Coluna do Fla
·3 aprile 2025
Fred Soares: “O Desafio do Flamengo e a ausência de um meio-campista criativo

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·3 aprile 2025
Às vésperas da Copa do Mundo de 1982, o técnico Telê Santana viveu um momento curioso, quando o comediante Jô Soares popularizou a frase “Bota a ponta, Telê!”. A expressão ficou famosa porque, enquanto a Seleção Brasileira contava com um elenco recheado de meias talentosos, Telê insistia em não escalar pontas, priorizando a criatividade e o controle de jogo no meio-campo. Aquele time, com nomes como Sócrates, Zico, Cerezo e Falcão, gerava debates e até ironias sobre a falta de jogadores de largura no campo, como os pontas tradicionais.
Esse episódio revela uma característica que se consolidou no futebol brasileiro ao longo das décadas: a valorização do meio-campista criativo. Com o passar dos anos, os clubes brasileiros passaram a nutrir uma cultura de produção de grandes meias, alimentando as seleções e campeonatos nacionais com jogadores de grande visão de jogo. Contudo, após o processo de “europeização” do futebol, o cenário mudou. O futebol moderno, mais físico e de transições rápidas, fez com que a formação de meias clássicos, especialmente na base, diminuísse drasticamente.
Hoje, o número de meias clássicos no futebol brasileiro é alarmantemente baixo. Referências como Arrascaeta, do Flamengo, Rafael Veiga, do Palmeiras, ou Paulo Henrique Ganso, do Fluminense, são exceções. Outros nomes, como Matheus Pereira, do Cruzeiro, Rollheiser, do Santos, Monsalve, do Grêmio, e até Alan Patrick, do Internacional, completam uma lista pequena de jogadores com o perfil de criadores de jogo. No entanto, a grande pergunta permanece: qual desses jogadores (com exceção aos estrangeiros, claro) seria, de fato, titular absoluto da seleção brasileira como meio-campista criador? A resposta é, no mínimo, incerta.
Essa carência de jogadores de meio-campo reflete-se diretamente no Flamengo. O time rubro-negro conta com Arrascaeta como grande maestro, mas a realidade é que o uruguaio, devido à idade e lesões, não estará disponível para todas as partidas. A solução, que já está sendo buscada, é a contratação de um meio-campista para disputar a posição com ele. Essa aposta, embora tardia, é necessária. Até porque Alcaraz, contratado para preencher essa lacuna não mostrou sua serventia ao modelo de jogo do técnico Filipe Luís.
O Flamengo, até algum tempo atrás, contava com Everton Ribeiro, outro jogador de características semelhantes, mas ele já não faz mais parte do elenco, indo para o Bahia após uma longa trajetória no clube.
Com a escassez de jogadores com as mesmas características de Arrascaeta, o Flamengo precisa se reinventar para não depender exclusivamente dele. A estreia do Campeonato Brasileiro trouxe um ensaio interessante do treinador Felipe Luiz. No primeiro tempo, o Flamengo começou com um esquema 4-2-4, uma formação pouco convencional, mas que fez sentido dentro das circunstâncias. A equipe, embora dominasse a posse de bola, enfrentava dificuldades para avançar no campo, pois o Internacional dificultava a saída de bola do time rubro-negro com uma barreira muito disciplinada de cinco jogadores. A solução foi apelar para bolas longas, o que não trouxe sucesso, mas até permitiu ao Flamengo criar duas chances, apesar do domínio quase inócuo.
No segundo tempo, porém, Filipe Luís ajustou o time sem fazer substituições. Os laterais Wesley e Alex Sandro foram posicionados em áreas mais centrais do campo, dificultando a marcação do Inter. Essa movimentação criou espaços nas laterais, e o Flamengo passou a dominar o jogo. Com Bruno Henrique jogando mais perto de Juninho, o time ganhou mais fluidez, e as jogadas passaram a fluir com mais naturalidade. O resultado foi uma pressão constante sobre o adversário e trocas de passes mais rápidas e eficazes entre os quatro da frente. O Flamengo empatou e teve chances claras de virar o jogo.
O desempenho na etapa final contra o Internacional mostrou que, mesmo sem um meio-campista clássico, o Flamengo pode se adaptar. O esquema 4-2-4 com quatro atacantes, embora arriscado, provou ser útil em algumas situações. Isso demonstra que, enquanto o clube não encontrar um substituto para Arrascaeta, há alternativas viáveis. No fim das contas, o Flamengo precisa de mais do que apenas talento individual; precisa de um sistema de jogo que maximize suas qualidades coletivas, seja com Arrascaeta ou sem ele. O desafio está lançado, e a solução poderá vir não apenas da contratação de reforços, mas também da flexibilidade tática de seu treinador.