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·19 febbraio 2026
Entre a Galiza e o calvário das lesões no Benfica: quem é Pauleta, novidade na Seleção Nacional?

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·19 febbraio 2026

A convocatória de Pauleta à Seleção Nacional é hoje encarada como um sinal de reconhecimento. Mas, para lá do futebol jogado, representa sobretudo a vitória de um corpo que passou anos em confronto consigo próprio.
Nascida em Redondela, na Galiza, Paula Domínguez Encinas começou a jogar futebol aos seis anos, entre rapazes, quando o sonho ainda não conhecia quaisquer limites. Foi no El Olivo, num contexto amador, com treinos noturnos e condições mínimas, que começou a construir a base competitiva que viria a sustentar toda a carreira.
«Treinávamos três vezes por semana, das 21 às 23 horas, em meio-campo, cada uma com a sua roupa», recordou, em declarações ao La Voz de Galicia em 2020.
O nome Pauleta surgiu como diminutivo e coincidência feliz, numa homenagem involuntária ao goleador açoriano que marcou uma era na seleção masculina portuguesa. O que ninguém previa era que, no feminino, esse nome viria a ser associado a um dos percursos mais resilientes do futebol português.
Desde muito cedo, Pauleta aprendeu que jogar futebol implicava lidar com a dor. Sofre de dermatite atópica, uma doença crónica da pele que a acompanha desde a infância. «As primeiras lembranças que tenho de mim é com dermatite, com dor e eczemas», contou em 2021, indo mais longe: «Percebi que tinha algo diferente com que tinha de viver. Não havia mais nada a fazer.»
Durante anos, a doença foi uma presença constante - invisível nos relvados, mas dominante fora deles. Na infância, o facto de jogar apenas com rapazes adiou a exposição do corpo marcado por feridas.
Aos 18 anos, Pauleta deu o primeiro grande salto da carreira e da vida. Saiu de casa e mudou-se para Portugal para representar o SC Braga. Em 2016/17, marcou 12 golos em 24 jogos, mas os números esconderam um período de grande sofrimento físico e emocional.
Longe da família, num novo país e ainda sem dominar o idioma, representou um choque pessoal e cultural. «Nunca tinha saído de casa. Ir para outro país com outra cultura e outro idioma, mesmo que seja perto, foi uma mudança bastante grande.» Apesar do impacto, adaptou-se rapidamente ao futebol português.
Sem recorrer a apoio psicológico - em parte pela barreira linguística - encontrou uma solução: a meditação. «Utilizei meditações muito curtas, de dois a cinco minutos, o que me fazia relaxar», explicou. Foi o primeiro grande exercício de autogestão de uma carreira onde o corpo nunca foi garantido.
Em 2018, a mudança para Lisboa marcou um novo capítulo. Pauleta cresceu ao mesmo ritmo que o projeto feminino das águias. «Quando o meu agente me falou do Benfica disse-lhe que ‘estava em parafuso’. Ele disse-me que era a sério, que o clube ia fazer uma aposta real no futebol feminino. A equipa ia começar na segunda divisão, mas era para arrasar», confessou.
A carreira voltou a ser interrompida em 2023, desta vez por uma lesão no ligamento cruzado anterior no joelho, sofrida nas meias-finais da Taça de Portugal frente ao FC Famalicão. Foram meses fora dos relvados, mais uma cirurgia, mais uma espera.
Mesmo lesionada, nunca deixou de liderar. Viajou com a equipa na Liga dos Campeões, apoiou o grupo e assumiu o papel de capitã fora do campo: «Percebemos que o grupo é que importa e não as individualidades.»
O regresso, em fevereiro de 2024, foi simbólico: entrou, marcou de penálti e selou a vitória diante do Torreense na Liga BPI: «Ter o prémio de jogar, fazer um golo e a equipa ter ganho foi muito especial.»
Em paralelo, construiu um percurso académico raro no futebol profissional. Licenciou-se em Química, fez formação em programação científica e sempre defendeu a importância de um plano alternativo. «Ter um plano B é mesmo importante, não só para quando acabarmos a carreira, mas para o caso de acontecer alguma coisa», afirmou, em declarações reproduzidas pelo Sindicato dos Jogadores.
Em 2024, renovou contrato até 2027, assumindo-se como uma das capitãs de um Benfica que compete entre os grandes da Europa. «Quando cheguei era uma miúda. Cresci ao lado do projeto», resumiu.
A regularidade transformou-a numa figura central do balneário. Com 190 jogos oficiais, é hoje a terceira jogadora com mais partidas na história da equipa feminina do Benfica, apenas atrás de Andreia Faria (230) e Catarina Amado (205). Um número que traduz longevidade e confiança.
A convocatória para a Seleção surge, assim, como culminar de um desejo antigo: «Quero muito jogar pela seleção portuguesa», confessara anos antes. «A melhor forma de mostrar gratidão é poder representar a seleção e mostrar em campo o quão grata estou.»
Francisco Neto esclareceu: a chamada não surgiu mais cedo por lesões. Afinal, em outubro de 2024, Pauleta voltou a atravessar um período de recuperação após nova lesão do ligamento cruzado anterior e apenas regressou «aos poucos» no início da atual época.
«A Pauleta é uma jogadora que seguimos. O processo de naturalização terminou há algum tempo, mas, devido a lesões, não conseguiu vir antes. Olhamos para ela para a posição 6 e sentimos que pode trazer características diferentes ao nosso jogo. Tem uma dimensão física que pode ajudar perante estes adversários. Ainda assim, não é fácil chegar a esta seleção, porque existe muita competência», vincou o selecionador.
Hoje, Pauleta chega à Seleção com um corpo marcado por cicatrizes visíveis e invisíveis. E talvez por isso mesmo chegue inteira.









































