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·9 Januari 2026
Competitividade e esgotamento: Nômade da bola, português Geraldes relata experiência na Série B

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Francisco Geraldes chegou ao Sporting, de Portugal, aos nove anos e fez toda sua formação no clube que defenderia por boa parte de sua carreira profissional. No currículo constam ainda passagens pelo futebol da Alemanha, Grécia, Emirados Árabes, Malásia, Espanha, Nova Zelândia e, desde 2025, a pequena cidade de São João del Rei, no interior de Minas Gerais.
Mas como este meia, de 30 anos, foi parar numa cidade de menos de 100 mil habitantes para defender o Athletic na disputa da Série B do Brasileirão? "O diretor esportivo é o Pedro Alves, que foi meu diretor no Estoril. É uma pessoa por quem eu nutro uma amizade muito grande. Convidou-me para participar no projeto", contou em entrevista exclusiva ao zerozero, parceiro português do oGol (confira a conversa na íntegra clicando aqui).
Depois de chegar ao clube no meio de agosto, foram apenas 10 partidas e apenas duas vitórias, mas uma campanha suficiente para evitar a queda. "É um projeto que é vencedor, apesar de não ter corrido da melhor maneira possível, porque o clube enfrentava muitas dificuldades. Na estrutura, nas mudanças do centro de treinos, nas próprias pessoas que trabalham no clube... houve uma mudança muito grande no clube e esperar uma coisa melhor também era difícil", disse.
"Conseguimos, felizmente, o objetivo que era a manutenção e eu acredito que na próxima época o clube vai crescer muito. Tem investidores que são ligados ao Vinícius Júnior, são pessoas com muita visão sobre aquilo que querem para o clube, para o segmento em que estão inseridas. Vai ser um clube muito competitivo na próxima época", completou.
A realidade do futebol brasileiro traz um desafio a mais para os jogadores portugueses: as dimensões do país. O Brasil tem um território cerca de 92 vezes maior que o de Portugal, e defender um time que fica à 180 quilômetros da capital Belo Horizonte tem aditivos nas dificuldades. Geraldes não escondeu que a situação foi bastante incômoda.
"Sim, bastante. Para vocês perceberem, basta dizer que para um jogo no sábado, a equipa tinha de sair na quinta-feira de São João. E só voltava no domingo à noite. Não é a mesma coisa jogar no Athletic ou numa equipa do Rio de Janeiro, como o Volta Redonda. A gestão do plantel, das cargas, tudo tem de ter em conta a questão das viagens, do cansaço que os jogadores têm nesse pormenor. Só para ir para o aeroporto nós demorávamos cinco horas e meia. Isso tem um impacto direto no rendimento dos jogadores. Foi esgotante", contou.
Ocupado com os jogos e deslocamentos com o Athletic, Francisco Geraldes não teve muita oportunidade de acompanhar jogos da elite do futebol brasileiro. Contudo, a percepção do jogador foi de muito equilíbrio nas disputas das competições nacionais.
"Não tive a oportunidade de ver nenhum jogo do Brasileirão. Por isso não sei bem o nível do campeonato, acredito que seja bastante elevado. Mas a própria Série B, para a minha surpresa, tem bom nível. A nível individual eu já sabia, já calculava que tivesse muita qualidade, principalmente nas seis/sete lá de cima. É um campeonato muito competitivo, porque não tem duas equipas a fazer 100 pontos e o resto muito abaixo. Não, há muita luta e jogadores muito, muito bons", avaliou.
Geraldes é reconhecido por ser um jogador bastante ligado às questões políticas e sociais, além de ser um apreciador da literatura e dos estudos. Na conversa com os conterrâneos, ele também foi perguntado sobre a situação que encontrou no Brasil, tanto pela polarização política, quanto pela vivência num país cuja imagem no exterior muitas vezes é rapidamente associada à violência.
"Nesse sentido, foi uma surpresa para mim. São João del Rei é uma cidade super pacífica, é muito raro haver um assalto. Podia andar à vontade à noite na rua, é uma cidade muito religiosa, devota, tem igrejas por tudo quanto é canto. E por isso a questão da segurança sempre foi um não problema no sítio onde eu morava. Claro que muitos dos meus colegas eram do Rio e de São Paulo e viveram e cresceram em realidades diferentes. Mas não se sentia essa fratura social em São João", disse.
"O Brasil tem um contexto muito particular e difícil. Estava no país quando houve aquela chacina numa favela do Rio e estando lá é possível entender o porquê de muitas coisas, o contexto histórico que desenvolve e que cria estas assimetrias. O Brasil, sendo o maior país da América Latina e da América do Sul, tem uma responsabilidade acrescida, diria, na organização e na resistência que a América do Sul tem de fazer perante o Norte. Mas é um país também muito impactado por todo o contexto material que assola o mundo", continuou.
"A América do Sul, enquanto ‘jardim dos Estados Unidos’ sente todos os dias a ingerência e a tentativa de controlo de um país. Vemos isso agora no Chile, na Argentina, na própria Venezuela. Há uma guerra que se nota no dia-a-dia, na tentativa de controlo de um país, de uma nação", completou.









































