O que te fez são-paulino? Por Andre Ramatis | OneFootball

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·26 Juli 2026

O que te fez são-paulino? Por Andre Ramatis

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O que te fez ser são-paulino?

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Tenho certeza que fazer esse questionamento é um convite a flexão do tempo. Cada qual entre-cruzaria um tempo histórico com um uniforme tri-faixado e uma falsa imagem de si. Uma bela e inexperiente visão de mundo, uma boa quantidade de desejos e distorções oníricas.

Se perguntasse a um parente próximo, com certeza re-escutaria àquela mesma anedota sobre um chute de perna canhota de um certo “Canhoteiro”, já hoje tão esquecido, e como foi tão potente que atravessou todas as barreiras insolentes, as nossas refeições de domingo, e morreu no fundo da goleira. Devia realmente ser um chute muito forte. Coitado de quem estivesse em sua frente. 

Outros diriam sobre a tendência mourisca tricolor, outros falam sobre como o São Paulo é São Paulo, tal dupla, tal personalidade, tal gol de Raí…

Esse período de Copa do Mundo é muito especial. São quatros anos esperando para ver a camisa amarela ameaçando ser mais chamativa do que qualquer celebridade buscada pelas lentes de TV, do qualquer ciência futebolística ou figura política de turno. Nascemos acreditando que a camisa amarela, cada vez mais desbotada e maltrapilha, irá contra-argumentar qualquer estado de coisas. A bola vai passar pela barreira, qual seja. 

Para nós especialmente trata-se de um período em coma em que sonhamos com bom futebol.

O São Paulo, tão distante das razões que nos trouxeram a ele, se recusa a ser interessante em termos futebolísticos – sequer o guarany Bobadilla vencendo os alemães é alento. Parece que somos estudantes de ADM ou quiça microeconomistas. Tentamos controlar o orçamento familiar e ainda pensamos em como fechar as contas do clube social e suas intrigas à Macbeth. 

Continuístas ou reformistas? Temos dívida de um bi ou apenas 900 mi? Género dramatúrgico:  tragédia

Claro que há comédia. Como não poderia? O remelexo no carnaval fora de época no Equador; há quem queira renovar contrato sem fazer gols desde de 2024… Nosso melhor jogador é alérgico ao gramado. Temos um levantador na goleira, serve muito bem os ponteiros, cabe até convocação. E Júlio Cesar Casares, um Imperador romano! e seus charutos, “caímos no seu papinho”. Muito adorável. 

E como peça de teatro que se preze, temos epílogo! Coitado de Crespo e de quem tem Massis como chefe. 

Quando por vezes saio do coma me lembro: 

Dia 19 de novembro de 2006. São Paulo empata contra Athlético Paranaense em casa, mas leva. O céu é cinza e com brechas de sol, passada uma chuva efémera que apenas potencializa o calor da selva de concreto, que sobe em vapor e tortura quem fica com sol retornado. O Morumbi ruge, São Paulo terremoteia.

Pela primeira vez o São Paulo Futebol Clube comemora um título brasileiro em casa. Da floresta ao Trocadero, nos 30; ao aniversário da cidade de São Paulo, em 1935; passando pelo Tricolor de Aço, nos 40; Cícero e Laudo, nos 50; Gutman e Leônidas, 57;  Benê e Roberto Dias Branco, 60, enquanto nascia Muriçy; a máquina setentista; os Menudos do Cilinho, em 80; e a maior aproximação de Telê Santana da Silva à perfeição nos nossos 90… A memoria coletiva são-paulina encontrava-se finalmente uma festa em sua casa após um título nacional

Muricy Ramalho é festejado pela torcida, reverenciado pelos jogadores e assediado pelos jornalistas. Em meio ao frenesi natural de ser campeão, de ouvir na altura adequada os trechos iniciais do hino do Tenente Porfírio da Paz e canto de Telê Telê, Telê, nunca esquecido pelos infinitos arcos da arquibancada, nada disso o interessa. Ele é todo lágrimas e esforço em conseguir realizar uma ligação. Seu pequeno celular, que já data nossa velhice, conecta: Muricy Ramalho apenas precisa dizer que conseguiu para quem ama. 

Em  meios aos tricolores, nesse momento eu me decidi. Sou são-paulino. 

Não há tragédia que me afeste desse clube. Não há ridículo que não se converta em comédia. Não peço retorno porque o tempo não me ouviria. Torço, por outro lado, que novos são-paulinos tenham uma história para contar quando questionados do porque torcem para esse clube.

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