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·16 Juli 2026
Vilanovense FC despede-se do Parque Soares dos Reis, estádio com mais de 100 anos: «Sinto-me destroçado»

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·16 Juli 2026

Os adeptos de futebol sabem-no: um recinto desportivo também pode ser casa. Ali, gerações e gerações de famílias partilham momentos que trazem ao de cima vários estados de espírito: a euforia de uma vitória importante, o silêncio mortífero de uma derrota ou o abraço que um pai, tremendamente orgulhoso, dá ao filho após o apito final.
O Parque de Jogos Soares dos Reis, até aqui casa do Vilanovense FC, viu tudo isto: partidas da formação, jogos da II Divisão Nacional, III, III B, Taça de Portugal... são 103 anos com muito por contar - as 40 presenças em campeonatos nacionais tornam este clube o mais representativo de Vila Nova de Gaia.
Agora, a realidade é totalmente diferente. A equipa de Vila Nova de Gaia foi despejada deste mítico estádio, isto porque o reduto, desde a sua fundação, nunca foi realmente detido pelo clube. O 'Vila' teve de entregar as chaves do estádio nesta quinta-feira; no entanto, no dia anterior, organizou uma cerimónia de despedida na qual o zerozero esteve presente. Uma coisa é certa: a paixão que une os adeptos está bem viva.
Iniciamos precisamente pelos adeptos vilanovenses. O lema é claro: 'Enquanto houver um Gaiense, o Vilanovense não morre'. Foi isso mesmo que se pôde sentir neste tributo ao Parque de Jogos Soares dos Reis. As pessoas estiveram presentes. E do que é que os clubes são realmente feitos? Muito antes dos troféus ou da glória, têm de existir pessoas com vontade de levantar a obra.
Se alguém se encaminhou para aquela homenagem com expectativa de ver um ambiente fúnebre, não foi nada disso que encontrou. A desconfiança era muita, isso é certo, mas o ambiente de esperança também se fez notar. Claro, por que razão haveria alguém de marcar presença num evento como este, senão para começar já a pensar no futuro?
As pessoas estiveram presentes, a primeira pedra está colocada. O início de cerimónia estava marcado para as 21h, mas chegámos um pouco antes, de modo a analisar o estado de espírito dos fiéis que já por lá se encontravam uma hora antes do arranque.
Por lá encontrámos Pedro Oliveira, antigo atleta do clube que vestiu a camisola durante nove temporadas consecutivas, chegando mesmo a ser capitão.
«Construímos grandes amizades aqui, conquistámos grandes vitórias. Inclusive duas subidas de divisão. Passámos grandes momentos. Tenho o meu filho a jogar aqui há dois anos», disse o ex-jogador, que ainda atua pelos veteranos do Vilanovense.
Manuel Lopes, que se identifica como sendo associado do clube há 50 anos, traz recordações de tempos ainda mais áureos.
«Uma vez vi aqui um jogo da Taça de Portugal em que ganhámos no prolongamento, onde o Vital faz um grande jogo. Foi contra o Lusitânia de Lourosa e ficou 4-2. Foi um dos jogos da minha vida.»
Com uma simpatia muito característica do ambiente distritaleiro, fomos, também, abordados por Manuel Castro. Primeiro, em tom humorístico, pediu que lhe tirássemos uma foto em que ficasse «bonito», mas, uma vez que recebeu o microfone do zerozero, assumiu uma postura séria para falar da instituição que ama.
E não é que nos deparámos com alguém que viveu e respirou Vilanovense?: «Conheço este campo palmo a palmo. Fui técnico de relva no tempo em que o Hulk era miúdo e treinava aqui. Foi quando o clube jogou na II Divisão. Era relvado natural naquela altura.»
É impossível fugir aos sentimentos. Quase dava para ler a mentes das pessoas através do semblante de cada um. Olhar para cada canto do Parque de Jogos Soares do Reis trazia uma lembrança.
O antigo tratador de relva, sócio há 35 anos, não teve medo de exprimir o que ali sentia.
«Sentimentos? Só não chora quem não tem coração. Hoje sinto-me destroçado porque as direções que o Vilanovense teve não souberam levar o clube a bom porto. Dói-me muito o que aconteceu ao Vilanovense FC», vincou. Ainda assim, não foi o único a expressar tristeza por toda a situação:
«Tantos anos vi este clube quase a jogar para subir à I Divisão, jogar na Taça de Portugal… um clube eclético, recheado de modalidades diferentes e agora, infelizmente, nem uma bancada tinha. Não trabalharam o suficiente para os clubes e isto chegou a este ponto. Queríamos ir a uma casa de banho e não havia... não existiam mesmo condições», referiu Manuel Lopes.
Pedro Oliveira, ainda que exprimindo alguma tristeza, já só tem olhos para o próximo passo: «Sente-se uma tristeza muito grande. No fundo, os momentos que aqui passámos ficam connosco. Claro que tudo isto vai deixar saudade, mas o caminho só pode ser para a frente. As memórias ficam connosco, o Vila continua, tem de continuar, tem de seguir.»
Na hora da despedida, Bruno Cardoso, atual presidente da Comissão Administrativa que discursava na cerimónia, deixou uma clara garantia.
«Há momentos em que as palavras custam a sair e este é um deles. Homenageamos um lugar que, durante mais de um século, foi casa do Vilanovense FC. Despedimo-nos do Soares dos Reis, mas não nos despedimos do Vilanovense FC!»
A resposta é incerta, ainda para mais depois de o Vilanovense FC ter descido desceu, na temporada passada, à Divisão de Honra da AF Porto. A segunda descida seguida. O contexto é tudo menos favorável. O atual presidente explicou que o futuro está a ser assegurado:
«Na próxima temporada, vamos repartir presença entre o Estádio Municipal da Lavandeira, para os seniores, e o Centro Municipal de Formação Rui Jorge, mais para os jovens.»
Oliveira do Douro será, portanto, a casa temporária, decisão que não satisfaz Manuel Lopes:
«Todos os clubes de Gaia têm boas instalações e o Vilanovense não. Por que será? Se calhar a Câmara de Gaia também tem ajudado pouco. Há clubes que até estádios oferecidos têm. Tenho muito receio do futuro. Não temos estádio, vamos ter o quê?»
A pergunta é, realmente, válida. Será possível levantar um clube que não tem estádio? O SC Salgueiros, um histórico do futebol português, anda há décadas de 'casa às costas' e não consegue voltar aos patamares que anteriormente conseguia atingir.
Por sua vez, Manuel Castro questionou as atitudes de Câmara Municipal de Gaia: «Vi uma entrevista, neste mesmo estádio, do Dr. Luís Filipe Menezes, na primeira passagem pela CM de Gaia, em que ele disse que o clube não saía daqui nos próximos 40 anos. Entretanto tivemos outro presidente na Câmara, agora ele voltou e vamos embora...»
Passados 103 anos, o emblema gaiense deixou de poder usufruir do seu estádio. O que mudou aqui? A explicação surgiu por parte de Bruno Cardoso, logo após o emocionado discurso frente ao vilanovenses.
«O clube está aqui desde 1923 em regime de aluguer. Na década de 90, o clube comprou metade do terreno, mas, por várias circunstâncias, a escritura nunca foi feita, sendo que o objetivo era comprar a totalidade do mesmo», referiu, indo mais longe:
«Os proprietários deste terreno, sendo que a escritura não foi efetivada, colocaram um processo em tribunal, perdem na primeira e segunda instância, mas na terceira o clube perde. Os donos chegam a devolver o dinheiro investido na altura e o Vilanovense perde o direito ao estádio, tendo de fazer um contrato de arrendamento, neste caso da totalidade do recinto.»
António Coelho, que foi presidente nos últimos 12 anos, também foi contacto pelo nosso portal, mas, para já, ainda não operou resposta. Por isso mesmo, socorremo-nos de um comunicado efetuado pelo mesmo nas redes sociais. O antigo dirigente máximo, que apresentou demissão a 26 de abril, foi ainda mais a fundo na questão:
«O Vilanovense esteve cerca de um ano sem contrato porque a Câmara Municipal não assumiu as rendas que vinham de trás. Nestas condições, nunca poderia assinar um contrato que obrigava o clube a suportar uma renda de 7.500 € por mês, valor manifestamente incomportável», mas não se ficou por aqui:
«Estivemos um ano sem contrato, por isso a ação de despejo chegou em abril. Os proprietários venderam o terreno a um fundo de investimento belga, com escritura marcada para agosto de 2026. Pedi que fosse concedido todo o mês de julho, para permitir a mudança gradual e tal foi aceite, com o compromisso de entregar as chaves no dia 1 de agosto. Entretanto, após a mudança da direção do clube, os proprietários recuaram no entendimento que havia sido alcançado telefonicamente.»
Questionado pelo zerozero, Bruno Cardoso foi perentório sobre a finalidade daquele espaço: «Penso que o terreno vai mesmo ser usado para construção. Não sei grandes pormenores, mas prevejo que o destino seja esse.»
Permita-nos o tom ligeiramente parcial, caro leitor. Não há luxo, investimento ou valor monetário que apague o legado de memórias construído naquele espaço. O Parque de Jogos Soares dos Reis deixará de existir em betão, mas viverá para sempre na memória de todos os que o sentiram.
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