Última Divisão
·15 de setembro de 2025
A ascensão meteórica e o legado do Grêmio Barueri

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Por Davi Souza
No início do século XXI, a cidade de Barueri viu nascer um projeto esportivo que rapidamente ganharia os gramados do Brasil.
Em 2000, o então presidente do Grêmio Recreativo Barueri, Walter Jorquera Sanches, foi apresentado ao empresário João Wilson Antonini, dono da Roma Incorporadora. Da parceria surgiu uma equipe sub-20 que, já em seu primeiro ano, chamou atenção ao conquistar o vice-campeonato da Segunda Divisão do Campeonato Paulista da categoria e, poucos meses depois, surpreendeu ao vencer a Copa São Paulo de Juniores nos pênaltis contra o São Paulo.
A parceria durou apenas um ano, mas foi suficiente para que a prefeitura decidisse apostar em um clube com o nome da cidade. Em 2001, o Grêmio Barueri se filiou à Federação Paulista de Futebol e começou no futebol profissional, ainda na Série B3 do campeonato estadual. O desempenho inicial foi discreto, mas a partir de 2002 começou uma escalada impressionante: em cinco anos, o clube conquistou dois títulos estaduais (Série A-3 em 2005 e Série A-2 em 2006) e acumulou acessos consecutivos que o levaram ao cenário nacional.
Em 2006, o Barueri estreou na Série C do Campeonato Brasileiro e, logo de cara, conseguiu o acesso à Série B. Dois anos depois, em novembro de 2008, a cidade comemorava um feito histórico: a vitória por 3 a 0 sobre o América de Natal selou a chegada do clube à elite do futebol brasileiro.
A “Abelha”, como ficou conhecida, dividia espaço com gigantes como São Paulo, Corinthians e Palmeiras.
Em entrevista ao Última Divisão, o Secretário de Esportes de Barueri, Tom Moisés, afirmou acreditar que os conflitos de interesse e a oposição de ideias foram fatores que marcaram o início do declínio da equipe e a mudança de sede:
Na minha avaliação pessoal, infelizmente, houve na época um conflito de interesses e de ideias entre os administradores do futebol e a gestão pública. Isso implicou na fatídica transferência do time para outra cidade, desconfiança da mídia, maior fiscalização dos órgãos controladores, perda de credibilidade e dificuldades operacionais e financeiras.
A transformação do departamento de futebol em clube-empresa, em julho de 2008, mudou para sempre os rumos do Grêmio Barueri. O novo CNPJ trouxe autonomia, mas também instaurou uma crise. O então presidente Walter Jorquera Sanches, que havia comandado a Secretaria de Esportes de Barueri por mais de uma década, passou a ter desentendimentos com seu sucessor na pasta, José Calil, ex-diretor de futebol do próprio clube.
O desgaste se intensificou e, em dezembro de 2009, a diretoria rompeu oficialmente com a prefeitura. Poucos dias depois, veio o anúncio surpreendente: o clube deixaria Barueri para se instalar em Presidente Prudente, a mais de 500 km de distância. A mudança foi concretizada no início de 2010, marcando o rompimento definitivo com a cidade que havia projetado a equipe.
Os reflexos apareceram dentro de campo. Já em 2009, os atrasos salariais e de direitos de imagem se tornaram frequentes, gerando desgaste com o elenco. A saída do técnico Estevam Soares, em agosto daquele ano, veio acompanhada de críticas abertas à gestão. O próprio presidente admitiu, pouco depois, que as finanças estavam sendo sustentadas quase exclusivamente pela venda de jogadores.
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Até a virada para clube-empresa, em 2008, o Grêmio Barueri era sustentado por repasses públicos. O modelo acabou sendo questionado pelo Tribunal de Contas do Estado de São Paulo, que determinou a devolução de cerca de R$ 15 milhões aos cofres municipais. Em 2016, o Ministério Público transformou em réus os ex-prefeitos Gil Arantes e Rubens Furlan por improbidade administrativa, sob a alegação de que os recursos da prefeitura não poderiam financiar um time profissional.
Tom Moisés comentou sobre a situação e relatou que esse imbróglio envolvendo os antigos gestores impactou os projetos esportivos locais:
A situação deixou uma série de questionamentos jurídicos e processos que atrapalharam bastante a continuidade dos projetos sociais esportivos na cidade e a vida de muitas pessoas.
Com o insucesso em Presidente Prudente, o retorno do Grêmio Barueri à cidade onde nasceu, em maio de 2011, não trouxe a estabilidade esperada.
O clube foi vendido ao empresário Domingos de Brito, aliado político do então prefeito Rubens Furlan, com motivações que incluíam reforçar a campanha de Carlos Zicardi, secretário de Esportes na época, para a Prefeitura em 2012.
Com o nome recuperado, o Grêmio Barueri fez uma campanha mediana na Série B de 2011, terminando em nono lugar, mas a instabilidade seria uma constante nos anos seguintes. Em 2012, o time apostou em veteranos, mas acabou rebaixado, caindo à Série D do Campeonato Brasileiro em 2013.
Na Série A2 do Campeonato Paulista, os resultados também foram fracos: campanha mediana em 2012, luta contra o rebaixamento em 2013 e queda em 2014. Nesse mesmo ano, o clube foi vendido novamente, desta vez para José Alberto Dias Jeremias, empresário conhecido como Alberto Ferrari, dono da rede de academias K2 Sports.

Barueri exibiu marca da K2 em jogos de 2014 (Imagem: Divulgação)
As dívidas acumuladas dificultaram qualquer recuperação. Na Série D, o clube chegou a sofrer derrotas por WO devido ao atraso no pagamento de salários. Em 2015, escapou por pouco de mais um rebaixamento no Paulistão, terminando a Série A3 em 15º lugar.
A crise se aprofundou em 2016: jogadores denunciaram pressão para perder partidas propositalmente, enfrentaram falta de local adequado para treinos, salários atrasados e até dificuldades com alimentação. Dentro de campo, as goleadas foram expressivas: 8 a 0 para o Grêmio Osasco e 10 a 0 para o Nacional.
O clube foi vendido mais uma vez, desta vez para Rafael Duarte e o ex-zagueiro André Leone. Com 78 gols sofridos e 19 derrotas em 19 jogos, o Grêmio Barueri foi rebaixado para a quarta divisão do futebol paulista. Desde então, não voltou a disputar competições oficiais.
O Grêmio Barueri anunciou oficialmente o encerramento de suas atividades em 16 de dezembro de 2017, devido a dificuldades financeiras. O clube havia sido campeão do Campeonato Paulista do Interior em 2008, mas enfrentou uma série de crises nos anos seguintes, incluindo rebaixamentos, dívidas acumuladas e gestão instável. O clube permaneceu inativo até 2019, quando houve tentativas de retomada, inicialmente com foco em categorias de base e futebol amador.
O Grêmio Barueri deixou lembranças, mas também lições para a cidade. Como resume Tom Moisés:
Em São Paulo, os torcedores torcem para os times grandes. Para algumas pessoas, o Barueri foi apenas um segundo time que passou. Foi uma oportunidade mais fácil e mais próxima de dar oportunidade para novos talentos da base. Isso foi muito legal, mas a vida seguiu normalmente para todos.
Em 2025, o esporte na cidade atua como transformador social e ferramenta de inclusão para crianças e adolescentes, e como lazer e recreação para adultos.
Apesar disso, o secretário destaca que os talentos naturalmente encontram espaço no cenário esportivo. Ele cita como exemplo o voleibol feminino, lembrando que atletas formadas em Barueri participaram recentemente das Olimpíadas de Paris 2024. Entre elas está Diana Alecrim, medalhista e nova central do Sesi Vôlei Bauru.
Em 2024, por exemplo, enviamos para as Olimpíadas de Paris três atletas de voleibol feminino formadas em nossas escolas de esportes em Barueri.
A Secretaria de Esportes não tem como objetivo retomar atualmente as atividades profissionais do Grêmio Barueri. O foco é continuar transformando a realidade de jovens e adolescentes, promovendo a formação de bons cidadãos e melhorando a qualidade de vida dos moradores.
Ainda segundo Tom Moisés:
Compete à gestão pública o planejamento e execução de políticas públicas, programas, planos, projetos, metas e eventos, objetivando o desenvolvimento e a prática do desporto, de modo a garantir à população o acesso ao esporte e lazer. A Prefeitura não usa e nem usará recurso público em futebol profissional. Nossa prioridade é fazer um amplo trabalho social que melhore a qualidade de vida das pessoas.
Se dentro de campo o Grêmio Barueri já não ergue mais troféus, hoje o maior título da cidade está fora das quatro linhas: a promoção da cidadania, da inclusão social e da qualidade de vida dos moradores. O futebol profissional pode ter ficado no passado, mas o esporte segue presente como instrumento de transformação, formando jovens, educando e fortalecendo laços comunitários em Barueri.









































