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·24 Juni 2026
A Bola manda calar os leitores com Ronaldo

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Portugal fez a sua obrigação. Venceu o Uzbequistão por 5-0, uma seleção que nunca tinha participado num Mundial e cuja diferença de qualidade era evidente desde o primeiro minuto. O resultado podia até ter sido mais expressivo.
Mas, como quase sempre acontece, a conversa não é sobre Portugal. É sobre Cristiano Ronaldo.
É impossível apagar aquilo que Cristiano Ronaldo foi. Foi o melhor jogador do mundo, o melhor português de sempre e um dos maiores atletas da história do futebol. Ninguém lhe tira isso. O problema é que continua a existir uma necessidade quase obsessiva de provar que ainda é aquilo que já deixou de ser há muito tempo.
Marcou dois golos? Sim. Mas também falhou oportunidades que outros jogadores, em melhor momento físico e competitivo, dificilmente desperdiçariam. E o mais preocupante nem é isso. É a forma como toda a equipa parece continuar condicionada pela necessidade de servir uma figura que já não consegue oferecer ao coletivo aquilo que oferecia há dez ou quinze anos.
Nada me move contra Cristiano Ronaldo. Pelo contrário. Tenho memória e gratidão pelo que deu ao futebol português. O que me causa desinteresse é ver uma Seleção inteira transformada num palco secundário para alimentar uma narrativa individual.
Talvez por isso tenha mais entusiasmo pelo arranque da época do Benfica do que por continuar a acompanhar esta novela permanente.
E depois existe a comunicação social. A mesma comunicação social que durante anos alimentou campanhas ridículas sobre párias, bolas paradas, desunião, balneários divididos e tudo aquilo que servisse para criar polémica e gerar cliques.
Veja-se o caso de A Bola. Um jornal que em tempos foi uma referência do jornalismo desportivo e que hoje parece viver cada vez mais de opiniões, muitas delas gratuitas, porque a notícia deixou de chegar para preencher espaço.
O mais extraordinário foi assistir a uma capa que, na prática, manda calar leitores, jornalistas e comentadores que ousam discordar da narrativa dominante. Um jornal que precisa de receitas como de pão para a boca decide entrar em guerra com quem ainda o compra, lê ou subscreve.
É um exercício de arrogância difícil de compreender. Como se quem paga não tivesse direito a pensar de forma diferente. Como se criticar uma figura pública fosse um crime ou o jornalismo tivesse passado a ser um espaço reservado apenas para opiniões autorizadas.
Depois não vale a pena surgirem discursos sobre liberdade de expressão, ameaças com entidades reguladoras ou indignação corporativa quando a crítica muda de direção. Quem passa anos a distribuir lições também tem de estar preparado para as receber.
Portugal ganhou. Fez aquilo que era suposto fazer. Mas, no dia seguinte, a conversa continua a ser a mesma de sempre. Não sobre a Seleção, sobre o jogo ou sobre o coletivo.
Apenas de Cristiano Ronaldo.
E isso diz muito sobre o estado atual do futebol português e de parte da imprensa que o acompanha.







































