ganhar o ordenado de jogador mais 4.500 escudos. Devo ter sido o treinador mais mal pago da 2ª divisão. De sempre [gargalhadas sonoras].

Em que época foi?

Como jogador-treinador, em 1978/79.

Jogava um tal Jaime Pacheco.

E marcou um golo. Lembra-se disso?

Eu, golo? Não me lembro.

Tenho aqui a crónica à minha frente. Um golo de livre direto. Era a sua especialidade?

Gostava de os marcar, sim. E tenho uma história curiosa. à 10ª, 11ª jornada [11ª], jogámos com o Riopele e estávamos em antepenúltimo lugar. O Riopele não jogou com um autocarro, mas com uns nove ou dez. Não havia maneira de a bola entrar. A dez minutos do fim, mais coisa menos coisa, há um livre à entrada da área. Eu ajeito a bola e digo para o companheiro do lado, ´ò Reis, se esta não entrar, prepara-te que o lugar de treinador é teu.´ Vou abdicar disto. Mas isto é como dizem os chineses. O talento e a sorte quando se encontram com a oportunidade.

Foi o que aconteceu?

Golo, um-zero. Bola ao meio, eles foram lá à frente e 2-0 para o Espinho. A partir daí, nunca mais perdemos. Foram 17 jogos invicto e subimos à 1ª divisão como campeões da Zona Norte.

Perguntei-lhe se era especialista em livres porque sei que jogou com o Eusébio no Beira-Mar. Aí como é que era?

Eu era especialista em livres, o Eusébio é O especialista. Jamais entrar em conflito com ele. Tenho uma boa história com ele, na Venezuela. Fomos jogar um torneio e calhou-nos defrontar o Alianza Lima, com jogadores da seleção do Peru no Mundial-78. Entrámos no campo e reparei que as barras da baliza estavam mais baixas que o costume. Fui medi-las e conseguia tocar na trave sem sequer saltar.

Ninguém colocou balizas novas?

Qual quê?! Jogámos assim e há um livre para nós. Eu quero marcar mas o Eusébio já se sabe como é, naquele estilo ´eu marco, eu marco, eu marco´. Não era eu marco o livre, era eu marco o golo. Bastava-lhe a bola passar por cima da barreira e era golo. Nesse dia, a bola passou por cima da barreira e ele saiu a correr campo fora a festejar. Eu também, mas a olhar para trás. Foi aí que vi a bola bater na barra e ressaltar para as mãos do guarda-redes do Alianza. Avisei o Eusébio e ele muito incrédulo ´mas como não foi golo?´´

Porque as medidas das balizas não estavam bem

Exato, ahahahah, o Eusébio era um portento. Mesmo no Beira-Mar quando já estava menos rápido, era um fenómeno. Como jogador e pessoa. Um fe-nó-me-no. Vi-o marcar um golo ao Sporting a 30 metros, meu Deus. Vi outro golo dele, ao Vitória de Setúbal, no Bonfim, num livre a 30 metros, debaixo de uma chuva torrencial. Perdemos 5-3 mas aquele golo continua na minha memória.

Por falar em memória, o que sente quando se fala do Boavista?

Tremo. É uma emoção enorme. Agora não me peça é para visitar o Bessa ou passar lá perto. Não consigo. Dava-me cá uma choradeira. E olhe que não sou de chorar. Mas vê-lo assim. Sabe que saí do Boavista porque quis uma equipa para ganhar o campeonato e o Major Valentim Loureiro não queria. Naquele braço-de-ferro, eu saí. E ele tinha razão. Veja lá para onde foi o Boavista depois de ser campeão nacional...

O Boavistão do Manuel José era cá uma equipa.

Pffff, os recursos eram fantásticos. Não me lembro de nenhuma outra equipa ter ganho tanto aos grandes como nós. Nem o SC Braga de hoje, nem o Vitória de Guimarães de ontem ou o Belenenses de anteontem. Ganhámos vezes e vezes aos grandes.

Importante claro, mas nunca mais me esqueço do 1-0 na Luz, com um golo do Casaca, na primeira jornada do campeonato, e depois de eliminarmos o Inter, então detentor da Taça UEFA.

O Boavista era a equipa das camisolas esquisitas.

Não sei quem o disse, talvez o guarda-redes Zenga, mas aquilo ficou conhecido mundialmente. Cá, ganhámos 2-1 e podia ter sido quatro ou cinco. Lá, fizemos uma exibição de alto nível e 0-0. Com umas artimanhas pelo meio. Mas agora não dá tempo.

Só uma artimanha então.

Bem, em Milão, havia uma sala de aquecimento para as equipas. Antes do jogo, o Facchetti, então diretor-desportivo e depois presidente, disse-me que a sala estava à nossa disposição. Respondi-lhe que queria ir para o relvado. Ele ficou espantado e contra-atacou a dizer que ia fazer queixa ao árbitro. ´Podes fazer o que quiseres, eu vou para o relvado´. Para quê?

Sim, para quê?

Para levar com os assobios no aquecimento, e não no início do jogo. Foi o que aconteceu. Fomo-nos aquecer no relvado e ouvimos de tudo. Quando entrámos em San Siro, devidamente equipados, já fomos mais relaxados.

E a outra artimanha?

Só mais esta. Ao intervalo, 0-0. Soubemos que o presidente deles [Massimo Moratti] tinha ido ao balneário do árbitro, um inglês qualquer. Bem, disse aos meus jogadores para defender longe da área, sem tackles nem nada. Dito e feito. O Inter não nos importunou por aí além e passámos a jogar 3-4-3 em Milão.

3-4-3?

Sim senhor. Lá na frente, dois baixinhos rápidos, Coelho e Marlon Brandão, e um génio, João Pinto. No banco, Ricky.

Obrigado Manuel José.

Abraço Rui.

in jornal i, Maio 2012

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