Finalmente, o fim: Gabriele Gravina deixa comando da FIGC pela porta dos fundos | OneFootball

Finalmente, o fim: Gabriele Gravina deixa comando da FIGC pela porta dos fundos | OneFootball

In partnership with

Yahoo sports
Icon: Calciopédia

Calciopédia

·2 April 2026

Finalmente, o fim: Gabriele Gravina deixa comando da FIGC pela porta dos fundos

Gambar artikel:Finalmente, o fim: Gabriele Gravina deixa comando da FIGC pela porta dos fundos

Gabriele Gravina renunciou – tarde demais. Para que isso acontecesse, a Itália precisou ficar fora de sua terceira Copa do Mundo consecutiva, pagando caro por anos de proteção política dentro da própria FIGC, a Federação Italiana de Futebol.

Nesta quinta, 2 de abril de 2026, o dirigente entregou seu cargo na reunião extraordinária da FIGC, marcada após a queda nos pênaltis para Bósnia e Herzegovina, na final da repescagem europeia para o Mundial. A pressão pela saída de Gravina ganhou contornos institucionais nos últimos dias. O ministro do Esporte, Andrea Abodi, passou a defender publicamente a renúncia, enquanto cerca de 40 senadores também se posicionaram pela mudança no comando da federação.


Video OneFootball


Em meio ao cerco, Gravina agravou o próprio desgaste com uma declaração que repercutiu mal: ao tentar relativizar a crise do futebol masculino da Itália e diminuir sua responsabilidade, afirmou que a modalidade é profissional, ao contrário de outros esportes vitoriosos na Itália, de caráter amador. A fala gerou reação imediata de campeões mundiais e medalhistas olímpicos, ampliando a pressão pública e política e acelerando um desfecho que já se desenhava inevitável. Hoje, depois de entregar o cargo, disse que foi mal interpretado. Em geral, tal frase é o refúgio dos canalhas. E, sabemos bem, hombridade não é o forte do apuliano.

Gravina já deveria ter deixado a presidência da FIGC em pelo menos dois momentos claros. Em 2022, quando a Itália foi eliminada pela Macedônia do Norte na repescagem e ficou fora da Copa do Mundo. E em 2024, após uma Euro fraca, encerrada com a eliminação nas oitavas para a Suíça, sem qualquer resposta técnica ou institucional. Mesmo assim, permaneceu, escorado no título da Euro 2020, se valendo dos méritos dos atletas e da comissão comandada por Roberto Mancini. E mais do que isso: em fevereiro de 2025, foi reeleito com 98,68% dos votos. Um número que não indica força, mas ausência completa de oposição dentro de um sistema fechado – ele era candidato único.

Gambar artikel:Finalmente, o fim: Gabriele Gravina deixa comando da FIGC pela porta dos fundos

Se faltou hombridade para entregar o cargo após a eliminação na Bósnia, Gravina foi forçado a renunciar pela pressão popular (Getty)

A queda só veio agora, depois de mais um colapso e de uma pressão que se tornou impossível de administrar. Ao deixar a sede da FIGC, Gravina, inclusive, ainda afirmou que houve quem pedisse sua permanência, o que ajuda a dimensionar o nível de desconexão da realidade por parte de integrantes da federação que têm direito a voto.

Na sequência, Gianluigi Buffon também deixou o cargo de chefe de delegação da seleção. E não foi uma saída protocolar. Gigi deixou claro que já havia manifestado a intenção de sair após a derrota nos pênaltis para a Bósnia, mas foi convencido a esperar para comunicar. Agora, com a saída de Gravina, ele apenas formalizou uma decisão que já estava tomada, indicando desgaste interno e falta de alinhamento. Ao menos até a página dois, já que o grande campeão dentro de campo seguiu a hierarquia e se manteve como escudo do seu incompetente superior, transferindo-lhe sua credibilidade – função que cumpriu desde que assumiu o cargo em 2023, como parte da comissão técnica de Luciano Spalletti e que manteve com a chegada do amigo Gennaro Gattuso.

Rino, aliás, ainda não anunciou sua saída, mas dificilmente permanece no cargo de comissário técnico da Nazionale. Sem presidente e sem comando definido à beira do gramado, qualquer decisão no curto prazo será provisória. A Itália deve atravessar os amistosos de junho, contra Suécia e Grécia, sob comando interino – com Silvio Baldini, da sub-21, como principal possibilidade no momento.

O cenário institucional é de vazio. As eleições da FIGC estão marcadas apenas para 22 de junho, e até lá não existe uma linha de comando clara nem um projeto esportivo definido. Por isso, as especulações sobre novo treinador dizem pouco neste momento: não há sequer quem defina o perfil procurado. Falou-se nos retornos de Antonio Conte e Roberto Mancini, e até em Pep Guardiola. Parece cenário de ficção científica.

Por sua vez, a sucessão de Gravina expõe uma disputa que vai muito além do futebol jogado. De um lado, Giancarlo Abete, que presidiu a federação entre 2007 e 2014 e deixou o cargo após a eliminação ainda na fase de grupos da Copa do Mundo no Brasil – mostrando muito mais dignidade do que o apuliano, recém-exonerado somente pela pressão externa. Hoje, Abete comanda a Lega Nazionale Dilettanti – LND, que representa o futebol amador e tem peso relevante no sistema eleitoral da federação, do qual é um dos principais conselheiros. Ou seja, seria um nome interno.

Gambar artikel:Finalmente, o fim: Gabriele Gravina deixa comando da FIGC pela porta dos fundos

Falta um: depois de Gravina e Buffon entregarem seus cargos, Gattuso deve ser o próximo a fazê-lo (Getty)

Do outro lado, surge Giovanni Malagò, nome articulado principalmente por clubes da Serie A. Malagò foi presidente do Comitê Olímpico Italiano – CONI entre 2013 e 2025 e é um dirigente com forte inserção no núcleo de poder do esporte italiano. É notória sua proximidade com a família Agnelli, proprietária da Juventus, e sua ligação histórica com Luca Cordero di Montezemolo, seu antigo sócio. O parceiro, vale destacar, foi histórico diretor da Ferrari, presidiu o comitê organizador da Copa do Mundo de 1990, na Itália, e também teve breve passagem pela Juventus, na década de 1980. Brincavam até que ele era “filho postiço” do poderoso Gianni Agnelli, líder do clã, tamanha a força da relação que mantinham. Esses elementos ajudam a explicar por que seu nome ganha força nesse momento.

Os clubes da elite tentam aproveitar a crise para alterar o equilíbrio político da Federcalcio. Hoje, o sistema distribui votos entre diferentes entidades – ligas, federações regionais, categorias amadoras – diluindo o peso da Serie A, numa espécie de sistema de pesos e contrapesos. A articulação em torno de Malagò passa também por uma tentativa de reforma estatutária que aumente a influência dos clubes nas decisões.

Por isso, a troca de presidente não é apenas uma mudança de nome. É uma disputa por controle político. Está em jogo o espólio do fracasso e a possibilidade de angariar poder durante a tentativa da sonhada reformulação do futebol italiano.

Fato é que a crise da Itália não começou agora. Ela foi sendo empurrada, protegida e administrada politicamente até o ponto em que não dava mais para sustentar. A conta chegou e, agora, o problema é mais profundo do que qualquer troca imediata pode resolver. Resta saber se o desfecho não seguirá o princípio consagrado por uma frase lapidar presente no romance “Il Gattopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, que se tornou um traço típico da política italiana: “é preciso que tudo mude para que tudo permaneça como está”.

Lihat jejak penerbit