Portal dos Dragões
·29 juin 2026
Um golo que nunca foi só um golo: depois da dor da perda dos pais, Stephen Eustáquio tornou-se herói do Canadá

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Quando a bola saiu do pé direito de Stephen Eustáquio, já para lá dos 90 minutos, o Canadá alcançou pela primeira vez, na sua história, os oitavos de final de um Mundial. Mas esse remate forte e certeiro valia bem mais do que a passagem de uma equipa à fase seguinte. Parecia trazer consigo dois anos de sofrimento, silêncio e uma batalha travada longe dos relvados.
Essa realidade ficou evidente no fim do jogo, quando, ainda a recuperar o fôlego, Eustáquio não se limitou a falar de futebol. “Tudo o que faço é pela minha família, pelos meus pais, pela minha namorada, pela minha filha. Pelos meus amigos lá em casa. Por toda a gente”, disse, ainda no relvado, depois de ter sido eleito o melhor em campo. Era impossível não perceber que aquele golo tinha destinatários muito concretos.
Entre abril de 2023 e maio de 2024, enquanto vestia a camisola do FC Porto, Stephen Eustáquio perdeu a mãe e o pai. Duas perdas esmagadoras, demasiado próximas uma da outra. Durante meses, continuou a jogar quase em piloto automático. “Nem tive tempo de chorar a minha mãe”, confessou num documentário do canal canadiano TSN. O futebol não abrandava, os jogos sucediam-se e o luto era continuamente adiado. Mais tarde, recordaria ainda que, quando a mãe foi diagnosticada com cancro, chegou a questionar o sentido de continuar a jogar futebol, precisamente numa altura em que sentia que devia estar ao lado dela.
Filho de emigrantes portugueses, Stephen nasceu em Leamington, Ontário, no Canadá, mas cresceu em Portugal a partir dos 7 anos, depois de a família regressar à Nazaré. É nesse espaço de transição, entre países, línguas e identidades, que se foi formando o jogador e a pessoa.
No documentário dedicado ao médio canadiano, repete-se uma imagem da vida familiar como base do seu percurso. Esmeralda e Armando Eustáquio aparecem como pilares discretos: ela, na logística do dia a dia, nos treinos, nas esperas dentro do carro; ele, no trabalho no mar, na noção de esforço como condição permanente. Nesse contexto, o futebol nunca foi um projeto individual, mas sempre uma construção partilhada. Também o irmão mais velho, Mauro, percorreu esse caminho, primeiro como jogador e depois como treinador no Canadá.
“Era a minha mãe que estava sempre a assistir aos jogos, a levar-me aos treinos, a mim e ao meu irmão. Ela apoiava-me imenso. Não percebia de futebol, mas estava sempre presente. Muito apaixonada. Muito compreensiva. Muito solidária. E simplesmente… uma verdadeira amiga. Acho que a minha mãe nem sequer fazia uma refeição em casa. Era sempre: ‘Pronto, vamos viajar para aqui, vamos viajar para ali'”, revelou o capitão da seleção canadiana.
Em Portugal, Eustáquio fez o percurso típico de quem não entra pela porta principal. Passou pela formação, incluindo uma passagem pelo Sporting, e depois pelo futebol sénior, onde nada é garantido: Leixões, Torreense, Desportivo de Chaves. Foi em Chaves que começou a impor-se de forma mais consistente, ganhando visibilidade e maturidade competitiva.
Em 2018, assinou pelo Cruz Azul, do México, e chegou às seleções jovens de Portugal, tendo representado os sub-21, mas a seleção principal nunca se concretizou. Ao serviço dos “Los cementeros”, realizou apenas dois jogos: no segundo, uma rotura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo travou-lhe a carreira. Foi uma paragem forçada num momento em que tudo apontava para aceleração. O impacto foi profundo, não apenas físico, mas também existencial.
A recuperação foi longa, lenta e cheia de dúvidas. Eustáquio contou que, nessa altura, sentiu que a carreira podia ter terminado ali mesmo, naquele relvado, naquele instante. O joelho não respondia, o corpo parecia ter envelhecido de repente e a cabeça lutava contra a ideia de que o futebol podia não lhe devolver o que lhe tinha tirado. Acabou por regressar ao campeonato português, primeiro ao Paços de Ferreira, antes de dar o salto para o FC Porto.
Depois dos oito meses de recuperação, Stephen deparou-se com uma decisão importante. “Recebi uma chamada do John Herdman [então selecionador canadiano] a dizer: ‘Sabes, queremos-te aqui connosco. Podes esperar por uma oportunidade que talvez nunca surja com Portugal, ou podes abraçar esta experiência na seleção do Canadá e chegar mesmo ao Mundial’.” A decisão foi tomada em família. “Sinto que os 7 anos que vivi no Canadá foram muito bons, e a única forma de retribuir ao Canadá era jogando por eles”, afirmou à TSN, recordando as palavras da mãe: “Não olhes para trás, vai, e nós estaremos sempre aqui para ti.”
Quando, em agosto de 2022, já como jogador do FC Porto, soube que a mãe sofria de cancro no cérebro, sentiu o chão desaparecer-lhe debaixo dos pés. Preparava-se para disputar o Mundial do Catar, competição que Esmeralda também aguardava com entusiasmo, para finalmente poder ver o filho jogar pela seleção do Canadá. Isso nunca chegou a acontecer. “A minha mãe era a pessoa mais especial. Se as pessoas me conhecem, conhecem-na a ela, porque sou um espelho. Ela era a melhor mãe, para ser sincero”.
Um ano após essa perda devastadora, Stephen recebeu uma nova luz na sua vida ao tornar-se pai, em abril de 2024, de Benedita, que, segundo o próprio, tem muitas semelhanças com Esmeralda. Mas, um mês depois, o destino voltou a atingi-lo em cheio. Um ataque cardíaco levou-lhe o pai de forma repentina.
Só Stephen saberá de onde retirou as forças que nunca o abandonaram nos momentos mais difíceis da sua vida. Pelo meio, o futebol também lhe trouxe algumas alegrias e, quem sabe, alguma da resistência que sempre demonstrou. Nos anos em que jogou no FC Porto, ajudou o clube a conquistar dois campeonatos nacionais e seis taças, em quatro anos.
No início de 2026, foi emprestado aos norte-americanos do LAFC e foi claro: “Não tive amargura de não acabar a época porque o meu tempo com o FC Porto foi espetacular. Estive lá quatro anos, cinco épocas. Este foi o meu oitavo título conquistado, tive oportunidade de ganhar as taças todas, de ganhar o campeonato, jogar Champions, jogar Liga Europa. Chegou o momento em que disse que se a minha carreira no FC Porto terminasse ali, saía feliz. E tinha de olhar para mim, com o Mundial a chegar”.
O Mundial chegou e o número 7 e capitão dos canadianos voltou a mostrar a sua dimensão. O golo que garantiu ao Canadá os oitavos de final vale mais do que uma qualificação histórica. Mudou, por instantes, o peso com que Stephen Eustáquio carrega a própria história e devolveu-lhe um momento de felicidade. As palavras do selecionador canadiano Jesse Marsch, no final do jogo com a África do Sul, reforçam essa ideia: “Não consigo pensar em ninguém mais merecedor num grupo de pessoas incríveis. Talvez o Steph seja quem mais merece viver um momento como aquele. Por isso, estou muito feliz por ele, e acho que, de algum lugar, os pais dele estão a olhar para baixo e viram isso.”
Com mais uma época de ligação contratual ao FC Porto, o futuro de Stephen Eustáquio, de 29 anos, continua em aberto.
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