Calciopédia
·23 Juli 2026
Talento errante, Mauro Zárate teve seus lampejos no futebol italiano

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Mauro Zárate pertence a uma das famílias mais tradicionais do futebol argentino das últimas décadas. Uma linhagem intimamente ligada ao Vélez Sarsfield e que produziu diversos jogadores profissionais ao longo de gerações. Cercado pelo esporte desde a infância, parecia reunir todas as condições para construir uma trajetória de destaque. O talento demonstrado ainda jovem, confirmado durante os primeiros anos na Itália, chegou a colocá-lo entre os atacantes mais promissores de sua geração. Incapaz, porém, de sustentar esse nível por muito tempo, Maurito acabou transformando uma carreira que prometia levá-lo à elite europeia numa longa sucessão de clubes, tornando-se um verdadeiro cigano da bola.
Nascido em Haedo, na região metropolitana de Buenos Aires, em 18 de março de 1987, Mauro veio de uma família chileno-argentina por parte de pai e italiana por parte de mãe. Neto do chileno Juvenal, que já jogava futebol, e filho do ex-jogador Rolando Zárate, o Rolo, com Marcela, oriunda da província de Catanzaro, cresceu ao lado dos irmãos Sergio, Ariel e Rolando, que também seguiram carreira como atletas – tradição posteriormente mantida pelos sobrinhos Tobías e Luca. Assim como seus dois manos mais velhos, foi revelado pelo Vélez Sarsfield, clube que marcaria diferentes momentos da trajetória dos três. Vale destacar que Sergio, também conhecido como El Ratón, chegou a atuar brevemente na Itália, pelo Ancona; já Róly teve rápida passagem pelo Real Madrid.
Desde o início, Maurito destacou-se pela qualidade técnica, pelo drible curto, pela velocidade em espaços reduzidos e pela capacidade de finalizar com ambos os pés. Embora pudesse atuar como centroavante, rendia mais partindo dos lados para buscar o jogo por dentro, aproximando-se da área e assumindo o protagonismo das ações ofensivas. Ainda muito jovem, passou a ser visto como uma das principais promessas do futebol argentino. Foi integrado ao plantel do Vélez em 2003-04, estreando profissionalmente aos 17 anos. Com 19, já era titular do time de Liniers, em substituição ao irmão Rolando, negociado com o Tigres, do México.
A confirmação desse potencial veio em 2007. Depois de chamar atenção com a camisa do Vélez, Zárate integrou a seleção argentina campeã da Copa do Mundo Sub-20. Era uma geração extremamente talentosa, que contava com Sergio Agüero, Ángel Di María, Alejandro “Papu” Gómez, Éver Banega, Federico Fazio, Sergio Romero e Maxi Morález, além de Gabriel Mercado e Damián Escudero, que fizeram carreira no Brasil. Autor do gol da vitória na decisão contra a República Checa, já nos derradeiros minutos, Maurito forjou uma imagem de atacante capaz de decidir partidas importantes e reforçou a expectativa de que, em pouco tempo, se transformaria em protagonista também entre os profissionais. Curiosamente, porém, o passo seguinte de sua carreira surpreendeu boa parte do futebol sul-americano.
Após se destacar pelo Vélez e pela seleção sub-20 argentina, Zárate viria a se firmar na Lazio (Getty)
Zárate marcara 16 gols no Campeonato Argentino de 2006-07 pelo Vélez, sendo 12 no Apertura, do qual foi artilheiro ao lado de Rodrigo Palacio, do Boca Juniors. Mas, em vez de seguir diretamente para um dos principais centros europeus, aceitou uma proposta do Al-Sadd, do Catar. A transferência, motivada principalmente pelo aspecto financeiro, interrompia de maneira precoce a evolução de um atleta que parecia destinada às grandes ligas do continente europeu. A passagem, entretanto, revelou-se curta e pouco satisfatória. O atacante nunca escondeu que teve dificuldades para se adaptar ao país e ao futebol local, experiência que rapidamente o convenceu de que precisava buscar um ambiente mais competitivo para continuar desenvolvendo seu futebol.
Essa oportunidade apareceu poucos meses depois, quando foi emprestado ao Birmingham City, da Inglaterra. Embora tenha permanecido apenas durante a segunda metade da temporada 2007-08, o argentino deixou uma impressão bastante positiva na Inglaterra. Em uma equipe que lutava contra o rebaixamento na Premier League, mostrou personalidade para assumir responsabilidades, marcou quatro gols em 14 partidas e produziu algumas atuações de grande qualidade, nas quais anotou uma doppietta diante do Manchester City e um gol de falta nos minutos finais contra o Everton.
O Birmingham acabou não conseguindo evitar a queda para a Championship, mas a breve experiência inglesa cumpriu um papel importante na carreira de Zárate. Pela primeira vez desde que deixara a Argentina, voltou a demonstrar o futebol que o transformara em uma das maiores promessas de seu país. Não foi o suficiente para levá-lo aos Jogos Olímpicos de 2008, em que pese a participação num amistoso preparatório da equipe sub-23 albiceleste, mas despertou o interesse de clubes de maior expressão. Entre eles estava a Lazio, que enxergou no atacante argentino um talento capaz de conferir criatividade e imprevisibilidade ao seu setor ofensivo. A aposta mudaria completamente o rumo de sua carreira e faria da Itália o palco dos melhores – e também dos mais frustrantes – capítulos de sua trajetória.
A chegada à Lazio, no verão de 2008, representou o verdadeiro ponto de virada da carreira de Zárate. Contratado inicialmente por empréstimo junto ao Al-Sadd, o argentino desembarcou em Roma cercado de expectativa e ganhou a camisa 10 biancoceleste, mas poucos imaginavam que precisaria de tão pouco tempo para justificar a aposta. Logo na estreia pela Serie A, marcou dois gols contra o Cagliari. Nas rodadas seguintes, voltou a balançar as redes diante de Sampdoria, Milan e Torino, chegando a seis tentos em seis partidas. Quase instantaneamente, Maurito virou uma das principais referências ofensivas da equipe comandada por Delio Rossi, ao lado do capitão Tommaso Rocchi e de Goran Pandev e Stefano Mauri.
O atacante agregava ao time capitolino características importantes: improvisação, capacidade para romper defesas com dribles curtos e eficiência nos chutes de média distância, inclusive em cobranças de falta. Seu futebol rapidamente conquistou a torcida biancoceleste. Zárate jogava com liberdade, buscando a bola em diferentes setores do campo e conduzindo boa parte das ações ofensivas, formando um poderoso tridente com Mauri e Pandev, frequentemente em suporte a Rocchi – mas não apenas. Quando jogava como ponta esquerda, constantemente centralizava suas movimentações, aproximando-se da área para finalizar ou servir os companheiros. Maurito fazia algo parecido quando atuava numa dupla de ataque, sempre forçando a abertura de espaços nas zagas rivais através de jogadas individuais. Naqueles tempos, qualquer posse da pelota em seus pés representava uma ameaça.
Vestindo a camisa 10 biancoceleste, o argentino conquistou dois títulos em sua primeira passagem por Roma (Getty)
O argentino também tinha personalidade. Zárate teve força mental para reagir num momento negativo, em que marcou apenas uma vez e forneceu duas assistências ao longo de 14 rodadas em meados da Serie A, guardando uma doppietta contra o Bologna. Poucas semanas depois, reafirmou sua fibra ao assumir o protagonismo em um jogos grande: anotou seu único gol num dérbi contra a Roma, contribuindo para a vitória por 4 a 2 – triunfo solitário no clássico durante sua militância pela Lazio.
Em 2008-09, Mauro foi o artilheiro da Lazio tanto na Serie A, com 13 gols, quanto somando todas as competições, com 16, além de dividir com Cristian Ledesma o posto de jogador mais utilizado do elenco – 41 aparições, sendo 36 no campeonato. Era um protagonismo incomum para um jogador tão jovem (afinal, concluiu a campanha com 22 anos) e que ainda encarava seus primeiros meses no futebol italiano. Embora a equipe tenha encerrado o certame apenas na décima colocação, Zárate, contratado em definitivo antes mesmo de o certame se encerrar, foi um dos principais responsáveis por impedir que a temporada terminasse sem conquistas.
Na Coppa Italia, o atacante voltou a aparecer nos momentos decisivos. Depois de contribuir ao longo da campanha, abriu o placar da final contra a Sampdoria e ainda converteu uma das cobranças na disputa por pênaltis que garantiu o título à agremiação romana. A conquista teve um significado especial para a Lazio: além de assegurar uma vaga na Liga Europa, representou o primeiro troféu conquistado durante a gestão do presidente Claudio Lotito, iniciada cinco anos antes. Aplacando a campanha mediana na Serie A, o título nacional deu novo fôlego ao projeto do clube, e o bonairense se convertia num dos principais nomes dos aquilotti. Afeiçoada ao jogador, a torcida biancoceleste logo arranjou-lhe um apelido: Zárate Kid, num trocadilho com os filmes da franquia Karatê Kid.
Com a saída de Rossi e a chegada de Davide Ballardini para seu lugar, a Lazio perdeu rendimento ao longo da temporada – apesar de ter batido a Inter na Supercopa Italiana, na abertura da temporada 2009-10. A equipe capitolina foi eliminada ainda na fase de grupos da Liga Europa, caiu precocemente na Coppa Italia e passou boa parte da Serie A distante das posições que imaginava disputar. Pior, até frequentou a zona de rebaixamento, o que levou à demissão do treinador. Nem mesmo a troca de comando, com Edoardo Reja assumindo durante a competição, foi suficiente para transformar completamente o panorama de um ano bastante irregular, concluído num pífio 12º lugar.
O rendimento de Zárate acompanhou essa instabilidade coletiva. Maurito continuava sendo um jogador capaz de produzir lances decisivos e de desequilibrar partidas com seu talento, mas já não apresentava a mesma regularidade que encantara logo na chegada a Roma – não à toa, marcou apenas oito gols e contribuiu diretamente com outros sete ao longo de todo o ano. Ao mesmo tempo, começavam a surgir os primeiros relatos de dificuldades de convivência com treinadores e de problemas de comportamento que, aos poucos, passariam a acompanhá-lo. Naquela temporada, enquanto assistia a um jogo da Lazio contra o Bari ao lado de Renata Polverini, candidata ao governo do Lácio por uma coalizão de direita, foi pressionado por ultras a fazer uma saudação fascista e acabou sendo alvo de sanções disciplinares.
A partir de transferência malfadada para a Inter, a carreira de Zárate começou a degringolar (Getty)
Em 2010-11, as rusgas entre Zárate e Reja se intensificaram, o que levou o atacante a começar no banco de reservas e a ser punido com alguma frequência, por motivos tão diversos quanto discussões e atrasos para treinos. Ainda assim, a Lazio encontrou novamente um caminho competitivo: terminou a Serie A na quinta colocação e voltou a se classificar para a Liga Europa. A chegada de Hernanes ofereceu novas soluções ofensivas à equipe, e a parceria entre o brasileiro e o argentino produziu alguns dos melhores momentos daquele time. Maurito voltou a participar diretamente da campanha, marcou gols importantes (nove, no total), distribuiu assistências (sete) e demonstrou, em diversos momentos, que o talento permanecia intacto. Nos momentos de maior destaque, o hermano foi decisivo para triunfos sobre Chievo, Napoli, Inter, Cesena, Catania e Lecce.
O desempenho apresentado na Lazio fez com que Zárate passasse a ser visto como uma oportunidade de mercado para uma Inter que buscava se reinventar após o auge do ciclo de José Mourinho. O clube nerazzurro ainda se valia dos créditos pela conquista da Tríplice Coroa, mas já enfrentava dificuldades para manter o mesmo nível competitivo. Foi nesse contexto que o argentino chegou por empréstimo com opção de compra para a temporada 2011-12, cercado de expectativa e tratado como uma das principais apostas para renovar um setor ofensivo que também recebeu Diego Forlán e Ricky Álvarez, outro ex-Vélez Sarsfield.
Na prática, porém, nenhuma dessas apostas funcionou como se imaginava. A temporada da Inter foi marcada por instabilidade praticamente do início ao fim. Gian Piero Gasperini não resistiu aos maus resultados e deixou o cargo logo após a quarta rodada da Serie A. Claudio Ranieri assumiu na tentativa de reorganizar a equipe, mas também acabou demitido antes do encerramento do campeonato, dando lugar ao jovem Andrea Stramaccioni. A troca constante de treinadores refletia um ambiente turbulento, em que a equipe alternava bons momentos com atuações decepcionantes, acumulando eliminações precoces nas copas e terminando a Serie A apenas na sexta colocação.
Dentro desse cenário, Zárate jamais conseguiu se estabelecer: disputou 31 partidas, 15 como titular, e marcou três gols, incluindo um na Liga dos Campeões, contra o CSKA Moscou. Apesar de ter assinado um contrato de quatro anos, caso a aquisição em definitivo se concretizasse, nunca encontrou a sequência necessária para assumir protagonismo e foi visto pela torcida como um reserva pouco influente. Seu futebol continuava oferecendo lampejos da criatividade que encantara a torcida da Lazio, mas aparecia de forma cada vez mais esporádica e oscilante. A contratação, inicialmente vista como uma oportunidade para recuperar um dos atacantes mais talentosos do futebol italiano, terminou da mesma maneira que as chegadas de Álvarez e Forlán: sem produzir o impacto esperado.
Ao final da temporada, a Inter optou por não exercer o direito de compra, encerrando uma passagem que simbolizava, pela primeira vez, a distância entre a expectativa criada em torno de Zárate e aquilo que ele efetivamente conseguia entregar. O retorno à Lazio tampouco ofereceu a chance de reconstruir sua trajetória. O cenário no clube romano havia mudado, e o atacante já não ocupava o mesmo espaço de protagonista conquistado anos antes. Sob o comando de Vladimir Petkovic, participou apenas de maneira pontual do início da temporada 2012-13. Entrou em campo uma vez pela Serie A e quatro pela Liga Europa, sem conseguir ganhar a confiança da nova comissão técnica nem recuperar o prestígio que desfrutara junto à torcida.
O atacante não foi comprado pela Inter, voltou à Lazio e entrou em litígio judicial com a agremiação capitolina (Getty)
A ruptura tornou-se inevitável. Conflitos com o clube agravaram uma relação que já vinha se desgastando desde os últimos meses antes do empréstimo à Inter. Após recusar a convocação para o jogo contra a Inter, pela Serie A, o jogador acabou afastado e encerrou sua passagem por Roma com 126 partidas, 34 gols e 26 participações em tentos, mas de maneira melancólica. O contraste era evidente: aquele mesmo atacante que, poucos anos antes, havia sido um dos rostos da reconstrução da Lazio, terminava sua trajetória praticamente à margem de um elenco que ainda conquistaria a Coppa Italia e alcançaria as quartas de final da Liga Europa sem depender de sua contribuição. Pior: Zárate ainda seria derrotado pela agremiação na justiça. O argentino entrou com uma ação por assédio moral, mas não teve êxito. Em paralelo, os celestes o processaram por ter viajado às Maldivas enquanto alegava estar doente.
Ainda assim, Zárate acabaria levando a melhor no desfecho da disputa. Decidido a romper definitivamente com a Lazio, rescindiu unilateralmente seu contrato e acertou o retorno ao Vélez Sarsfield. O artigo 14 do Regulamento sobre o Estatuto e a Transferência de Jogadores da Fifa permitia a quebra do vínculo por justa causa em situações como aquela. Embora os aquilotti tenham exigido uma indenização de 6 milhões de euros, o Tribunal Arbitral do Esporte considerou válida a alegação do atacante, que permaneceu mais de 200 dias afastado dos treinamentos, em desacordo com as leis trabalhistas italianas. De volta ao clube que o revelou, Maurito reencontrou parte do futebol que o transformara em uma das maiores promessas do país e recuperou o protagonismo perdido.
Em sua segunda passagem pelo Vélez, Zárate retomou a confiança, participou das principais campanhas da equipe e terminou mais uma edição do Campeonato Argentino como artilheiro, com 13 gols, mostrando que seu talento ainda podia gerar impacto num ambiente mais favorável – ou, quem sabe, de menor exigência competitiva. Foi, de longe, o período mais consistente de sua carreira desde os grandes anos vividos na Lazio. Embora já não despertasse o mesmo fascínio que cercava seu nome alguns anos antes, Mauro demonstrava que ainda era capaz de liderar um ataque e fazer a diferença com a bola nos pés.
O problema é que esse renascimento duraria pouco. Assim como havia acontecido em outros momentos da carreira, a estabilidade rapidamente deu lugar a uma nova sequência de mudanças. A partir dali, Zárate voltaria a percorrer diferentes países e campeonatos tentando reencontrar o nível que alcançara em Roma e, por um breve período, também no Vélez. Nunca mais conseguiria sustentá-lo por tempo suficiente.
Em 2014, Zárate entrou em acordo para rescindir com o Vélez Sarsfield e acertou com o West Ham, da Premier League, iniciando uma nova tentativa de se firmar em uma das principais ligas do continente. Mais uma vez, porém, o roteiro se repetiu. No clube londrino, não conseguiu conquistar regularidade e nem de longe fez por merecer a camisa 10. A concorrência no elenco, as frequentes oscilações de desempenho e a dificuldade para manter uma sequência de boas partidas impediram que se transformasse em peça indispensável da equipe. Em janeiro de 2015, acabou emprestado ao Queens Park Rangers, se mantendo na mesma cidade e reeditando a passagem breve e discreta que teve nos Hammers. Sua contribuição ao lanterna do campeonato foi praticamente nula e, logo, insuficiente para alterar o rumo de sua carreira na Inglaterra.
Em nova experiência no futebol italiano, Zárate teve apenas lampejos pela Fiorentina (Getty)
Zárate retornou ao West Ham após o empréstimo e, beneficiado pela saída de Sam Allardyce e a chegada de Slaven Bilic, ficou no clube. Usado pelo croata como segundo atacante e ponta tanto pelo lado direito quanto pelo esquerdo, o argentino chegou até a marcar nas vitórias nos clássicos londrinos com Arsenal e Chelsea, dando sobrevida a sua carreira. Assim, em janeiro de 2016, viu o prestígio que conservava na Itália falar mais alto.
Àquela altura, a Fiorentina buscava um substituto para Giuseppe Rossi, negociado com o Levante, e decidiu apostar em Maurito para reforçar o ataque durante a segunda metade da temporada. O diretor esportivo Daniele Pradè, em confluência com o técnico Paulo Sousa, enxergava o atacante de quase 29 anos como um jogador experiente, tecnicamente diferenciado e capaz de oferecer alternativas à Viola na reta decisiva da campanha. Assim, os gigliati investiram 2 milhões de euros em sua aquisição. Foi sua última passagem realmente relevante pelo futebol italiano.
Sem recuperar o brilho que exibira em Roma, conseguiu oferecer uma contribuição razoável naquele primeiro semestre, apesar de uma expulsão por cartão vermelho direto contra a Inter, por discussão com Jeison Murillo, que o tirou de ação por três rodadas. Com três gols e duas assistências, ajudou a Fiorentina a terminar a Serie A na quinta colocação. Na temporada seguinte, entretanto, voltou a evidenciar o problema que marcaria a reta final de sua carreira. Paulo Sousa passou a utilizá-lo cada vez menos, restringindo sua participação principalmente aos minutos finais das partidas.
Em 2016-17, chegou a acionar a lei do ex contra a Lazio e provocou a torcida celeste, mas sua equipe saiu do Olímpico derrotada. Também anotou uma doppietta diante do Qarabag pela Liga Europa. Porém, esses foram lampejos. O argentino perdeu espaço de forma definitiva e deixou Florença em janeiro, após sete tentos e três assistências em 26 aparições pela Fiorentina ao longo de um ano.
A partir daí, a carreira de Zárate assumiu definitivamente o perfil de um verdadeiro cigano da bola. Passou por Watford, onde uma grave lesão no joelho interrompeu precocemente sua passagem, voltou ao Oriente Médio para defender o Al-Nasr, então comandado pelo italiano Cesare Prandelli, e, depois, retornou novamente ao Vélez. Em casa, conseguiu produzir seus últimos momentos realmente relevantes como jogador, voltando a desempenhar papel importante na equipe e demonstrando que, quando encontrava estabilidade, ainda era capaz de atuar em nível satisfatório.
No ocaso de sua carreira, o atacante argentino disputou a Serie B e sofreu séria lesão no joelho (Arquivo/Cosenza Calcio)
Essa boa fase acabou abrindo as portas do Boca Juniors, transferência que provocou enorme desgaste com a torcida do Vélez – afinal, Mauro afirmara que não defenderia outro clube na Argentina e não cumpriu com suas palavras. Dentro de campo, Zárate foi coadjuvante de conquistas nacionais e integrou o elenco vice-campeão da Copa Libertadores de 2018. Ele era um jogador experiente, útil em determinados momentos, mas já distante daquele atacante explosivo que havia encantado a Itália anos antes.
Os últimos capítulos da carreira foram marcados por passagens cada vez mais curtas. Tentou uma experiência inédita no futebol brasileiro, primeiro pelo América Mineiro, na Série A, e depois pelo Juventude, na B, mas não conseguiu deixar uma marca significativa em nenhum dos dois clubes – atuou pouquíssimo por ambos, aliás; 16 vezes pelo Coelho e somente três pelo Ju. Zárate retornou à Argentina para defender o Platense e, em 2023, ainda teve uma derradeira oportunidade de voltar ao país onde viveu o auge de sua carreira.
O destino foi o Cosenza, da Serie B. A expectativa de um reencontro simbólico com o futebol italiano, que o projetara para o mundo mais de uma década antes, acabou durando muito pouco. Utilizado em apenas três partidas, sofreu uma grave lesão no joelho e praticamente não participou da campanha em que o clube lutou contra o rebaixamento, garantindo a permanência apenas após o playout. Foi uma passagem sem qualquer impacto esportivo, encerrando de forma discreta sua história no futebol italiano. Os calabreses até lhe ofereceram a renovação contratual, mas o argentino declinou.
Depois disso, ainda vestiu a camisa do Danubio, no Uruguai, antes de pendurar as chuteiras – o anúncio oficial viria somente em janeiro de 2025, com 37 anos, após mais de 12 meses sem clube. Acabava, sem brilho, a trajetória do garoto que surgira como uma das grandes promessas do futebol argentino; que fora campeão mundial sub-20 e protagonista de uma equipe tradicional da Serie A. Mas que jamais conseguiu transformar aquele talento extraordinário em uma trajetória de alto nível sustentada por muito tempo, para além de um momento muito bem definido entre suas passagens por Vélez e Lazio, que antecedeu sua peregrinação pelo mundo da bola. Jamais ter defendido oficialmente a seleção principal de seu país talvez seja o retrato mais eloquente do enorme potencial desperdiçado por Zárate ao longo da carreira que construiu.
Mauro Matías Zárate Riga Nascimento: 18 de março de 1987, em Haedo, Argentina Posição: atacante Clubes: Vélez Sarsfield (2003-07, 2013-14 e 2018), Al-Sadd (2007-08), Birmingham (2008), Lazio (2008-11 e 2012-13), Inter (2011-12), West Ham (2014-15 e 2015-16), Queens Park Rangers (2015), Fiorentina (2016-17), Watford (2017), Al-Nasr (2017-18), Boca Juniors (2018-21), América Mineiro (2021), Juventude (2022), Platense (2022), Cosenza (2023) e Danubio (2023) Títulos: Campeonato Argentino (2005, Clausura, e 2020), Copa do Mundo Sub-20 (2007), Coppa Italia (2009 e 2013), Supercopa Italiana (2009), Supercopa Argentina (2013 e 2018), Copa da Argentina (2020) e Copa Diego Armando Maradona (2020)







































