Calciopédia
·27 gennaio 2026
A Juventus detonou o Monaco de Kylian Mbappé e avançou à final europeia de 2016-17

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Entre o fim de uma era e o anúncio barulhento de uma nova, a semifinal da Champions League de 2016-17 colocou frente a frente dois símbolos de tempos opostos. De um lado, Gianluigi Buffon, guardião de uma Juventus madura, calejada e obcecada pela Europa; do outro, Kylian Mbappé, um adolescente que começava sua trajetória explosiva no Monaco. O duelo entre experiência e juventude atravessou os 180 minutos como condutor do fio narrativo do duelo, mas foi o veterano – amparada por uma equipe fria, letal e plenamente consciente de seus meios – que prevaleceu sobre o ímpeto do time do prodígio. A Vecchia Signora avançou à final europeia ao derrotar os monegascos duas vezes nas semifinais, encerrando a eliminatória com um autoritário 4 a 1 no placar agregado e ratificando o peso de uma campanha continental que parecia construída para levá-la até a tão desejada taça da competição.
Naquele abril de 2017, a Juventus se encontrava em posição singular. Dominante no cenário doméstico, empilhava títulos com naturalidade: estava prestes a celebrar o hexacampeonato consecutivo na Serie A e um tri seguido na Coppa Italia e, para completar, já abocanhara três edições de Supercopa Italiana em seis temporadas; um conjunto que compôs a maior hegemonia da história do futebol da Bota. O que faltava era a Europa. Em 2015, a vitória na final contra o Barcelona do trio MSN era vista como improvável, mas, dois anos depois, a sensação era distinta. A Velha Senhora não apenas almejava voltar à decisão: se sentia candidata real ao título e à tríplice coroa, feito até então exclusivo da Inter de 2009-10. A campanha dos bianconeri sustentava essa ambição.
Invicta na Champions League, a Juventus liderara o Grupo H, superando Sevilla, Lyon e Dinamo Zagreb, e atravessara o mata-mata com autoridade crescente. Passou pelo Porto nas oitavas sem sofrer gols, atropelou o Barcelona de Lionel Messi, Luis Suárez e Neymar nas quartas – promovendo a aguardada revanche de Berlim – e chegou às semifinais para reencontrar o Monaco, adversário que lhe trazia boas memórias em seu histórico europeu. O duelo representava a reedição da semifinal de 1997-98 e, mais recentemente, do confronto de quartas de 2014-15. E um dado curioso podia ser enxergado como alvissareiro presságio: sempre que a Juve encontrara os monegascos na Champions League, avançara até a final.
O Monaco de Leonardo Jardim, porém, não era um figurante. Chegou à Champions League como terceiro colocado da Ligue 1 em 2015-16, superou o Villarreal nos playoffs com duas vitórias e um agregado de 3 a 1, e liderou o Grupo E, com 11 pontos, ficando à frente de Bayer Leverkusen (10), Tottenham (7) e CSKA Moscou (3). No mata-mata, protagonizou duelos frenéticos e cheios de gols, eliminando favoritos: ficou no 6 a 6 com o Manchester City, mas avançou por conta do gol qualificado (perdeu por 5 a 3 na Inglaterra, mas venceu por 3 a 1 em casa); em seguida, bateu o Borussia Dortmund duas vezes, construindo 6 a 3 no total da eliminatória. Ao atingirem as semifinais, os Rouge Et Blanc faziam sua melhor campanha desde o vice continental de 2003-04, quando perderam para o Porto, e uma das mais positivas de sua história.
Era necessário reconhecer que o Monaco erigiu uma temporada vibrante e ofensiva, impulsionada pela explosão de Mbappé, pela força de Radamel Falcao García e pelo dinamismo de um ótimo elenco, com nomes como Danijel Subasic, Kamil Glik, Andrea Raggi, Jemerson, Tiémoué Bakayoko, Fabinho, João Moutinho, Bernardo Silva e Thomas Lemar. Na Ligue 1, seria capaz de destronar o Paris Saint-Germain e ser campeão com uma vantagem de oito pontos. Em nível continental, o embate entre o prodígio francês e Buffon, separados por quase 21 anos, tornou-se o grande atrativo da semifinal antes mesmo de a bola rolar. Mas os jogos tratariam de mostrar que, em eliminatórias desse nível, os confrontos individuais raramente explicam tudo.
Higuaín voltou a marcar no mata-mata da Champions League e catapultou a Juventus à final (Getty)
No jogo de ida, no estádio Louis II, Massimiliano Allegri surpreendeu ao desenhar uma Juventus aparentemente cautelosa, mas cheia de sutilezas. Andrea Barzagli foi escalado como lateral-direito, Daniel Alves apareceu adiantado como meia pelo mesmo lado no 4-2-3-1, e Juan Cuadrado começou no banco. A lógica era dupla: neutralizar Djibril Sidibé e Lemar com marcação dobrada e, ao mesmo tempo, usar o flanco direito como principal via de saída em transições rápidas. Funcionou. O Monaco teve dificuldades para explorar seus corredores, enquanto a Juventus controlava o ritmo com inteligência.
O primeiro gol nasceu dessa leitura tática. Aos 29 minutos, a jogada começou no campo defensivo: Claudio Marchisio lançou Paulo Dybala, que, de primeira e com um toque de letra, desmontou a linha francesa. Daniel Alves – em tempos em que era apenas o Good Crazy e não enfrentava uma condenação, posteriormente anulada, por estupro – acelerou, trocou passes com Gonzalo Higuaín e devolveu de calcanhar, quebrando outra vez a marcação. O argentino finalizou da entrada da área, antes que Jemerson pudesse reagir e sem dar chances a Subasic. Era um golpe cirúrgico, que silenciava o ímpeto do Monaco e colocava a eliminatória nos trilhos desejados pela Juventus.
No segundo tempo, o roteiro se repetiu, mas coadjuvado pela pressão alta. Mais uma vez, Daniel Alves foi decisivo, ao roubar a posse de Bakayoko, tabelar com Dybala e perceber a movimentação de Higuaín nas costas de Glik. O brasileiro lançou com precisão para que o atacante se antecipasse ao goleiro e marcasse o segundo, aos 59 minutos. Sem dúvidas, foi um dos melhores jogos de Pipita pela Juve.
A Juventus ainda desperdiçou uma chance com Marchisio – em outro lance em que acossou o adversário, dessa vez Lemar – e manteve o controle absoluto da partida, protegida por um sistema defensivo que parecia impermeável. Barzagli, Leonardo Bonucci e Giorgio Chiellini, no auge do trio BBC, formavam o núcleo de um bloco quase intransponível, auxiliados por Alex Sandro, Daniel Alves e até Miralem Pjanic, sempre atento na recomposição.
Com doppietta sobre o Monaco, Pipita viveu uma de suas melhores partidas pela Juventus (Getty)
Mbappé tentou romper essa muralha com movimentação constante e arrancadas em diagonal, mas teve poucas oportunidades reais de finalização. Quando conseguiu, apenas na primeira chance do jogo, na etapa inicial, ao escorar cruzamento de Nabil Dirar, encontrou Buffon em noite inspirada. O capitão juventino defendeu a conclusão do jovem francês, venceu duelos diretos com ele e com Falcao García, salvou outra finalização do colombiano e, já no fim, produziu uma defesa espetacular em cabeçada de Valère Germain, evocando imagens de sua intervenção histórica contra Zinédine Zidane na final da Copa do Mundo de 2006. Ao apito final, o 2 a 0 foi um contundente manifesto de superioridade da Juve.
Os números reforçavam a impressão. Higuaín, finalmente decisivo, encerrava um jejum de sete jogos sem marcar em confrontos eliminatórios da Champions League. Daniel Alves, no mesmo dia em que superava Roberto Carlos e se tornava o brasileiro com mais partidas na competição (142 àquela altura), liderava o ranking de chances criadas naquela edição (27, no momento). A defesa seguia quase intocável, com apenas dois gols sofridos em toda a campanha, e Buffon alcançava a marca simbólica de 100 jogos no torneio com a segurança habitual.
Tudo indicava que o Monaco precisaria de algo próximo ao impossível em Turim, já que a Juventus nunca havia perdido uma eliminatória no torneio após vencer a partida de ida fora de casa. Para complicar mais ainda a situação dos Rouge et Blanc, havia 109 jogos que o time bianconero não era derrotado por dois gols de diferença em seu estádio – quatro anos, àquela altura. Jardim, Falcao García, Mbappé e companhia teriam que produzir um milagre.
A confirmação da classificação italiana veio uma semana depois, no Juventus Stadium. A vantagem era confortável, mas Allegri tratou de não relaxar. A partida começou com imprevistos físicos: antes mesmo de a bola rolar, Dirar se lesionou no aquecimento, forçando Jardim a reorganizar sua linha defensiva com a entrada do lateral-esquerdo Benjamin Mendy e a passagem de Sidibé para o flanco direito; do lado juventino, Sami Khedira saiu lesionado aos 10 minutos, e Marchisio foi acionado. Ainda assim, a Vecchia Signora manteve o controle.
No jogo de volta, Daniel Alves e Mandzukic marcaram os gols de nova vitória da Juventus sobre os monegascos (Getty)
O primeiro tempo foi um duelo quase exclusivo entre Daniel Alves, sempre encontrando companheiros em posição de finalizar, e Subasic, que evitou um massacre. Dybala, Mandzukic e o próprio brasileiro criaram chances claras. Higuaín chegou a marcar, mas o gol foi corretamente anulado, e ainda tentou uma cavadinha que passou pelo arqueiro croata e foi cortada por Glik. Já Super Mario parou numa defesaça do seu compatriota e viu Mendy afastar o perigo na sobra.
A resistência monegasca caiu aos 33 minutos, quando Mandzukic, aproveitando o rebote de uma cabeçada potente de sua própria autoria, após cruzamento de Daniel Alves, abriu o placar. Era um bom presságio, pois os a Velha Senhora havia vencido, até aquele momento, os 21 jogos em que o atacante balançou as redes com a camisa bianconera – ao apito final, seriam 22; mas já adiantamos que a mágica seria quebrada na final.
O Monaco ainda tentou reagir em lances isolados: Falcao obrigou Buffon a uma grande defesa em jogada já invalidada por impedimento, Mendy cruzou rasteiro para Chiellini cortar no limite, tirando o doce da boca do centroavante colombiano, e Mbappé acertou a parte externa da trave num chute com pouco ângulo. Do outro lado, Dybala recebeu de Daniel Alves, que fez a pressão alta em Mendy, mas parou em Subasic.
Daniel Alves, novamente central, ampliou pouco antes do intervalo. Subasic afastou cobrança de escanteio de Dybala e bola chegou ao brasileiro, que, colocado na entrada da área, não esperou a sobra cair e emendou um chute de primeira, indefensável para o goleiro. Era o 2 a 0, e a semifinal praticamente se encerrava ali.
Talismã: até aquele momento, sempre que Mandzukic balançava as redes, a Juventus vencia (Getty)
No segundo tempo, Allegri diminuiu o ritmo, poupou Dybala, substituindo-o por Cuadrado aos 54 minutos, e administrou o jogo. Jardim tentou ajustar o time, espelhando o sistema juventino e promovendo alterações, mas sem efeito prático. Mbappé, ainda assim, conseguiu deixar sua marca. Após forçar Buffon a usar a perna para colocar sua finalização para escanteio, completou um cruzamento rasteiro de João Moutinho e descontou, encerrando uma sequência impressionante de 690 minutos da Juventus sem sofrer gols na competição.
O gol trouxe algum calor à partida. Houve discussões, entradas duras e um lance especialmente tenso envolvendo Glik – ex-Torino e anteriormente expulso em dois clássicos de Turim – e Higuaín, que gerou cartões e reclamações. Mandzukic respondeu com ímpeto excessivo e também foi advertido. Mas o desfecho não se alterou. A Juventus venceu por 2 a 1, fechou o agregado em 4 a 1 e confirmou a vaga na final de Cardiff, curiosamente repetindo o roteiro de 1998, quando eliminara o Monaco antes de decidir o título também contra o Real Madrid.
Em três anos, Allegri conduzia a Juventus à segunda final de Champions League, elevando o patamar de um projeto que já era dominante internamente. A aposta em Daniel Alves, a reinvenção de Mandzukic como atacante aberto e incansável na recomposição, a solidez de Bonucci, Chiellini e Buffon, o equilíbrio conferido por Pjanic e Khedira, o talento de Dybala e os gols de um Higuaín finalmente confiável em noites europeias formavam um conjunto que parecia maduro para a glória.
A final, no entanto, seria cruel. O 4 a 1 imposto pelo Real Madrid de Zidane surpreendeu e deixou um gosto amargo. A Juventus, quase perfeita ao longo da campanha, fraquejou justamente no último degrau – e nem mesmo o golaço de Mandzukic, com o peso simbólico que carregava, fez cócegas nos merengues. Diferentemente de 2015, quando a derrota para o Barcelona foi recebida como limite alcançado, a sensação agora era de oportunidade perdida. A defesa, vazada apenas três vezes até então, sofreu quatro gols em 90 minutos. O sonho do triplete ruiu, e Buffon viu escapar de novo o único título que jamais conquistaria. Mais uma vez, os bianconeri tiveram que se contentar com a dobradinha em nível nacional, como dois anos antes.
Ainda assim, a semifinal contra o Monaco permanece como um retrato fiel daquela Juventus: uma equipe fria, madura, letal nos momentos certos e capaz de neutralizar até a mais fulgurante promessa do continente. Entre Mbappé e Buffon, venceu o tempo longo da experiência – e, por duas noites, a Velha Senhora mostrou por que acreditava, com razão, que a principal taça da Europa enfim poderia voltar a lhe pertencer.
Monaco: Subasic; Dirar, Jemerson, Glik, Sidibé; Bernardo Silva (Touré), Fabinho, Bakayoko (João Moutinho), Lemar (Germain); Falcao García, Mbappé. Técnico: Leonardo Jardim. Juventus: Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini, Alex Sandro; Pjanic (Lemina), Marchisio (Rincón); Daniel Alves, Dybala, Mandzukic; Higuaín (Cuadrado). Técnico: Massimiliano Allegri. Gols: Higuaín (29′ e 59′) Árbitro: Antonio Mateu Lahoz (Espanha) Local e data: estádio Louis II, Mônaco (Principado de Mônaco), em 3 de maio de 2017
Juventus: Buffon; Barzagli (Benatia), Bonucci, Chiellini; Daniel Alves, Khedira (Marchisio), Pjanic, Alex Sandro; Dybala (Cuadrado); Higuaín, Mandzukic. Técnico: Massimiliano Allegri. Monaco: Subasic; Raggi, Glik, Jemerson; Sidibé, João Moutinho, Bakayoko (Germain), Mendy (Fabinho); Bernardo Silva (Lemar); Falcao García, Mbappé. Técnico: Leonardo Jardim. Gols: Mandzukic (33′) e Daniel Alves (44′); Mbappé (69′) Árbitro: Björn Kuipers (Países Baixos) Local e data: Juventus Stadium, Turim (Itália), em 9 de maio de 2017









































