Calciopédia
·12 Juni 2026
A burocracia das camisas: como a Itália distribuiu sua numeração por 20 anos

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Paolo Maldini e Franco Baresi são lembrados por números específicos. O primeiro eternizou a camisa 3; o segundo transformou a 6 em parte da própria identidade. Pela seleção italiana, porém, a realidade foi bem diferente. O lateral precisou esperar até a Eurocopa de 1996 para vestir a 3 pela primeira vez, tendo envergado três algarismos antes (8, 7 e 5). O líbero, por sua vez, foi convocado para vários grandes torneios com a camisa 2 e só usou a sua numeração habitual em 1994.
Isso não aconteceu por opção dos ex-jogadores ou por invenção dos treinadores. A explicação está em um curioso sistema de numeração adotado pela seleção italiana durante boa parte da segunda metade do século XX. Uma organização que teve raros paralelos na história.
Antes de adotar o seu sistema peculiar, a Nazionale teve uma primeira experiência de padronização de números de camisas, que ocorreu nos anos 1960. Na Copa do Mundo de 1966 e na Eurocopa de 1968, a Itália as distribuiu em ordem alfabética, sem levar em consideração as posições dos jogadores – sistemática que outras equipes nacionais usaram, sendo o caso da Argentina campeã em 1978 o mais famoso. O resultado produziu situações inusitadas. Em 1966, o goleiro Roberto Anzolin recebeu a camisa 2. Dois anos depois, o atacante Pietro Anastasi também vestiu a 2 na campanha do título continental. Coincidentemente, a 1 ficou com o arqueiro Enrico Albertosi nos dois torneios.
Baresi foi o camisa 2 da Itália em quatro competições, usando a icônica 6 só em 1994 (Getty)
O critério desapareceu nos torneios seguintes. A Itália não utilizou esse sistema na Copa do Mundo de 1970 nem na de 1974. Mas, em 1978, surgiu uma nova versão, mais organizada e metódica.
Os goleiros passaram a usar obrigatoriamente as camisas 1, 12 e 22. Os demais atletas recebiam os números em ordem crescente e alfabética, divididos por setores do campo: primeiro os defensores, em seguida os meio-campistas e, por fim, os atacantes – em algumas convocações, os pontas ficaram entre os meias e os avantes.
A lógica produziu combinações improváveis em Copas do Mundo e Eurocopas. O líbero Gaetano Scirea foi camisa 8 em 1978, 7 em 1982 e, em 1986, deu a sorte de usar a 6 que eternizou – na Euro de 1980, chegou a usar a 9! O xerifão Pietro Vierchowod vestiu a 8 em três Mundiais consecutivos. O cerebral Giancarlo Antognoni recebeu a 9 em 1978 e 1982. Anos depois, o mesmo número seria utilizado pelo meia Carlo Ancelotti (1986, 1988 e 1990), pelo volante Demetrio Albertini (1998) e pelos laterais Mauro Tassotti (1994) e Moreno Torricelli (1996). Este também vestiu a 8 (1998), que foi do seu homólogo Roberto Mussi (1994 e 1996). E tivemos ainda o zagueiro Lorenzo Minotti com a 7 (1994).
Maldini vestiu três camisas antes de poder usar a 3: sistema italiano fez até o lateral Tassotti utilizar a 9 (Bongarts/Getty)
Os pontas ocupavam uma categoria própria em 11978, 1982 e 1986. Franco Causio, Bruno Conti, Daniele Massaro, Claudio Sala e até Gianluca Vialli, convocado nessa função em 1986, apareceram antes dos centroavantes na distribuição das camisas. Assim, Alessandro Altobelli e Paolo Rossi conquistaram o tricampeonato mundial usando a 18 e a 20, respectivamente.
Já deu para notar que nem os maiores ídolos escaparam do sistema. Maldini estreou em grandes competições com a camisa 8, na Eurocopa de 1988. Na Copa do Mundo de 1990, passou a vestir a 7. Em 1994, chegou à final do Mundial usando a 5. Somente na Eurocopa de 1996 apareceu pela primeira vez com a histórica camisa 3, mantida até sua despedida da seleção, em 2002.
Nos anos 1990, contudo, a rigidez começou a dar lugar às exceções. Depois de ser obrigado a jogar com a 2 por cerca de uma década e meia, Franco Baresi recebeu a sua icônica camisa 6 na Copa do Mundo de 1994, enquanto Roberto Baggio vestiu a 10; curiosamente, o único dos três Mundiais em que a envergou. Dois anos depois, Maldini foi liberado para utilizar a 3 e Roberto Donadoni ganhou a 7 na Eurocopa. No torneio continental, houve ainda um detalhe curioso. A 13 estava destinada a Antonio Conte, mas uma lesão sofrida pelo volante pouco antes do torneio abriu espaço para Fausto Rossitto, que acabou herdando o número originalmente previsto para o apuliano, que mais tarde até seria técnico da seleção italiana.
Baggio jogou três Copas, mas foi o 10 da Itália só em 1994: em 1998, Del Piero foi exceção à regra vigente na época (imago)
A Copa do Mundo de 1998 foi a última grande competição em que a Itália adotou esse método. Maldini, capitão, já era o dono da 3, enquanto Alessandro Del Piero (com moral) herdou a 10, mesmo com Robi Baggio no time – seguindo o sistema, o Divin Codino ficou com a 18. Na sequência, Filippo Inzaghi recebeu a camisa 19, enquanto Enrico Chiesa utilizou a 20, repetindo o número que usava por Sampdoria e Parma. Pela ordem alfabética, o esperado seria o inverso, mas houve essa terceira exceção na lista.
O sistema italiano nunca foi uma simples extravagância. Também não parece ter obedecido a algum significado oculto. Tratava-se, acima de tudo, de uma organização metódica para distribuir as camisas em torneios de seleções – a Suécia, em 1990, fez o mesmo, por exemplo. Ainda assim, acabou produzindo algumas das histórias mais curiosas da seleção.
Baresi, o eterno camisa 6 do Milan, passou anos identificado pela 2 azzurra. Maldini, um dos maiores camisas 3 da história italiana, precisou vestir antes a 8, a 7 e a 5, como se fosse um atleta sem identidade. Dois dos maiores símbolos do futebol italiano demoraram para usar justamente os números pelos quais seriam lembrados para sempre.
Confira, a seguir, as convocações da Itália que seguiram este padrão de ordenação numérica, em ordem cronológica.
1 Albertosi, 2 Anzolin, 3 Barison, 4 Bulgarelli, 5 Burgnich, 6 Facchetti, 7 Fogli, 8 Guarneri, 9 Janich, 10 Juliano, 11 Landini, 12 Leoncini, 13 Lodetti, 14 Mazzola, 15 Meroni, 16 Pascutti, 17 Perani, 18 Pizzaballa, 19 Rivera, 20 Rizzo, 21 Rosato, 22 Salvadore.
1 Albertosi, 2 Anastasi, 3 Anquilletti, 4 Bercellino, 5 Burgnich, 6 Bulgarelli, 7 Castano, 8 De Sisti, 9 Domenghini, 10 Facchetti, 11 Ferrini, 12 Guarneri, 13 Juliano, 14 Lodetti, 15 Mazzola, 16 Prati, 17 Riva, 18 Rivera, 19 Rosato, 20 Salvadore, 21 Vieri, 22 Zoff.
1 Zoff, 2 Bellugi, 3 Cabrini, 4 Cuccureddu, 5 Gentile, 6 Maldera, 7 Manfredonia, 8 Scirea, 9 Antognoni, 10 Benetti, 11 Pecci, 12 Conti, 13 P. Sala, 14 Tardelli, 15 Zaccarelli, 16 Causio, 17 C. Sala, 18 Bettega, 19 Graziani, 20 Pulici, 21 Rossi, 22 Bordon.
1 Zoff, 2 Franco Baresi, 3 Giuseppe Baresi, 4 Bellugi, 5 Cabrini, 6 Collovati, 7 Gentile, 8 Maldera, 9 Scirea, 10 Antognoni, 11 Benetti, 12 Bordon, 13 Buriani, 14 Oriali, 15 Tardelli, 16 Zaccarelli, 17 Altobelli, 18 Bettega, 19 Causio, 20 Graziani, 21 Pruzzo, 22 Galli.
1 Zoff, 2 Baresi, 3 Bergomi, 4 Cabrini, 5 Collovati, 6 Gentile, 7 Scirea, 8 Vierchowod, 9 Antognoni, 10 Dossena, 11 Marini, 12 Bordon, 13 Oriali, 14 Tardelli, 15 Causio, 16 Conti, 17 Massaro, 18 Altobelli, 19 Graziani, 20 Rossi, 21 Selvaggi, 22 Galli.
1 Galli, 2 Bergomi, 3 Cabrini, 4 Collovati, 5 Nela, 6 Scirea, 7 Tricella, 8 Vierchowod, 9 Ancelotti, 10 Bagni, 11 Baresi, 12 Tancredi, 13 De Napoli, 14 Di Gennaro, 15 Tardelli, 16 Conti, 17 Vialli, 18 Altobelli, 19 Galderisi, 20 Rossi, 21 Serena, 22 Zenga.
1 Zenga, 2 Baresi, 3 Bergomi, 4 Cravero, 5 Ferrara, 6 Ferri, 7 Francini, 8 Maldini, 9 Ancelotti, 10 De Agostini, 11 De Napoli, 12 Tacconi, 13 Fusi, 14 Giannini, 15 Romano, 16 Altobelli, 17 Donadoni, 18 Mancini, 19 Rizzitelli, 20 Vialli.
1 Zenga, 2 Baresi, 3 Bergomi, 4 De Agostini, 5 Ferrara, 6 Ferri, 7 Maldini, 8 Vierchowod, 9 Ancelotti, 10 Berti, 11 De Napoli, 12 Tacconi, 13 Giannini, 14 Marocchi, 15 Baggio, 16 Carnevale, 17 Donadoni, 18 Mancini, 19 Schillaci, 20 Serena, 21 Vialli, 22 Pagliuca.
1 Pagliuca, 2 Apolloni, 3 Benarrivo, 4 Costacurta, 5 Maldini, 6 Baresi, 7 Minotti, 8 Mussi, 9 Tassotti, 10 Roberto Baggio, 11 Albertini, 12 Marchegiani, 13 Dino Baggio, 14 Berti, 15 Conte, 16 Donadoni, 17 Evani, 18 Casiraghi, 19 Massaro, 20 Signori, 21 Zola, 22 Bucci.
1 Peruzzi, 2 Apolloni, 3 Maldini, 4 Carboni, 5 Costacurta, 6 Nesta, 7 Donadoni, 8 Mussi, 9 Torricelli, 10 Albertini, 11 Baggio, 12 Toldo, 13 Rossitto, 14 Del Piero, 15 Di Livio, 16 Di Matteo, 17 Fuser, 18 Casiraghi, 19 Chiesa, 20 Ravanelli, 21 Zola, 22 Bucci.
1 Toldo, 2 Bergomi, 3 Paolo Maldini, 4 Cannavaro, 5 Costacurta, 6 Nesta, 7 Pessotto, 8 Torricelli, 9 Albertini, 10 Del Piero, 11 Dino Baggio, 12 Pagliuca, 13 Cois, 14 Di Biagio, 15 Di Livio, 16 Di Matteo, 17 Moriero, 18 Roberto Baggio, 19 Inzaghi, 20 Chiesa, 21 Vieri, 22 Buffon.







































