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·29 Juni 2026

Técnico do Corinthians Sub-17 explica metodologia baseada no jogo funcional e defende liberdade para os atletas

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  1. Por Mirella Ramos / Redação da Central do Timão

O técnico Guilherme Nascimento, comandante da equipe Sub-17 do Corinthians, detalhou a metodologia utilizada no desenvolvimento dos jovens atletas do clube. Em entrevista ao canal Ponto Futuro, publicada no último domingo (28), o treinador explicou como aplica os conceitos do chamado jogo funcional, destacando que sua prioridade é estimular a tomada de decisão dos jogadores sem impor comportamentos rígidos dentro de campo.

Segundo Guilherme, muitos movimentos coletivos que costumam ser associados a treinamentos específicos surgem de forma espontânea quando a equipe compreende princípios gerais relacionados à aproximação entre os jogadores e à ocupação dos espaços.


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Foto: Carlos Freitas

Ao explicar esse conceito, o treinador afirmou que passou a perceber, ao longo da própria experiência, que essas dinâmicas aparecem naturalmente quando o trabalho é conduzido de forma adequada.

“Foi uma coisa que eu disse: tá, isso a gente treina de forma intencional, coloca de forma explícita, ou isso vai emergir das próprias aproximações que a gente vai fazer? Eu fui percebendo com a minha prática que muito dessas dinâmicas acontecem por uma dinâmica macro, que é a dinâmica da aproximação e de gerar movimento no núcleo da bola. E aí, quando você tira uma foto da jogada, vê um take da imagem, você vê os caras diagonais fazendo a tal da escadinha e tudo mais.”

Na sequência, o treinador comentou o principal desafio para quem trabalha com esse modelo de jogo. Para ele, existe um risco de transformar o jogo funcional em um sistema tão rígido quanto outros modelos táticos, retirando a autonomia dos atletas.

“A gente quer aproximação, mas, se a gente fizer isso de forma impositiva, a gente não está fazendo a mesma coisa que outros técnicos? Que é se sobrepor ao jogador, à subjetividade, para fazer alguma coisa ideal? Esse é o dilema para mim, é o ponto central de fato: como aplicar, como não ser idealista e impositivo, ter um futebol modelo pronto igual aos caras.”

Para evitar esse problema, Guilherme explicou que prefere permitir que os jogadores encontrem soluções coletivas antes de realizar intervenções mais diretas. Segundo ele, o desenvolvimento começa pelas interações entre poucos atletas antes de chegar ao trabalho coletivo.

“Hoje está muito claro para mim: é deixar acontecer. A gente, num primeiro momento, deixa o coletivo se expor e deixa ele trazer algumas coisas que são inerentes da forma com que eles interagem. A minha ideia sempre é, em um primeiro momento do trabalho, entregar algum conceito macro para os caras, sobretudo de desenvolvimento individual e desenvolvimento das interações. Eu e você contra um adversário, dois para um, três para dois, dois para dois. Se interage perto, você cria vantagem a partir dessas interações. E é óbvio que a gente vai dando algumas pistas.”

Ainda sobre esse processo, o treinador afirmou que a criação constante de superioridade numérica serve como base para aprimorar a tomada de decisão dos jogadores durante as partidas.

“Quando você aproxima, vai gerando vários dois para um momentâneos. O zagueiro está com a bola, o atacante começa a pressionar, o volante vem e dá uma abaixada, você joga um dois para um. Então, no princípio do trabalho, a gente explora muito esse treino dessa forma, para as interações micro ficarem afinadas. Eu estou com a bola, o cara vem e me marca, qual é a decisão instantânea? Eu vou driblar, vou para o confronto, vou transformar esse duelo de dois para um ou vou passar para você, que está livre? A gente vai afinando essas interações.”

Depois que o grupo passa por esse processo inicial, Guilherme explicou que o trabalho coletivo passa a ser guiado por apenas três princípios gerais, deixando que o restante seja desenvolvido naturalmente pelos próprios atletas.

“A partir do momento que os caras se expõem, vão se auto-organizar e vão perceber neles os atratores mais relevantes, coisas que eles gostam de fazer. E aí a gente, enquanto treinador, percebe o que faz sentido e vai dar critério. Na parte coletiva, eu passo três macroprincípios para os caras: vamos estar próximos, vamos nos mover muito, sair das posições e vamos buscar progressão. Todo momento que a gente tiver a oportunidade de andar para frente, nós vamos andar para frente. Só esses três. Disso vai gerar uma enormidade de microconceitos.”

O comandante corinthiano também defendeu que padrões de jogo não devem ser definidos previamente. Em sua visão, eles surgem como consequência do desenvolvimento coletivo e permitem maior capacidade de adaptação durante as partidas.

“Esquece padrão. A gente não sai da sala da comissão técnica com um padrão a alcançar. Agora, naturalmente, por uma normalidade de funcionamento de sistemas, a equipe chega a um padrão. Mas qual é o benefício disso? Porque, se o adversário constranger esse padrão, os caras alteram. E por que alteram? Porque não veio rígido. Tem vários vídeos da seleção argentina contra a Áustria, jogo recente da Copa do Mundo, que é muito isso. Ela veio para pressionar e os caras foram se reajustando o tempo todo, quebrando pressão, porque não tinha padrão.”

Ao explicar seu papel como treinador, Guilherme utilizou a metáfora de um rio para ilustrar que o trabalho da comissão técnica consiste em orientar os jogadores, mas sem determinar exatamente o caminho que cada jogada deve seguir.

“O rio vai chegar no mar. Agora, se ele vai passar debaixo de um tronco que está caído ou por cima, vai dar a volta na pedra, eu não sei. A gente vai dar só a orientação, para não virar, para não sair por dentro. Agora, se os meninos vão passar debaixo do tronco, por cima do tronco, vão dar a volta na pedra, a gente vai aqui cercando, porque daqui a pouco tem algumas coisas que não fazem sentido. Não é uma pelada. É bom quando eles estão com a personalidade de estar jogando na pelada, mas não é. Tem responsabilidade, então é óbvio que a gente vem controlando.”

Por fim, o treinador explicou que a estrutura tática utilizada em suas equipes é definida de acordo com as características dos atletas disponíveis e citou exemplos de trabalhos anteriores para ilustrar essa escolha.

“O meu ponto é a característica do jogador. Por exemplo, o meu time no Athletico-PR, eu partia de um 4-2-4. Era um time de mais força, galopava para frente com muita agressividade. No Corinthians agora, a gente já parte de um 4-2-3-1. A estrutura, para mim, parte da característica do jogador”, finalizou.

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