Gazeta Esportiva.com
·23 marzo 2026
Antes da Copa do Mundo, pioneiras do futebol no México buscam driblar o esquecimento

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Há mais de meio século, um grupo de jovens jogadoras de futebol formou a seleção feminina do México. Enfrentando críticas, preconceitos e obstáculos, elas alcançaram um nível de sucesso que seus colegas do sexo masculino nunca chegaram sequer a igualar: um terceiro lugar em um controverso campeonato mundial em 1970, seguido por um segundo lugar apenas um ano depois.
Faltando menos de 100 dias para a Copa do Mundo masculina, que será sediada pelo México, Estados Unidos e Canadá, seus feitos permanecem oficialmente sem reconhecimento, tanto por parte da Federação Mexicana de Futebol quanto da Fifa.
O torneio de 1971 foi oficialmente classificado como uma competição amadora, e as jogadoras mexicanas foram posteriormente banidas pela federação após exigirem o pagamento de salários.
O futebol feminino no México começou a tomar forma em 1969, com a fundação da primeira liga do país, que serviu de base para a seleção nacional que disputou o primeiro torneio mundial, um evento com a participação de sete seleções realizado na Itália em 1970.
A primeira Copa do Mundo feminina oficialmente reconhecida pela Fifa só viria a acontecer mais de duas décadas depois, na China, em 1991.
As ‘Aztecas’, muitas das quais não haviam completado nem quinze anos, se destacaram ao conquistar um respeitável terceiro lugar, após serem derrotadas pela Itália nas semifinais.
No ano seguinte, o campeonato foi realizado novamente, desta vez tendo o México como país-sede e contando com a participação de seis seleções. Elas terminaram como vice-campeãs e lotaram o Estádio Azteca com 110.000 espectadores, segundo relatos daquela época.
A AFP conversou com três veteranas daquela histórica seleção sobre seus triunfos, os desafios que enfrentaram e a evolução do futebol feminino ao longo das últimas cinco décadas.
Alicia ‘La Pelé’ Vargas era a goleadora da equipe, considerada a terceira melhor jogadora da Concacaf do século XX, e a artilheira do torneio de 1970, realizado na Itália.
Hoje, aos 72 anos, ela recorda a atitude desdenhosa que enfrentaram ao viajar para aquele primeiro torneio, realizado apenas algumas semanas depois de Pelé ter conduzido o Brasil ao tricampeonato mundial, no México.
“Saiu na imprensa ‘México parte para a sua aventura’ em letrinhas pequenas, na página de esportes”, conta ela.
No entanto, a atenção da mídia, assim como a intensidade em campo, cresceu quando avançaram para as semifinais, em que elas foram derrotadas, segundo ela, devido a uma “arbitragem parcial” que marcou um pênalti duvidoso a favor das italianas.
No ano seguinte, veio a revanche em casa. Também na semifinal, a seleção mexicana saiu vitoriosa, deixando as ‘azzurre’ furiosas, ela recorda.
Enquanto aguardavam a final contra a Dinamarca, vazou para a imprensa um rumor de que as jogadoras da seleção mexicana exigiam dois milhões de pesos (aproximadamente 160 mil dólares na época, 844 mil reais na cotação atual), ou não entrariam em campo.
“Toda aquela situação atrapalhou nossos treinos (…) Acabou sendo a pior partida que jogamos. Foi repleta de erros. Cada uma tentava vencer a batalha por conta própria”, lamenta ela, recordando a derrota por 3 a 0 sofrida diante das dinamarquesas.
Sem receberem um salário oficial, elas se organizaram para solicitar doações aos torcedores que lotavam o Estádio Azteca e cada jogadora saiu com 21.000 pesos (cerca de US$ 1.680 da época, R$ 8.869,00 na cotação atual). No entanto, aquela partida também marcou o fim de sua passagem pela seleção nacional.
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María de Lourdes de la Rosa — ex-lateral-direita, hoje com 71 anos, recorda que elas eram taxadas de “prófugas del metate” (“fugitivas do metate”), um insulto sexista que faz referência à placa de pedra pré-hispânica usada para moer alimentos, tradicionalmente operada de joelhos.
“Diziam que o nosso lugar era em casa, lavando a louça e cuidando dos nossos irmãos”, lamenta ela.
Mas o golpe mais duro, em sua opinião, foi o desdém demonstrado pelas autoridades do futebol mexicano.
“A própria Federação nos renegou exatamente no momento em que disputávamos nossa última partida, a final do campeonato. Não representávamos o México. Não entrávamos em campo como a seleção nacional”, relembra com tristeza.
O futebol feminino mexicano estagnou, lamenta ela, numa época em que poderia ter crescido lado a lado com o dos Estados Unidos, a quem elas costumavam atropelar rotineiramente, com goleadas de dois dígitos.
Como resultado, acredita De la Rosa, “as meninas de hoje”, da atual geração mexicana, estão “apenas começando”, em vez de poderem construir sobre o impulso gerado por aquelas vice-campeãs e sua luta por reconhecimento.
Martha Coronado é mais uma defensora daquela lendária seleção nacional. Aos 71 anos, ela ainda lembra vividamente os preconceitos que enfrentou na juventude por entrar em campo em um mundo marcado pelo machismo.
“Foi profundamente inspirador para todas nós saber que éramos pioneiras, que abrimos caminho e nunca recuamos diante das adversidades”, observa ela, notando que um número crescente de mulheres pode ser encontrado agora não apenas nas arquibancadas, mas também em campo, chutando a bola.
Ela recorda com orgulho a vitória por 1 a 0 conquistada pela atual seleção feminina do México contra o Brasil, país-sede da Copa do Mundo de 2027, durante um amistoso disputado na capital em 7 de março, diante de um público de 25.000 torcedores.
“O México tem todas as chances de um dia ser campeão mundial”, diz ela, esperançosa.
*Conteúdo produzido pela AFP









































