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·11 de fevereiro de 2026

A dopamina que move o futebol brasileiro

Imagem do artigo:A dopamina que move o futebol brasileiro

Nos tempos em que a dopamina parece ditar o ritmo dos nossos cérebros e a incessante busca por prazer a todo momento nos faz ansiar por resultados cada vez mais imediatistas, o futebol, como velho e bom reflexo da sociedade, não poderia deixar de fazer parte da conversa. Quem acompanha o início de temporada no Brasil provavelmente já está acostumado a mudanças abruptas, correções de rota logo após a largada que parecem mais uma troca de pneus com o carro em velocidade. A 200 km/h. Mas 2026 é um ano ainda mais assustador, até para quem banalizou a impulsividade do nosso futebol. 

Com a redução das datas dos Estaduais em um ano de Copa do Mundo, os times que fecharam o ano jogando até o fim de dezembro (vale para os finalistas da Copa do Brasil e para o Flamengo, que foi ao Catar jogar no Intercontinental) voltaram ao campo poucas semanas depois. Quem fechou a temporada no início de dezembro tampouco teve uma pausa prolongada. 


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Pré-temporada, vamos concordar, não existiu. E com a antecipação do retorno dos jogos, os times também tiveram menos tempo para incorporar seus reforços. A adaptação foi abrupta. E ainda mais exigente com o início do Brasileirão em janeiro. Ok, os times da elite podem jogar com equipes alternativas os Estaduais (ao menos as primeiras rodadas). Mas então os titulares só vão começar a jogar na estreia do Brasileirão, quando a temporada já começa para valer e cada ponto pode ser a diferença entre o fracasso e o sucesso de um ano inteiro?

Mesmo os mais organizados exemplos de gestão do nosso futebol tiveram dificuldade para assimilar tudo isso. Mesmo sem fazer como o Botafogo, de John Textor, apesar da arrastada negociação pela renovação de Filipe Luís, o Fla passa por uma turbulência no início de ano. Esteve, até a última rodada da Taça Guanabara, ameaçado de entrar no quadrangular de rebaixamento. Os titulares tiveram de voltar antes do planejamento, e o início do ano não parece promissor. Mas era possível, dentro do cenário atual, ser diferente?

A contratação de Lucas Paquetá foi vista como um marco para o mercado sul-americano. Nenhum outro clube do continente jamais gastou algo parecido para tirar um jogador de uma liga grande da Europa. Jogador de seleção, que deve estar na próxima Copa do Mundo. Mas Paquetá, quatro jogos depois, já é cobrado por melhores performances. Dentro de um contexto competitivo que (ele, Paquetá) está distanciado há anos, em um elenco novo, com um novo modelo de jogo. 

Mas craque é craque, ganha muito e tem de se adaptar rapidamente a qualquer cenário, não é? Talvez, se não estivéssemos falando de humanos. 

Da Zona Sul do Rio para a Zona Norte, vimos o Vasco investir alto na contratação de Brenner. Não deu três jogos e o atacante já começou a ser vaiado em São Januário. Diniz, que foi exaltado por ter conseguido a histórica goleada contra o Santos e por ter alcançado a final da Copa do Brasil ano passado, já virou "burro". 

Aliás, essa palavra, no Brasil, é uma unanimidade entre os torcedores nas arquibancadas. A torcida do Remo já usa para definir Juan Carlos Osório, que chegou outro dia como a grande aposta para um retorno à Série A de sucesso. O elenco do Leão até foi montado para jogar como Osório quer. Mas será o Brasileirão o contexto competitivo ideal para isso? Há tempo para a incorporação de tanta cara nova, de um modelo de jogo completamente diferente? Tempo provavelmente não, e paz menos ainda. O Sport é a prova viva... 

Em São Paulo, a diretoria do Palmeiras, na verdade, poderia deixar já um espaço nos muros do CT separado para manifestações da torcida: Abel vai de herói a vilão semana sim, e outra também. Crespo, no São Paulo, é vítima de um duelo de narrativas: quando ganha, é a figura que salva o time de um bastidor tumultuado. Quando perde, é o grande responsável e o que é feito fora do campo já não importa tanto. Uma cortina de fumaça reversa. 

E se o Cruzeiro não ganhar do Mirassol hoje? Será que os quase 30 milhões de euros pagos em um jogador que foi insistência do técnico vão pesar pouco na balança na ânsia por uma mudança de rota abrupta? Ou o exemplo de Leonardo Jardim vai ter servido para algo?

E quanto tempo vai durar a paz de Ceni no Bahia? Quando Jair Ventura deixará de ser o técnico ideal para os times que lutam na parte inferior da tabela, e se tornar a âncora dessas equipes? Duelo de narrativas... Em uma sociedade com baixíssima tolerância à frustração, os efeitos são vistos também nos estádios.

O ano de 2026 no futebol brasileiro começa sem muitas novidades, é verdade. Mas com as velhas incoerências e as narrativas que navegam conforme a maré. No fim, a pergunta que mais deveria ser feita não sai da boca de ninguém: nessa turbulência toda, o espetáculo está sendo favorecido? Afinal, em 2026, o espetáculo que importa, de fato, é o circo do caos. No futebol e na sociedade... 

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