Zerozero
·17 Mei 2026
Imbatíveis mas insuficientes: o balanço da época de Mourinho no Benfica

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·17 Mei 2026

Terminou este domingo o segundo e, talvez, último capítulo de José Mourinho no Benfica. Vinte e cinco anos depois da primeira passagem pela Luz, o treinador regressou com uma promessa quase romântica de devolver o Benfica ao caminho das vitórias, numa altura em que era possível sonhar com a conquista das competições em disputa.
A realidade, porém, acabou por ser mais ambígua do que triunfante.O Benfica terminou a Liga Portugal Betclic no terceiro lugar, falhou o acesso direto à Liga dos Campeões pela primeira vez desde 2008/09 e despediu-se da época agarrado a um dado que serve mais de consolo do que de celebração: terminou o campeonato invicto.
Onze empates, contudo, pesaram demasiado numa corrida onde o detalhe decidiu tudo.
À chegada de Mourinho ao clube, o contexto era de urgência absoluta. Bruno Lage tinha acabado de ser despedido após a derrota frente ao Qarabag, depois de uma vantagem de dois golos desperdiçada na estreia europeia. Rui Costa precisava de um nome que trouxesse impacto, estabilidade e uma figura capaz de unir um clube mergulhado em desconfiança a poucos meses de eleições. Mourinho era exatamente isso.
A frase à chegada ao aeroporto acabaria por marcar toda a temporada: «Qual é o treinador que diz não ao Benfica?» Na altura, parecia uma declaração de amor, contudo, meses depois, paira novamente como uma interrogação ainda à procura de resposta.
Nos primeiros tempos, o impacto do técnico foi evidente. Mourinho trouxe organização e devolveu à equipa uma identidade mais competitiva. O Benfica tornou-se uma equipa menos caótica, mais racional e muito mais confortável sem bola.
Ainda assim, cedo ficou claro que este Benfica seria mais pragmático do que entusiasmante. O empate a zero no Dragão, em outubro, acabou por funcionar como manifesto futebolístico da era Mourinho. Um jogo amarrado e um Benfica claramente confortável em sair do Porto com um ponto.
As críticas apareceram imediatamente, mas Mourinho nunca procurou agradar esteticamente. «Às vezes, para ganhar o campeonato, tens de jogar para o ponto.»
Depois de meses de adaptação, janeiro parecia abrir finalmente espaço para algo maior. O Benfica estava vivo na Liga dos Campeões, seguia em prova nas taças nacionais e começava a estabilizar no campeonato.
A sequência de resultados positivos nos meses de novembro e dezembro traziam uma sensação rara de entusiasmo. Ainda assim, janeiro era também o mês que colocaria o Benfica verdadeiramente à prova. Os encarnados disputariam, num curto espaço de tempo, a continuidade na Taça da Liga, na Taça de Portugal e na Liga dos Campeões.
As eliminações frente ao Braga e FC Porto arredaram o Benfica das taças e colocaram no campeonato e na Liga dos campeões as últimas expectativas para a temporada. E foi precisamente nesse período que surgiu uma das noite mais marcantes da temporada.
A vitória épica por 4-2 frente ao Real Madrid, selada com um golo de cabeça de Anatoliy Trubin nos descontos, transformou-se instantaneamente numa das noites europeias mais memoráveis da Luz nos últimos anos. Durante alguns dias, pareceu genuinamente possível imaginar um Benfica capaz de transcender limitações e competir ao mais alto nível novamente, quer na Europa, quer no campeonato. Como se aquela vitória tivesse alavancado algo no Benfica. O clique que faltava.
Mas o futebol raramente vive apenas de noites isoladas. Menos de um mês depois da vitória frente aos merengues, o Benfica acabou também eliminado da Liga milionária pelos próprios espanhóis numa eliminatória que marcou o Benfica dentro e fora de campo e que deixou o clube a lutar por um único objetivo: o campeonato.
Ainda que o título se mostrasse como um objetivo irrealista e distante, a ambição começou por passar pelo segundo lugar e pela garantia de uma próxima época na Liga dos Campeões, longe dos fantasmas da Liga Europa para o Benfica.
Depois das voltas que o Benfica deu na luta pelo segundo lugar, os comandados de Mourinho encontraram-se a depender de si próprios para chegar à segunda posição. A vitória frente ao Sporting em Alvalade e os deslizes dos leões frente a Tondela e AFS faziam crer que tudo o que de mau havia acontecido antes fazia parte do passado.
Ainda assim, os jogos frente a Famalicão e SC Braga vieram a confirmar o pior cenário do Benfica. Dois empates que vieram deitar por terra as esperanças do segundo lugar e que, novamente, deitaram abaixo o crédito do título de imbatível.
Em praticamente qualquer outro contexto histórico, esse dado colocaria automaticamente uma equipa na rota do título. Mas o Benfica de Mourinho transformou a invencibilidade num detalhe estatístico incapaz de esconder a frustração competitiva, culpada entrelinhas na procura por milagres.
Os 11 empates acabaram por funcionar quase como derrotas parceladas. E isso explica porque é que a sensação final à volta desta equipa é tão contraditória. Houve evolução defensiva, noites europeias marcantes, crescimento competitivo e uma identidade clara. Mas faltou, no entanto, continuidade emocional, capacidade para desbloquear jogos fechados e, sobretudo, uma dimensão ofensiva compatível com as exigências históricas do Benfica.
A conferência de imprensa antes da última jornada acabou por deixar no ar a maior incerteza de toda a época. Mourinho confirmou ter recebido uma proposta de renovação, mas admitiu não a querer analisar antes do fim do campeonato. Quando questionado se continuaria a dizer não ao Benfica, respondeu apenas: «Não sei.»
A frase contrastou brutalmente com a convicção da chegada. Talvez porque o próprio Mourinho tenha percebido que o romantismo do regresso não bastava para apagar os problemas estruturais do Benfica. Ou talvez porque o treinador continue à procura de um último grande desafio europeu antes do fim da carreira.
Mas a verdade é que se em tempos não colocaria em causa a renovação do contrato, agora olha com bons olhos a análise escrutinada da porta entre a saída e a permanência.
Depois do último jogo da temporada Mourinho admitiu ter sido feliz todos os dias que representou o Benfica enquanto treinador, contudo, a felicidade vivida pelo treinador não servirá, para muitos, para colocar um ponto final nesta história que teima em não ser contada até ao fim.


Langsung





































