Portal dos Dragões
·17 Mei 2026
A história do 31.º campeonato do FC Porto: André Villas-Boas arrisca, escolhe Farioli e leva Dragões ao título

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O FC Porto voltou a conquistar o campeonato nacional numa fase em que ainda havia dúvidas sobre a capacidade do clube para recuperar a estabilidade perdida nos últimos anos. Mais do que um simples troféu, o 31.º título simbolizou uma reconstrução profunda de uma estrutura que parecia presa ao desgaste do passado recente, à pressão de uma mudança presidencial e à necessidade urgente de regressar ao mais alto nível competitivo.
Na verdade, o que se passou no Dragão ao longo dos últimos dez meses diz muito sobre futebol, liderança, renovação e sobre a diferença entre os clubes que vencem e aqueles que apenas marcam presença.
Assim, o 31.º campeonato da história azul e branca não resulta apenas de uma sequência de vitórias, mas de uma transformação profunda de um clube que percebeu que teria de mudar quase tudo para voltar a ganhar. E nasce, acima de tudo, da coragem de André Villas-Boas em arriscar num momento em que o erro seguinte poderia ter consequências muito graves.
Depois de uma primeira época de presidência marcada por instabilidade, contestação e fracassos evidentes nas apostas em Vítor Bruno e, mais tarde, em Martín Anselmi, Villas-Boas concluiu que o FC Porto precisava de uma ruptura mais séria. Não bastava trocar de treinador. Era necessário alterar a lógica, a forma de pensar, a estrutura e a maneira de construir uma equipa. Foi então que surgiu Francesco Farioli.
Quando Francesco Farioli aterrou no aeroporto Francisco Sá Carneiro, a 3 de julho de 2025, trazia consigo um peso difícil de ignorar. O italiano chegava ao FC Porto poucas semanas depois de ter vivido um dos colapsos mais traumáticos do futebol neerlandês recente. O Ajax desperdiçara uma vantagem de nove pontos a cinco jornadas do fim e entregara o título ao PSV. Em Amesterdão, ficou a imagem de um treinador jovem incapaz de gerir a pressão dos momentos decisivos.
No Dragão, porém, olharam para lá da cicatriz. Villas-Boas, como revelou numa entrevista ao podcast “O Código Farioli”, da Rádio Renascença, já acompanhava o técnico italiano há algum tempo, sensivelmente desde 2023/24, época em que o treinador transalpino levou o Nice ao quinto lugar da Ligue 1, com a melhor defesa da competição, sofrendo apenas 29 golos.
O presidente portista viu, então, naquele treinador de 37 anos algo que se enquadrava no futuro que idealizava para o clube. Não apenas pelas ideias táticas, mas pela forma quase obsessiva como encara o jogo. Licenciado em Filosofia pela Universidade de Florença, influenciado por Roberto De Zerbi e profundamente marcado pela escola italiana, Farioli olha para o futebol como uma construção racional, estética e emocional ao mesmo tempo.
Para ele, o sistema nunca foi nem é o centro da discussão. O essencial está nos princípios: dominar o jogo, controlar os ritmos, reagir rapidamente à perda da bola e pressionar de forma coordenada. No fundo, obrigar o adversário a sentir desconforto. E, acima de tudo, transformar uma equipa num organismo colectivo capaz de pensar como um só.
No FC Porto encontrou terreno fértil para aplicar essas ideias, mas Farioli também percebeu rapidamente o contexto em que estava inserido. Entendeu que o clube precisava de recuperar a agressividade emocional que tinha perdido. Assimilou o espírito competitivo do Dragão, entrou em alguns “bate-bocas”, comprou várias batalhas institucionais e aproximou-se da ideia histórica do “juntos contra todos” que tantas vezes definiu o clube. Sem copiar ninguém, mas percebendo o enquadramento na perfeição.
E, ao contrário do que muitos antecipavam e desejavam, o fantasma do Ajax nunca entrou verdadeiramente no balneário portista
Depois surgiu janeiro, que acabou por ser decisivo. Enquanto os rivais acusavam desgaste, o FC Porto reforçou-se ainda mais. Chegaram Thiago Silva, experiência pura para um balneário jovem; Seko Fofana, músculo e intensidade para dar fôlego ao meio-campo; Terem Moffi, alternativa para as lesões no ataque; e Oskar Pietuszewski, o irreverente adolescente polaco que entrou para mexer nos jogos e desequilibrar no um para um.
Todas estas apostas foram retoques que completaram um plantel já funcional. O resultado foi uma equipa equilibrada, vertical quando necessário, sólida quando a situação o exigia, com alternativas reais em todos os sectores e com profundidade suficiente para nunca depender de um único jogador. Farioli tinha um plantel e isso, em competições longas e exigentes, faz toda a diferença (para se ter uma ideia, 33 foi o número de jogadores campeões pelo emblema azul e branco).
Nenhuma leitura séria desta época pode ignorar a dimensão emocional que envolveu o FC Porto.
A morte de Jorge Costa abalou profundamente o clube. O eterno capitão, o “Bicho”, era muito mais do que um dirigente. Representava uma ligação viva ao FC Porto mais feroz, mais competitivo e mais visceral.
O título foi conquistado precisamente a 2 de maio. O número de Jorge Costa. Coincidência ou não, para muitos adeptos tornou-se impossível separar as duas coisas.
A ligação ao título vai além da data. No jogo de apresentação da equipa aos sócios, na vitória por 1-0 frente ao Atlético de Madrid, Jorge Costa tinha confidenciado a Farioli que o FC Porto tinha voltado a ter uma equipa. O próprio treinador contou esse momento numa entrevista à Sport TV, em janeiro. Uma frase dita por alguém que conhecia o clube como poucos, que viveu os seus momentos mais gloriosos como jogador e como capitão, e que não viveu para ver a confirmação dessas palavras.
Também a memória de Jorge Nuno Pinto da Costa pairou constantemente sobre a época. O “Presidente dos Presidentes” já não estava presente fisicamente, mas a sua influência continuava a sentir-se em cada referência à mística portista.
Esse espírito esteve, por isso, presente ao longo de toda a época. Uma equipa que jogou com alma, entrega e um sentido de pertença difícil de fabricar artificialmente e que, quando existe, se sente nas bancadas e no relvado de uma forma que os números nunca conseguem traduzir por completo.
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