12 anos sem uma final: para quando, Portugal? Mourinho tem uma resposta... | OneFootball

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·20 de janeiro de 2026

12 anos sem uma final: para quando, Portugal? Mourinho tem uma resposta...

Imagem do artigo:12 anos sem uma final: para quando, Portugal? Mourinho tem uma resposta...

Aterramos em Turim com a contagem na cabeça, que os voos têm o condão de nos retirar as respostas dos dedos e de nos impulsionar as memórias - viajar é, de facto, uma terapia. Ora, nessas contas preparatórias, deu para chegar à conclusão de que Portugal está a caminho de 12 anos sem uma final europeia. 12 também sem uma meia-final, mais preocupante ainda. Ambas se deram aqui, no Juventus Stadium, nos tempos do Benfica de Jorge Jesus, que bisou nas finais de Liga Europa, pouco depois de o FC Porto ter ganho uma inédita final 100 por cento lusa, em 2011. 12 anos é muito? Já foi pior: em 2003, José Mourinho e o seu FC Porto interromperam uma seca de 13 anos; em 1983, Sven-Goran Eriksson parou a maior de todas, 15 anos após a final de 1968 do Benfica. O problema é que ninguém ficará surpreendido se a série atual chegar a recorde...

Foi essa a pergunta que fizemos a José Mourinho, na antevisão do jogo contra a Juventus, numa campanha que as águias já tiveram como muito negra e que é, agora, de ampla convicção numa recuperação milagrosa. E, mesmo que se dê esse pequeno milagre - a avaliar pelos zero pontos ao fim de quatro jornadas e pelo exigente calendário a partir daí - outro muito maior seria preciso para se ver uma equipa portuguesa nesta edição chegar à final. Mesmo para a Liga Europa, onde estão FC Porto e SC Braga, a tarefa é tudo menos fácil.


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Então, que diagnóstico se faz ao estado atual do futebol português e a esta luta constante por (sobre)viver entre os melhores? José Mourinho é dos mais habilitados para o responder.

A pergunta foi, a resposta veio...

«Isto está a acontecer porque, quer queiramos, quer não, a situação económica tem um impacto muito grande e o poder económico está centrado em países que não Portugal e em clubes que não os portugueses. Se quiser uma opinião muito pessoal, eu acho que os três grandes clubes portugueses, e não quero deixar o SC Braga de fora disto, podem chegar a finais da Liga Europa. As últimas finais europeias com portugueses, com exceção de 2004, foram nessa competição. Considero as equipas portuguesas de topo como favoritas a chegar às meias-finais, final, ganhar a Liga Europa. Na Liga dos Campeões, é muito mais complicado. Comparamos os mercados, os investimentos, para onde vão os jogadores principais. Não erro se disser que, fora Real Madrid e Barcelona, as equipas inglesas, o Bayern e o pobre PSG, fora daqui... [pausa] O Inter? Ah, o Inter. Comigo. O Inter e o FC Porto. [pausa e sorriso]

Enzo, Estêvão e a comparação à NBA

Não quisemos ficar apenas pela resposta do treinador do Benfica e auscultámos, ainda antes da conferência de imprensa, dois colegas jornalistas. Um italiano, outro português.

Massimiliano Nerozzi trabalha no Corriere della Sera e estava nas meias-finais de 2014. Se, em Portugal, a discussão é sobre a distância para as big-5, em Itália há uma sensação parecida em relação a Inglaterra.

«Exporta-se muitos jogadores para os principais campeonatos. Acontece com Portugal como acontece com Itália. Ganhámos com a Atalanta há dois anos a Liga Europa, mas antes disso a última conquista tinha sido com o Inter de José Mourinho. O orçamento dos clubes ingleses, do PSG e do Real Madrid estão fora do normal e acho que isso faz com que eles venham cá buscar os jogadores cada vez mais cedo. Em Portugal, ainda mais. Jogadores com 18 ou 19 anos saem ao fim de poucos jogos e depois, por vezes, dizem que eles são um desastre nas grandes ligas. Mas aqui isso está a acontecer cada vez mais, também», referiu.

«Não sei se te lembras, mas houve uma fase em que os jogadores de basquetebol da ex-Jugoslávia começaram a ir para os Estados Unidos, nos anos 90. Iam com 24, 25 anos. Correspondeu a um período de alargamentos de equipas da NBA, e eles começaram a ir cada vez mais novos, até irem com 17, 18, 19 anos. Aqui, está a acontecer exatamente o mesmo. Por exemplo, o Enzo Fernández. Na minha opinião, há dez anos ele faria duas ou três épocas em Portugal e depois seguia para a Premier League. Hoje em dia, uma época basta, ser campeão basta, e saem logo. Nós temos o caso do Sandro Tonali, saiu do Milan para o Newcastle... Foi campeão, pagaram 80 milhões de euros e lá foi ele. A Premier League está inatingível, para Portugal e para Itália»

Nerozzi fala dos valores de transações, mas não só. O último exemplo é de um quadro salarial que também não é equilibrado: «De facto, eu acho que não estamos a caminhar para uma Superliga... Nós já temos uma Superliga. Clubes como FC Porto, Sporting, Benfica, clubes italianos não conseguem segurar os seus melhores jogadores. Em Turim, os adeptos estão muito preocupados com o Kenan Yildiz, que tem 20 anos e que ganha 1,5 milhões de euros por ano. Fala-se da renovação e ele quer 5,5 milhões. Não ficaremos nada admirados, infelizmente, se no fim da época chegar um clube inglês e o levar.»

Fernando Urbano tem 25 anos de jornal A Bola. Vivenciou, profissionalmente, finais europeias e foi assistindo a este decréscimo de relevância dos clubes nacionais nas decisões europeias.

«Há duas questões. Primeiro, o fim daquela norma em que clubes da Champions caíam para a Liga Europa é prejudicial para Portugal. O Benfica chegou às duas finais seguidas depois de cair da Liga dos Campeões e isso agora já não é possível. Segundo, as equipas portuguesas estão a perder competitividade para chegar longe. Há muito que defendo que as equipas portuguesas deviam ter a ambição de, de cinco em cinco anos, chegar a umas meias-finais da Champions, tal como aconteceu com a Roma, o Monaco ou o Ajax. Um Benfica ou um FC Porto, ou mesmo agora o Sporting, deviam tentar isso com regularidade.»

O diagnóstico costuma apontar para a realidade financeira - veja-se o que disse Massimiliano Nerozzi. Mas será só isso ou faltará coragem? Não se estará a assistir a uma crescente priorização dos jogos do campeonato em detrimento dos jogos europeus?

«A Champions paga ainda mais do que há cinco ou seis anos. Mas, há dez, 12 anos, as equipas portuguesas faziam ótimos negócios naquele formato de third part ownership, que agora já não existe. As partilhas de passes levavam potenciais grandes jogadores para Portugal, porque os maiores clubes não iam buscar jogadores à fonte. Mas agora vão. Benfica e FC Porto conseguiam fazer grandes contratações, sobretudo na América do Sul, e agora já não, porque um Real Madrid ou um Manchester United agora vão buscá-los diretamente», diagnosticou.

«As estruturas mudaram e não apenas é difícil conservar jogadores, como também outros elementos relevantes para o processo: «Parece-me que o nível de scouting agora não é o mesmo da altura. O Benfica, por exemplo, gasta muito dinheiro e nem sempre o gasta bem. No campo do scouting, como noutros, estamos a exportar conhecimento. Mesmo assim, a questão central é este exemplo: o Chelsea não iria buscar um Estêvão e agora vai, e isso modifica totalmente um campeonato como o nosso, pois éramos peritos em identificar e ir buscar esses talentos. O Estêvão, noutros tempos, estaria a jogar num Benfica ou num FC Porto e não num Chelsea», terminou.

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