Central do Timão
·3 avril 2026
Pedido à Comissão de Ética cita quebra de decoro, fake news e uso político de cargo no Corinthians

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Um grupo de 54 conselheiros do Corinthians, em sua maioria integrantes do quadro de vitalícios, protocolou na última quarta-feira (1º) uma representação formal junto à Comissão de Ética e Disciplina do Conselho Deliberativo do clube. O documento pede a instauração de procedimento disciplinar contra o conselheiro trienal Peterson Ruan Aiello do Couto Ramos, a quem atribuem condutas consideradas incompatíveis com o estatuto alvinegro.
A iniciativa, liderada pelo conselheiro vitalício Jacinto Antônio Ribeiro, mais conhecido como Jaça, baseia-se em alegações de infrações ético-disciplinares que, segundo os signatários, incluem abuso de direito, desvio de finalidade no exercício do cargo e tentativa de desestabilização institucional, além de manifestações públicas que teriam atingido a honra de outros conselheiros e do próprio colegiado.

Foto: José Manoel Idalgo/Agência Corinthians
Declarações em entrevista são alvo de questionamento
Entre os principais pontos destacados na representação está a participação de Peterson em uma transmissão ao vivo realizada no dia 24 de março, no canal “Décimo 14”, no YouTube. De acordo com o documento, durante a entrevista, o conselheiro teria feito declarações consideradas ofensivas ao comentar a atuação dos vitalícios.
“O requerido, ao externar posicionamento contrário à existência de conselheiros vitalícios no Sport Club Corinthians Paulista, afirmou que, no momento em que pautas de interesse destes são submetidas à votação, eles compareceriam ao clube ‘com balão de oxigênio, cadeira de rodas, muleta, em fase terminal, apenas para votar‘“, diz trecho do requerimento ao qual a Central do Timão teve acesso.
Os autores da representação classificam a fala como de teor “capacitista e etarista” e argumentam que ela desrespeita não apenas membros do Conselho Deliberativo, mas também pessoas em condição de deficiência e idosos de forma geral. O texto sustenta que tal conduta contraria princípios de urbanidade e respeito previstos no estatuto do clube, além de mencionar possível afronta a legislações como o Estatuto do Idoso e o Estatuto da Pessoa com Deficiência.
Ainda no mesmo contexto, os conselheiros apontam que o requerido teria divulgado informações consideradas inverídicas ao tratar da composição de grupos internos do Conselho, especialmente ao mencionar o número de integrantes da chapa “União dos Vitalícios”. Segundo a representação, a afirmação teria criado uma narrativa distorcida sobre o equilíbrio de forças dentro do colegiado.
Outro trecho da entrevista também é citado no documento, no qual o conselheiro trienal teria atribuído ao conselheiro vitalício Rubens Gomes, também signatário do pedido, uma conduta que os autores da representação interpretam como ofensiva à honra, ao sugerir comportamento irregular durante uma discussão ocorrida no âmbito do Conselho.
Questionamento sobre legitimidade de conselheiros vitalícios
A representação também aborda um requerimento previamente protocolado pelo conselheiro junto à presidência do Conselho Deliberativo, no qual ele solicita a comprovação documental da legitimidade dos conselheiros vitalícios, incluindo registros históricos de suas eleições.
No requerimento, Peterson sustenta que a previsão estatutária de conselheiros vitalícios com mandato por prazo indeterminado, sem submissão a eleições periódicas, seria incompatível com os princípios que regem as associações civis, especialmente no que se refere à alternância de poder, à isonomia entre os associados e à limitação temporal dos mandatos.
Para os autores do novo pedido, a iniciativa ultrapassa os limites do exercício regular das prerrogativas do cargo e configura tentativa de desqualificação coletiva dos membros vitalícios. O texto ressalta que esses conselheiros foram investidos por meio de processos formais, com aprovação em instâncias internas e na Assembleia Geral do clube.
Os signatários também sustentam que a divulgação pública desse requerimento antes mesmo de análise de admissibilidade teria agravado o impacto institucional da medida, ao expor questionamentos sobre a legitimidade do colegiado à opinião pública.
Alegação de uso político do cargo
O documento afirma ainda que a atuação do conselheiro teria assumido caráter de autopromoção política, com uso da visibilidade institucional para construção de narrativa pública crítica ao funcionamento do Conselho Deliberativo.
Segundo os conselheiros, expressões utilizadas pelo requerido indicam uma estratégia de comunicação voltada à polarização e à deslegitimação de seus pares, o que, na avaliação do grupo, contribui para o aumento de tensões internas e externas.
“Ao empregar expressões como ‘poder quase absoluto’ e ‘bloqueadores de temas’, o requerido constrói deliberadamente uma narrativa de cunho populista, fundada na lógica dicotômica do ‘nós contra eles’, com o nítido propósito de deslegitimar publicamente membros do Conselho Deliberativo. Tal conduta atinge cidadãos de ilibada reputação, que há décadas prestam relevantes serviços ao Sport Club Corinthians Paulista, com o evidente intuito de angariar capital político e ampliar sua exposição midiática à custa da honra de seus próprios pares“, diz outro trecho do requerimento protocolado pelos conselheiros.
A representação menciona, inclusive, relatos de ataques verbais a conselheiros em redes sociais e em ambientes públicos, os quais teriam motivado registros de ocorrências e apurações em âmbito policial. Para os signatários, isso reforça o potencial de impacto das declarações na estabilidade institucional do clube.
Pedido de apuração e possível sanção
Com base nos argumentos apresentados, os 54 conselheiros requerem o recebimento da representação pela Comissão de Ética e Disciplina, com a consequente instauração de procedimento para apuração dos fatos.
O grupo também solicita a aplicação de eventual sanção disciplinar, caso sejam confirmadas as infrações apontadas, com fundamento no artigo 89 do estatuto do clube, que prevê a competência da comissão para conduzir processos dessa natureza.
O documento conclui destacando a necessidade de preservação da integridade institucional do Conselho Deliberativo, considerado um dos principais órgãos de governança do Corinthians.
Procurado pela Central do Timão, o conselheiro Peterson Ruan afirmou que não teve acesso prévio ao teor da representação, mas contestou as críticas e reiterou seu posicionamento em relação aos conselheiros vitalícios. Em nota, ele afirmou que mantém suas críticas direcionadas às funções, e não às pessoas, e ressaltou que a vitaliciedade é um dos fatores que contribuíram para problemas financeiros, éticos e políticos no clube. Classificou ainda o sistema como prejudicial e voltou a defender mudanças na governança, com mais transparência, renovação e maior participação dos associados.
“Mantenho minha posição. Todas as críticas que faço aos cargos de conselheiros vitalícios dirigem-se às funções, e não às pessoas. É fundamental estabelecer essa distinção. Ainda assim, a vitaliciedade configura-se como um dos fatores que contribuíram para que o clube atingisse uma situação crítica sob os aspectos financeiro, ético e político.
Os acontecimentos observados nas duas últimas reuniões do conselho evidenciam, de forma inequívoca, a correção dessa posição. O Corinthians não pode ser administrado por indivíduos que não se submetem ao crivo do quadro associativo e, sobretudo, de sua torcida.
É imprescindível que o Corinthians se abra a um novo modelo de governança, pautado pela modernidade, pela profissionalização e pela qualificação técnica daqueles que ocupam cargos de gestão. Não é mais admissível a manutenção de práticas como o “toma lá, dá cá”, incompatíveis com os padrões de gestão exigidos no século XXI. Nesse contexto, a extinção da vitaliciedade, o combate ao nepotismo, a ampliação do direito de voto ao Fiel Torcedor e a promoção da transparência constituem medidas essenciais para o avanço institucional.
Observa-se, no cenário atual do Corinthians, a ausência de alternância de poder e, sobretudo, o distanciamento em relação à percepção de milhões de torcedores, que se mostram indignados com os rumos do clube e não se sentem devidamente representados. Tal sentimento se intensifica em relação aos conselheiros vitalícios, que não se submetem a processos eleitorais e cuja permanência decorre de indicações realizadas há muitos anos. A ausência de renovação por meio do voto tende a afastar o ocupante do cargo de sua finalidade primordial: zelar pelos interesses do sócio, da torcida e do próprio Corinthians.
Reitero, portanto, minha defesa pelo fim da vitaliciedade, convicto de que o Corinthians deve estar acima de quaisquer interesses individuais, sempre orientado pelo interesse coletivo e institucional.“
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