Tem 195 jogos na liga inglesa e escondeu a sua homossexualidade: «Ouvia coisas feias...» | OneFootball

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·18 Maret 2026

Tem 195 jogos na liga inglesa e escondeu a sua homossexualidade: «Ouvia coisas feias...»

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O homem passava os dias naquele banco. Segurava um laptop, bebericava um copo de vinho, lia livros e jornais. Expressão fechada, taciturna. O olhar não largava o computador, protegia assim a intimidade, a curiosidade de quem passava. 

Atrás dele, a fachada decrépita do Holloway Motel. Abrigo de almas exóticas, viajantes aventureiros, gente em busca do apaziguamento. West Hollywood, Los Angeles. 


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O ar rezingão, indisponível, intriga quem passa. Afasta a curiosidade, assusta até os mais sensíveis. Para o realizador Ramiel Petros, porém, a curiosidade é o mais importante. Sempre em busca de uma boa história, decide meter conversa com o septuagenário. 

Quem é o senhor e o que faz aqui, sempre sozinho?, pergunta-lhe, ainda sem saber que a resposta o levará a filmar o documentário The Last Guest of the Holloway Motel [O Último Hóspede do Motel Holloway].

«O meu nome é Tony Powell, tenho 78 anos e fui futebolista profissional em Inglaterra. Em 1981 abandonei a minha mulher e as minhas duas filhas, fugi para os EUA.»

A resposta deixa Petros estarrecido. Que linha de vida poderia conduzir um antigo jogador de futebol àquele banco escuro, naquela zona tão típica de LA? E que razões possíveis, e humanamente suportáveis, levariam um homem a deixar para trás as que mais amava? 

«Tinha um segredo horrível sobre mim. Não consegui contar-lhes a verdade, falar-lhes da minha homossexualidade. Era impossível ser gay num balneário de futebol nos 80s. Fugi para poder viver.» 

«Não podia falar com ninguém sobre mim»

O encontro absolutamente casual entre Powell e Petros é narrado nas primeiras pessoas ao The Guardian. Em 2026, já não há nada a esconder, já não há motivos para guardar segredos. 

«Está a ver este motel aqui atrás? Fui o gerente dele durante 25 anos, até fechar em setembro [de 2025]», conta o antigo defesa, jogador do ano do histórico Norwich em 1979. 

Entre 1974 e 1981, Powell soma 195 jogos pelos Canaries na First Division, predecessora da Premier League. É em Norwich, de resto, que partilha o balneário com o saudoso Justin Fashanu, o primeiro futebolista profissional a assumir a homossexualidade. 

«Era um excelente futebolista e um tipo fantástico», anuncia Tony, ao lembrar esses dias de tortura num balneário carregado de testosterona. «Eu sabia que ele era gay, mas o Justin não queria falar sobre isso. Sabia que a carreira dele terminaria no momento em que ele se assumisse publicamente.» 

Ao assistir ao drama de Fashanu, Tony Powell antecipou o seu próprio. «Ouvia coisas feias. Sentia que não podia falar com ninguém sobre mim. Foi duro.» 

«Ao chegar aos EUA, senti-me livre»

Reprimido, revoltado e incompreendido, Tony Powell larga tudo em Inglaterra e parte em secretismo para os Estados Unidos. Durante 35 anos, até 2016, a família desconhece-lhe o paradeiro. 

«Convenci-me de que a minha família e amigos me abandonariam se soubessem da minha sexualidade», conta Tony, perto do Holloway Motel. «Ao chegar aos EUA, senti-me livre de várias formas.»

Até 1984, Powell joga nos San Jose Earthquakes e nos Seattle Sounders. Mas é em LA que escolhe viver, passar o resto da vida. 

«Vim para West Hollywood para me sentir seguro. Aqui podia viver livremente, ser quem realmente era, sem ser perseguido e atormentado.» 

É assim que conhece o agora famoso, embora encerrado, Holloway Motel. Torna-se gerente do espaço e o seu último ocupante. O último hóspede. 

A sua história estaria condenada ao anonimato, não fosse a curiosidade de Ramiel Petros. O documentário, construído a meias com Nick Freeman, está pronto a estrear. 

A catarse de Tony Powell está completa. Durante as filmagens, a equipa de produção reuniu-o com as duas irmãs e o irmão em Inglaterra. As filhas, ainda a gerir o choque relativo à perda do pai, optaram por não falar em frente às câmaras. Mas fizeram-no de forma discreta. 

«Elas aceitaram-me. Foi ótimo. O nosso amor continuava ali, vivo, apesar de tudo o que as fiz passar», desabafa Tony Powell. 

O produtor da película é Robbie Rogers, ele próprio homossexual e ex-futebolista. «O filme é lindo e até tem o testemunho de antigos colegas de equipa do Tony.»

E como era em campo, afinal, o eterno gerente do Holloway Motel? 

«Era duro como uma rocha, tinha coragem e compromisso», recorda Mick McGuire, um dos camaradas dos 70s. 

A estreia mundial de The Last Guest of Holloway Motel está agendada para o dia 22 de março. Este é o trailer oficial. 

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