Calciopédia
·8 giugno 2026
Paulo Azzi, o rei do acesso do futebol italiano, fala sobre sua longa trajetória na Bota

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·8 giugno 2026

Paulo Azzi não é um dos brasileiros mais badalados do futebol italiano. Ainda assim, poucos construíram uma trajetória tão consistente na península nas últimas temporadas. Aos 31 anos, o jogador nascido em Bragança Paulista acaba de conquistar mais um acesso à Serie A, desta vez com o Monza, ampliando uma coleção que já inclui promoções com Cagliari e Cremonese – além de ter alcançado a segundona com o Modena. De 2022 até 2026, ele conseguiu subir de divisão em quatro oportunidades.
Há 13 anos radicado na Itália, Paulo Azzi construiu uma trajetória comum a muitos brasileiros que tenham a sorte na Europa. Chegou ao país ainda jovem, mudou de posição ao longo da carreira, viveu a realidade de quatro diferentes categorias do futebol local e alcançou a elite após um percurso marcado por adaptações, recomeços e, mais recentemente, sucessivas promoções – que lhe renderam a alcunha de rei do acesso. No caminho, trabalhou com treinadores como Claudio Ranieri, enfrentou momentos de incerteza durante a pandemia de covid-19 e participou de campanhas que entraram para a história dos clubes que defendeu.
Revelado pelo Paulista, Azzi transferiu-se ainda jovem para a Itália, emprestado ao Cittadella e Spezia. Depois de retornar ao Brasil para defender o Tombense, voltou em definitivo à península e iniciou uma longa trajetória que o levaria por clubes como Spezia, Pavia, Pordenone, Siracusa, Pro Vercelli, Seregno e Lecco, antes de ganhar maior projeção com Modena, Cagliari, Cremonese e Monza. Nesta longa caminhada, transitou entre as séries D e A, e percorreu diferentes regiões da península, quase como uma homenagem involuntária às próprias origens familiares: o bisavô veio do Vêneto, enquanto a avó era natural da Campânia.
Em conversa com a Calciopédia, o brasileiro falou sobre o acesso do Monza, a transformação de sua carreira, os bastidores do Cagliari de Ranieri, a convivência com companheiros de diferentes perfis, a vida na Itália e os sonhos que ainda alimenta no futebol. Sem esquecer das dificuldades enfrentadas no início da caminhada, deixou também uma reflexão sobre perseverança e construção de carreira.
O Monza vinha de um rebaixamento, teve um início de campanha complicado, algo normal numa Serie B tão competitiva, mas conseguiu o acesso. Como você avalia esse ano?
Foi uma temporada bem difícil, desgastante. Eu quase bati 40 jogos, então foi um ano muito intenso. O Monza vinha de um rebaixamento, e depois de uma temporada complicada não é fácil mudar a mentalidade do ambiente. No começo foi difícil enxergar o time novamente como uma equipe que estava brigando para subir.
Mas a qualidade do elenco era muito alta. A gente conseguiu unir o grupo, criar essa mentalidade e conquistar o acesso. Então foi muito gratificante terminar o ano dessa forma. Para mim também foi uma experiência muito boa.
Você já conquistou acessos com Modena, Cagliari, Cremonese e agora Monza. Dá para fazer um ranking? Qual foi o mais difícil?
É difícil escolher, porque cada um teve um significado diferente. O acesso com o Modena, da Serie C para a Serie B, foi como um primeiro amor. Foi o clube que relançou minha carreira, onde eu consegui me destacar e alcançar um patamar maior. Então tem um lugar especial no meu coração.
No Cagliari foi uma experiência muito importante porque eu pude trabalhar com o Ranieri. Além disso, a Sardenha é uma ilha muito apaixonada pelo clube. O carinho da torcida é impressionante. E teve toda a emoção daquele acesso conquistado praticamente no último lance da final, além da oportunidade de disputar uma temporada de Serie A depois.
Na Cremonese foi uma passagem rápida, mas que também me colocou novamente em evidência depois da saída do Cagliari. Fui muito bem recebido e conseguimos outro acesso.
E agora no Monza acho que foi uma temporada que me consolidou. A experiência dos outros acessos, os números que consegui produzir e tudo o que vivi anteriormente me ajudaram a contribuir com o grupo. Hoje estou numa fase diferente da carreira, podendo passar experiência para os companheiros também.
Vamos voltar um pouco no tempo. Você saiu de Bragança Paulista e já são 13 anos de Itália. Depois de tanto tempo, você se sente mais brasileiro ou mais italiano?
Eu costumo dizer que sou híbrido. Sabe aqueles carros que funcionam tanto na eletricidade quanto na gasolina? Então, eu funciono dos dois jeitos.
Depois de tantos anos, você acaba absorvendo os costumes, aprende a cultura, a forma de viver das pessoas. Meus filhos nasceram aqui, a gente construiu a nossa família aqui. Mas eu também continuo funcionando no Brasil. Acho que depois de tanto tempo você acaba se tornando um pouco parte dos dois lugares.
E o que o futebol italiano te ensinou que você talvez não tivesse aprendido no Brasil?
Eu não tenho tanta experiência no futebol profissional brasileiro para fazer uma comparação muito profunda porque saí do Brasil com 19 anos. Tive uma ou duas oportunidades no profissional do Paulista e já vim para a Itália. Então praticamente toda a minha experiência de alto nível foi construída aqui.
E acho que a principal diferença está nessa questão tática. Aqui na Itália isso é muito valorizado. Tanto é que eu tive que trabalhar muito a questão do posicionamento corporal depois que passei a jogar na lateral.
A forma como você enfrenta o adversário, como recompõe a linha defensiva, como se posiciona dependendo da zona do campo onde a bola está… tudo isso precisa se tornar automático. E eu não tive uma base preparada para isso, porque saí do Brasil como atacante. Então precisei aprender durante o processo, já atuando numa nova posição e num lugar onde isso é muito exigido.
Para mim foi, e continua sendo, um desafio. Não é a minha principal característica. Eu sei disso, os treinadores sabem disso. Mas você precisa pensar no jogo da equipe. Então esse senso de posicionamento, de fazer o movimento correto, de contribuir para o funcionamento coletivo, é algo em que hoje tenho muito mais experiência e consigo ajudar melhor o time.
Ao mesmo tempo, eu tento manter características do jogador brasileiro. Acho que o futebol brasileiro valoriza mais a criatividade, é mais solto, dá mais espaço para a iniciativa individual. São coisas que eu tento levar para o meu jogo ofensivo.
Tanto é que, normalmente, os meus números de drible costumam ser um pouco mais altos. Eu gosto de tentar quebrar uma linha, driblar um adversário para criar espaço para o time. É uma característica que eu procuro preservar.
Azzi se tornou lateral no Modena, clube em que conquistou seu primeiro acesso na Itália (Arquivo/Modena FC)
Você falou uma coisa muito interessante sobre posicionamento corporal. O Wesley, que foi convocado recentemente para a Copa do Mundo, comentou algo parecido. Ele dizia que, na Roma, joga de uma forma, mas quando muda de lado ou muda de função, o corpo precisa reagir de outra maneira. Muita gente pensa que é só jogar na direita ou na esquerda, mas não é tão simples assim.
Exatamente. Muda muito, principalmente na parte defensiva. A forma como você recebe a bola, como gira o corpo, como fecha o espaço para o adversário… tudo muda. Às vezes um detalhe desses representa meio segundo de vantagem ou desvantagem numa jogada. E nesse nível, meio segundo faz muita diferença. Por isso os treinadores trabalham tanto esses aspectos. Parece uma coisa pequena para quem está vendo de fora, mas dentro do jogo faz uma diferença enorme.
Como aconteceu essa mudança de atacante para lateral?
Foi uma oportunidade que apareceu numa fase importante da minha carreira. Quando cheguei ao Modena encontrei um treinador que utilizava um sistema em que a minha posição praticamente não existia. O Attilio Tesser foi muito honesto comigo. Ele falou: “Paulo, a gente joga dessa forma. Vou precisar encontrar uma posição para você”.
Eu comecei como atacante, mas as coisas não estavam funcionando muito bem. O time tinha sido montado para lutar pelo acesso, e eu também estava tendo dificuldade para me adaptar. Cheguei a conversar com o treinador, com o diretor e até com a minha esposa sobre a possibilidade de sair. Eu falava: “Estou acostumado a jogar lá na frente, talvez esse projeto não seja para mim”. E ela me dizia: “Calma. Eu estou com uma sensação boa. Vamos esperar mais um pouco”.
A oportunidade apareceu num jogo da Coppa Italia. Normalmente esses jogos servem para dar espaço a quem está jogando menos. Surgiu uma vaga na lateral esquerda. O treinador olhou para mim e disse: “Paulo, chegou a sua oportunidade”. Eu fiz uma grande partida. As minhas características apareceram muito naquele jogo e, depois dali, não saí mais da posição. Foi uma daquelas oportunidades que mudam uma carreira.
O Tesser acabou se tornando uma figura importante para você, não?
Muito. Hoje eu posso dizer que ele virou um amigo. A gente criou um carinho especial porque ele foi uma das pessoas mais importantes da minha carreira. Até hoje trocamos mensagens de vez em quando. O diretor que me levou para o Modena também foi muito importante porque acreditou em mim e me deu aquela oportunidade. São pessoas que eu vou carregar comigo.
Hoje você virou quase uma instituição da Serie B. Quando se fala em acessos, o seu nome aparece. Você vê isso como um elogio ou sente que isso acaba criando uma imagem de jogador de Serie B?
Eu vejo de forma muito positiva. Eu gosto de competir. Gosto dessa sensação de estar brigando por alguma coisa importante. Desde criança a gente joga para ganhar. Então estar em clubes que tenham projetos ambiciosos é algo que me motiva. Além disso, as experiências vão se acumulando. Não só dentro de campo, mas também naquilo que você pode passar para os companheiros no vestiário. Tem situações que você só aprende vivendo.
Sobre a Serie A, eu sou muito tranquilo. Eu consegui realizar esse sonho. Joguei a Serie A, fiz gol em San Siro… e aquele gol teve um significado enorme para mim. Quem viu a comemoração deve ter achado que eu estava parecendo uma criança, mas era porque existia muita história por trás daquele momento. Muita luta para chegar até ali.
Hoje, nessa fase da minha carreira, eu procuro equilibrar as coisas. Claro que continuo querendo competir e conquistar objetivos importantes, mas também penso muito na minha família, na estabilidade deles, porque isso influencia diretamente no rendimento de um atleta.
Às vezes as pessoas não percebem o quanto é importante ter uma estrutura forte fora de campo. Quando você tem apoio, consegue lidar muito melhor com a pressão e com as cobranças. Então eu sou um cara realizado. Continuo brigando e sonhando, mas também sou muito grato por tudo o que já vivi.
Falando especificamente do Monza, a temporada foi muito disputada, e também foi a melhor da sua carreira em números, com cinco gols e sete assistências. O time brigou ponto a ponto com Venezia, Frosinone e Palermo. Como foi viver isso por dentro?
O objetivo sempre foi muito claro. Tem clube aqui na Itália que esconde um pouco as metas no começo da temporada, porque o italiano é supersticioso. Às vezes eles falam uma coisa para a imprensa e outra internamente. Mas no Monza o objetivo era declarado desde o início: subir.
O elenco foi montado para isso e eu gosto desse tipo de responsabilidade. Gosto de jogar partidas importantes, contra equipes fortes, jogos que valem alguma coisa. E essa Serie B foi diferente. Se eu não me engano, fazia mais de 30 anos que não existia uma edição tão competitiva. A pontuação que nós conseguimos em muitos outros campeonatos teria garantido o acesso direto com tranquilidade. Desta vez não. Ficamos brigando até as últimas rodadas. Isso gera desgaste emocional. Você precisa estar concentrado o tempo inteiro.
Por isso eu valorizo muito o que fizemos nos playoffs. Muitas vezes um time chega tão perto do acesso direto que acaba perdendo força quando entra no mata-mata. Com a gente não aconteceu isso. Conseguimos manter a concentração e a competitividade até o fim, e isso foi muito gratificante para o clube e a cidade.
Além da disputa dentro de campo, o Monza passou por uma mudança importante fora dele, com a saída da família Berlusconi, do Adriano Galliani e a chegada de novos proprietários, norte-americanos. Isso afetou o ambiente?
Eu acho que o trabalho feito pelo grupo anterior foi fantástico. Eles deixaram uma estrutura de Serie A. Em tudo o que eu experimentei dentro do clube, encontrei um padrão muito alto.
E o novo grupo que chegou foi muito inteligente. Eles colocaram pessoas experientes em posições importantes. Você tem o [Nicolás] Burdisso [ex-jogador, diretor de futebol], o [Mauro] Baldissoni [ex-vice-presidente da Roma, atual administrador-delegado do Monza], pessoas que já viveram o futebol em níveis altos e sabem como funciona esse ambiente. Um jogador com a carreira que ele teve, como diretor esportivo…
Então eu acho que essa transição foi muito bem conduzida. O clube conseguiu manter um padrão elevado de trabalho e alcançar o objetivo da temporada. Dá para perceber que o trabalho deu frutos.
No Cagliari, Paulo Azzi conquistou emocionante acesso à elite, estreou na Serie A e trabalhou com Ranieri (Getty)
E agora? Chega de Serie B? O objetivo é se consolidar na Serie A?
Eu tenho mais um ano de contrato com o Monza. Agora começa outro desafio. Uma coisa é conquistar o acesso. Outra é consolidar o clube na Serie A. Vai ser importante manter uma base forte e trazer jogadores com experiência na categoria. Mas, antes de tudo, eu preciso recuperar as energias. Foi uma temporada muito desgastante. Agora é descansar um pouco para voltar preparado.
Vamos falar agora sobre alguns personagens que você encontrou pelo caminho. Vamos começar pelo Claudio Ranieri. É difícil encontrar alguém que fale mal dele no futebol. Talvez o Gian Piero Gasperini ou o Romário. Como foi trabalhar com ele?
O Ranieri é exatamente aquilo que as pessoas veem. Uma pessoa extremamente educada, muito correta e muito respeitada. O que mais me marcou nele foi a capacidade de transmitir confiança aos jogadores.
Quando eu cheguei ao Cagliari, em janeiro, estava saindo daquele período de negociação em que você fica treinando separado, sem ritmo ideal de jogo. Eu lembro que cheguei e ele falou para mim: “Paulo, sábado você joga. Está pronto?”… E como é que eu vou responder que não estou pronto para o Ranieri? Eu falei: “Vambora, mister”. Fisicamente eu não estava na melhor condição, mas a confiança que ele passou fez toda a diferença.
No primeiro jogo dele, eu acabei fazendo um gol que ficou marcado. Fui cruzar uma bola, ventava muito e ela entrou no ângulo. E aquilo criou uma ligação muito forte com a torcida logo de cara. Durante toda aquela campanha ele transmitia essa sensação de que as coisas iam dar certo. Eu lembro que antes da final ele falou para a gente: “Nós vamos subir. De um jeito ou de outro, vamos subir”. E foi exatamente o que aconteceu, assim como na permanência na Serie A. Ele me deu muitas oportunidades para jogar e foi um período importante na minha carreira.
Sobre o Romário, eu perguntei qual tinha sido o melhor brasileiro que ele treinou. Brincando, eu falei: “Depois de mim, mister” (risos). Aí ele começou a rir e respondeu que tinha sido o Romário. Comentou que foi um dos jogadores brasileiros que ele treinou mais tinham impressionado, apesar de algumas discussões.
Falando daquele acesso do Cagliari, vocês eliminaram o Parma no último jogo da carreira do Gigi Buffon e depois venceram o Bari numa final dramática. Qual foi o momento mais emocionante daquela campanha?
Se você for no Instagram do Buffon, na última foto dele como jogador eu estou lá. Meio ofuscado no fundo, mas estou lá (risos). Então eu pude participar esse momento histórico e teve muita coisa marcante naquele acesso.
Primeiro porque terminamos a temporada regular em quinto lugar. Então tivemos que jogar todas as fases dos playoffs. Passamos pelo Venezia nas quartas, com superioridade, e depois veio o Parma. Eu lembro que no primeiro jogo da semifinal eles abriram 2 a 0. A gente foi para o intervalo perdendo.
Mas eu estava com uma convicção muito grande. Parecia que o Ranieri tinha chegado para completar uma história que precisava terminar com aquele acesso. Eu falava para mim mesmo: “Não tem como acabar assim”. Voltamos para o segundo tempo, o Buffon sentiu alguma coisa e foi substituído no intervalo. Aí, conseguimos virar.
Depois teve o jogo de volta, em Parma. O Parma veio para cima da gente porque só precisava de um gol para se classificar, eles tinham a vantagem no confronto. Em determinado momento, já no fim, o [Ange-Yoan] Bonny, que tá na Inter, faz uma finalização. A bola bate no travessão, quica na linha e sai.
O árbitro era o [Daniele] Orsato. Ele tinha feito tantos jogos de Serie A, Champions League, competições com tecnologia da linha do gol, que automaticamente olhou para o relógio e apontou para o centro do campo. Naquele momento eu pensei: “Acabou”. Gol dos caras, ia ser difícil a gente recuperar.
Só que na Serie B não existia tecnologia da linha do gol. O VAR revisou o lance e confirmou que a bola não tinha entrado. Depois veio o Bari, uma loucura. Eles tinham empatado no fim na ida, estavam segurando o 0 a 0 em casa, 65 mil pessoas no estádio. Eu saí faltando uns 10 minutos para acabar o jogo.
Começou a chover. E eu fiquei pensando: “Cara, cheguei tão perto da Serie A. Não acredito que vai escapar agora” [o Bari tinha a vantagem de jogar por dois empates, por ter feito campanha melhor]. Aí sai o gol do Pavoletti. Mas eu nem sabia se comemorava, se esperava o VAR validar. Fiquei pensando: “Calma. Espera. Vai que está impedido, vai que acontece alguma coisa”. Quando o gol foi confirmado, aí sim foi uma emoção muito grande, bem especial.
No Cagliari, já na Serie A, você disputou posição com Jakub Jankto, um dos raros jogadores assumidamente homossexuais do futebol masculino. Recentemente ele entrou em evidência por contar bastidores da carreira dele. A questão da sexualidade dele era um tema dentro do vestiário?
Eu não quero viralizar, então vou ser bem tranquilo na resposta (risos). Cara, a gente no vestiário e também nos bastidores chamava ele de Kuba, que é a abreviação do nome. A gente tem um bom relacionamento até hoje. De vez em quando eu ainda falo com ele.
A gente sentava próximo no vestiário. Sentava eu, o [Gianluca] Lapadula e ele bem perto. Então foi uma convivência muito tranquila. Em nenhum momento as coisas dessa questão de escolha pessoal dele se misturavam no vestiário com o grupo.
Nesse aspecto foi bem tranquilo e a gente construiu um relacionamento de companheiros de time, compartilhando o vestiário todos os dias. Foi um ano bom vivido juntos porque a gente conseguiu o objetivo do clube, que é a coisa mais importante.
Então em nenhum momento isso prejudicou o clube, o vestiário ou qualquer coisa do tipo.
Menos de seis meses e um acesso: saldo positivo para Paulo Azzi em Cremona (Arquivo/US Cremonese)
O Jankto também fez críticas ao Davide Nicola, que disse ser o pior técnico da carreira dele. Como foi sua convivência com o treinador?
Eu tive a experiência de trabalhar com ele no Cagliari. Ele também me deu oportunidade para jogar no início. Depois eu acabei perdendo um pouco de espaço e fui para a Cremonese. E quis o destino que ele também migrasse para a Cremonese depois do acesso.
Mas, cara, com ele o relacionamento sempre foi muito aberto e tranquilo. Acho que nesse momento você precisa ter transparência e maturidade para falar com o treinador. As escolhas táticas dele são claras e, em todas as nossas conversas, a gente sentou e esclareceu as coisas.
Porque o treinador também tem um estilo de jogo, prefere um certo estilo de jogador. Quando as ideias não se unem, não tem nenhum problema em apertar a mão e falar: “Mister, vou seguir outro caminho e espero que você faça um bom projeto com o clube”. Foi isso que aconteceu.
E com a comissão técnica dele também sempre me dei muito bem. Às vezes essas pessoas não recebem tanta atenção quanto o treinador, mas convivem com a gente todos os dias e são muito importantes.
Aproveito até para falar da comissão do Paolo Bianco [técnico do Monza] este ano. Eu falei para ele: “Mister, você tem uma grande sorte de contar com uma comissão tão capacitada”. São pessoas que estão ali no dia a dia, dando suporte para o treinador e para os jogadores. Talvez não apareçam muito na mídia, mas fazem uma diferença enorme.
Você passou pela Pro Vercelli, um clube histórico, sete vezes campeão italiano, mas cuja última conquista nacional aconteceu há mais de um século. Como era o ambiente por lá? Ainda existe essa ambição de voltar aos grandes palcos ou hoje é um clube mais voltado para a realidade local?
Tem uma história legal. Eu tenho um amigo palmeirense e, quando a Pro Vercelli lançou uma camisa comemorativa junto com o Palmeiras, consegui uma para ele através do Instagram e mandei para o Brasil. Então ainda existe essa ligação.
Para mim, a Pro Vercelli tem um carinho especial porque foi o primeiro clube na Itália em que eu fui realmente do clube. Até então eu sempre estava envolvido em negociações, empréstimos, meu passe ainda estava ligado ao Tombense. Foi também o período do começo da estruturação da minha família. Minha filha nasceu lá em Vercelli.
É uma cidade muito ligada ao clube e com muito amor pela própria história. Quando eu estava lá, eles tinham acabado de viver uma experiência recente na Serie B. Era um clube estruturado, não necessariamente com ambição imediata de voltar para a Serie A, mas de fazer campeonatos importantes.
Hoje, pelo que acompanho, ainda não existe essa ambição de Serie A, mas é um clube histórico e com uma torcida muito ligada à instituição.
A sua passagem pela Cremonese foi rápida, mas terminou com mais um acesso. Como foi aquela experiência? E qual foi o momento mais difícil desses anos todos na Itália? Houve algum instante em que você pensou em voltar para o Brasil?
Na Cremonese foi tudo muito rápido, mas o carinho da torcida e o impacto daqueles seis meses foram muito legais. Consegui fazer três gols e três assistências. Na final dos playoffs tive uma participação muito importante no segundo e no terceiro gol.
O carinho dos torcedores foi muito legal comigo. Até hoje recebo mensagens deles. Quando você conquista um acesso, acaba ficando marcado de alguma forma na história do clube. Eu levo isso comigo. E foram seis meses importantes porque eu vinha com menos espaço na Serie A. Chegar, conquistar outro acesso e mostrar um alto nível me relançou novamente.
Sobre o momento mais difícil, acho que foi na época da covid-19. Aqui na Itália aquilo foi vivido de uma forma muito restrita e muito difícil. Minha filha tinha acabado de nascer, estava com três meses. Foi um momento em que eu pensei em dar uma pausa na carreira e voltar para o Brasil. A gente levou isso em consideração. Ao mesmo tempo, foi dali que a minha carreira começou a tomar forma novamente.
Foi aquele momento em que eu estava a um passo de parar tudo temporariamente e voltar para o Brasil. Só que ao mesmo tempo a minha carreira começou a decolar, em 2021, e em 2023 eu estava conseguindo o acesso para a Serie A com o Cagliari. Então foi um período turbulento, mas que deixou grandes lições de perseverança.
Você conhece a Itália praticamente de ponta a ponta. Se tivesse que dar algumas dicas para quem quer visitar o país, quais seriam?
Foram 13 clubes. É bastante coisa (risos). Mas eu fico feliz por isso porque essas experiências enriqueceram muito a minha vida. A Apúlia é um lugar muito interessante porque oferece tanto praias lindas quanto cidades muito peculiares. A gente fez muitos passeios de carro por lá e conheceu lugares incríveis.
Também não posso deixar de falar da Sardenha. É um dos destinos mais procurados da Europa e tem uma riqueza natural enorme. Nós aproveitamos muito aquele período. E a Lombardia também é uma região excelente para viver. Você está praticamente no centro da Europa, com muita estrutura, facilidade de locomoção e acesso a tudo. A riqueza da Itália é justamente essa. Cada região tem uma história, uma culinária e características próprias.
Eu fui orientado a experimentar carne de cavalo em Verona, mas confesso que faltou coragem. Você já comeu?
Eu comi um hambúrguer de cavalo na Sicília. Um amigo meu apareceu com aquele hambúrguer enorme e falou: “Cara, você tem que experimentar”. E eu experimentei. O hambúrguer até dá uma escondida maior porque você não vê a carne da mesma forma. Foi bom, mas não é algo que eu repetiria com frequência.
Tem algumas coisas em que o lado brasileiro fala mais alto. Coelho, por exemplo. Para mim é difícil. Nunca tive esse costume. Então tem coisas que, mesmo depois de tantos anos, continuam sendo estranhas.
O mais recente feito de Paulo Azzi foi subir para a Serie A com o Monza, que fez bate-volta na segundona (NurPhoto/Getty)
E hoje você se sente mais italiano ou mais brasileiro?
Hoje, pelo meu dia a dia, talvez mais italiano. Faz muito tempo que eu não vivo no Brasil de forma contínua. Mas tem coisas que continuam muito brasileiras dentro de mim. O pão na chapa com café com leite na padaria é patrimônio cultural brasileiro. Isso só existe no Brasil (risos). Então, nesse aspecto, algumas coisas nunca mudam.
Hoje você tem o Hernani como companheiro no Monza. Como é a relação de vocês? E, ao longo da carreira, quem foram aqueles companheiros que viraram grandes amigos ou eram os mais resenheiros do vestiário?
Cara, eu e o Hernani criamos um vínculo muito forte pela questão de sermos brasileiros. Isso acaba unindo. E também não é sempre que você encontra outro brasileiro no elenco, não é todo time que tem. Eu tive algumas experiências assim ao longo da carreira, ele também, mas não é algo tão comum.
Então a gente se aproximou bastante. Meu filho estava lá embaixo agora brincando com o filho dele. Eu estava com a família dele antes de entrar na entrevista. A gente mora praticamente um de frente para o outro. Construímos uma amizade muito legal entre as famílias e tenho certeza de que vai durar por muito tempo.
Outro parceiro que eu fiz no futebol foi o Gladestony. Teve uma carreira legal no Brasil, jogou em São Paulo, Internacional… Infelizmente ele também é o cara do meme da maca, aquele que o cara tá sendo retirado pela maca e o maqueiro senta em cima dele (risos). Isso, pra mim, é algo impressionante.
E a gente criou uma amizade muito forte porque aconteceu uma coisa rara. Tivemos a oportunidade de jogar juntos em dois clubes diferentes. Jogamos juntos na Pro Vercelli e depois no Seregno. Então as famílias ficaram muito próximas e até hoje mantemos contato. A gente vai se encontrar agora nas férias. Ele está morando na região de Nápoles e vou passar alguns dias por lá.
Outro cara muito engraçado foi o Yerry Mina. Falei com ele esses dias, inclusive desejei boa sorte para ele com a Colômbia. É um cara que mantém a resenha em dia. A gente criou uma amizade legal e foi muito bom dividir vestiário com ele.
Pensando no futuro, você se imagina trabalhando no futebol depois de encerrar a carreira? Como dirigente, gestor, observador? E o que você ainda sonha realizar dentro do futebol?
Eu acho que o meu futuro vai ter alguma coisa ligada ao futebol. Por tudo que eu vivi, pela experiência que acumulei e também por essa ponte entre Brasil e Itália, já tem gente que me procura pedindo indicação de jogadores, apresentando alguns meninos ou buscando algum tipo de orientação. Acho que é uma área interessante e que pode ser desenvolvida.
Como treinador eu acho difícil. Foram 13 clubes na carreira. Imagina terminar a carreira buscando um pouco mais de estabilidade e depois começar a rodar tudo de novo como técnico? Então eu vejo isso como algo mais complicado por causa do desgaste das mudanças, da família, de toda essa rotina. Gostaria de ter um pouco mais de estabilidade quando encerrar essa etapa. Mas vamos ver. A gente projeta algumas coisas, sonha com outras, e a vida vai acontecendo.
E dentro de campo? Ainda existe algum sonho guardado?
Existe. Ouvir a musiquinha da Champions League. Esse é um sonho que continua guardado. Eu acredito que ainda exista a possibilidade de viver isso. É uma coisa que eu gostaria muito. Mas, se não acontecer, também não vou ficar frustrado.
Eu me sinto muito realizado pelas coisas que já vivi no futebol. Sou muito grato pela oportunidade de estar aqui hoje compartilhando um pouco da minha história com vocês. Eu sei quantas pessoas sonham com isso no Brasil. Sei como o futebol continua sendo o sonho de muitas crianças. Meu filho mesmo adora futebol. É roupa de time para todo lado. Ele gosta bastante. Então poder viver esse sonho já é algo muito especial.
Você falou de Champions League, de sonhos e de futuro. Para encerrar: como gostaria que a sua trajetória na Itália fosse lembrada?
Cara, eu acho que gostaria de ser lembrado como um atleta que não teve uma base forte e foi sendo construído durante o processo. Acho que isso pode encorajar muita gente que hoje talvez não tenha uma formação ideal ou esteja num clube sem tanta estrutura, porque eu vivi tudo isso.
Eu tive momentos difíceis na base no Brasil. Clube de colete amarrado, café da manhã com pão, manteiga e um copo de café com leite, morar embaixo de estádio… Então eu gostaria de ser lembrado como alguém que não teve uma base tão forte, mas que conseguiu chegar a um lugar de destaque sendo construído ao longo da caminhada.
Porque o perigo de ter tudo muito fácil é que, quando aparece a primeira dificuldade, você pode desistir. Como eu sempre passei por dificuldades, aprendi a celebrar qualquer pequeno sucesso. Acho que isso foi muito importante para mim. Me fez ter gratidão por onde eu estava, me fez olhar para as oportunidades sempre de forma positiva.
Eu fui para a Serie D e falei: “Vou jogar o meu melhor futebol na Serie D. Recebi uma nova oportunidade. Vambora”. Até hoje vejo pessoas reclamando de coisas que, para mim, já seriam excelentes. Às vezes alguém reclama de estrutura e eu lembro do caminho que percorri. E penso: “Opa, isso aqui está muito melhor do que você imagina”.
Então acho que essa história pode servir de incentivo para quem está começando, para quem está ali na luta e ainda não consegue enxergar uma perspectiva. Enquanto existir uma oportunidade, a gente tem que perseverar. E, cara, às vezes é até melhor passar pelos perrengues. Porque eles te dão gratidão, te dão força. Você olha para trás e pensa: “Eu já venci quando as coisas estavam mais difíceis”. Então agora é colocar a mala nas costas e ir para cima.







































