Jornal do Fla
·07 de maio de 2026
A experiência ficou mais importante do que o conteúdo

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·07 de maio de 2026


Há algum tempo, o público deixou de exigir presença. Hoje, basta o acontecimento. Talvez por isso o Neymar continue sendo um dos maiores personagens do futebol brasileiro mesmo quando não joga futebol. E talvez por isso multidões lotem shows de artistas pop que já não cantam de verdade no palco.
O espetáculo moderno parece ter feito um acordo silencioso com a ausência: ninguém cobra mais autenticidade integral, desde que a experiência continue rendendo vídeos, cortes, luzes e assunto para a internet no dia seguinte.
Antigamente, existia uma espécie de pacto artesanal entre artista e plateia. O cantor precisava cantar. O jogador precisava jogar. Havia o risco do erro, do improviso, da falha humana. Era justamente isso que tornava tudo fascinante. O público ia ao estádio para ver o craque resolver um jogo impossível. Ia ao show para ouvir aquela nota que talvez saísse perfeita… ou talvez não saísse. O encanto estava no ao vivo, no imprevisível.
Hoje, muitas vezes, o “ao vivo” virou apenas um detalhe técnico.
Nos shows pop contemporâneos, o que importa já não é exatamente a voz. É a entrada triunfal, a troca de roupa, o telão em LED, a coreografia sincronizada, a fumaça, os fogos, os vídeos para o TikTok. A voz pode estar escondida debaixo de vinte camadas de playback, autotune e VS. E curiosamente isso já não incomoda tanto. O fã não compra apenas música; ele compra proximidade simbólica. Compra o direito de dizer: “eu estava lá”.
Com Neymar acontece algo parecido.
Neymar comemora gol contra o México na Copa da Rússia. Foto: CBF / Divulgação
Muitas vezes, o torcedor já não espera necessariamente os noventa minutos de genialidade. Espera o personagem. Espera a chegada ao estádio, o aquecimento, o penteado novo, o vídeo da arquibancada quando ele olha para o telão, a possibilidade de um drible isolado que possa virar corte de rede social.
Mesmo lesionado, mesmo no banco, mesmo sem atuar, ele continua sendo o centro gravitacional do espetáculo.
As pessoas pagam para vê-lo existir.
É uma mudança profunda de comportamento. Antes, o ídolo precisava entregar performance. Hoje, basta entregar presença. O conteúdo substituiu a execução. O símbolo passou a valer mais que a prática.
Talvez isso explique por que tantas carreiras sobrevivem quase intactas apesar da ausência do elemento principal. A cantora já não precisa sustentar duas horas de voz ao vivo porque o show deixou de ser sobre canto. Neymar já não precisa jogar cinquenta partidas por temporada porque o futebol deixou de ser apenas futebol. Ambos operam numa lógica maior: a lógica da celebridade permanente.
E há uma sinceridade desconfortável nisso tudo. Os fãs sabem do playback. O torcedor sabe que Neymar provavelmente jogará pouco. E ainda assim comparecem. Compram ingresso. Defendem nas redes sociais. Lotam aeroportos. Porque, no fundo, talvez nunca tenha sido apenas sobre cantar ou jogar. Talvez sempre tenha sido sobre pertencimento.
O sujeito vai ao show para participar de uma liturgia coletiva. Vai ao estádio para dizer que viu Neymar de perto, mesmo que por quinze minutos. A experiência importa mais que a entrega técnica. É como se tivéssemos migrado da cultura da habilidade para a cultura da aura.
E Neymar talvez seja o grande símbolo brasileiro dessa transformação: um jogador que virou evento mesmo quando não há jogo. Quase como certas estrelas pop que fazem apresentações impecáveis sem precisar cantar uma única frase inteira ao vivo. No fim, ninguém parece realmente enganado. O público sabe exatamente o que está comprando.
E talvez isso seja o mais curioso de tudo.
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