A melhor explicação que consegui sobre o salário de R$ 500 mil no Grêmio
O Grêmio definiu uma nova política salarial para tentar reorganizar a folha do elenco. A direção trabalha com R$ 500 mil mensais como uma espécie de teto para novas contratações e também para algumas futuras renovações. A ideia lembra o movimento realizado por Romildo Bolzan no início de sua gestão, quando o clube também estabeleceu um limite para salários, mas existe uma diferença importante: agora o Grêmio admite exceções. Portanto, não significa que ninguém mais poderá receber acima dos R$ 500 mil. Jogadores considerados fundamentais, como Carlos Vinícius, poderão ultrapassar bastante essa faixa.
Na prática, eu vejo esses R$ 500 mil muito mais como uma base para a construção da nova folha do que como um teto absolutamente rígido. O Grêmio quer sair daquela realidade em que praticamente qualquer jogador de maior nome chegava custando R$ 800 mil, R$ 1 milhão ou mais. O clube enfrenta dificuldades financeiras, acumulou operações que deram errado tanto na gestão anterior quanto na atual e está justamente tentando retirar contratos pesados do elenco. Então, quando for ao mercado por um jogador que não seja considerado fora da curva, a conversa deve começar nesta faixa dos R$ 500 mil. É o fim daquele “show do milhão”, em que salários de sete dígitos começaram a virar quase uma regra dentro do futebol brasileiro.
Carlos Vinícius é um exemplo claro de como funcionarão as exceções. O centroavante recebe atualmente algo na faixa dos R$ 800 mil e dificilmente renovará por menos de R$ 1 milhão. O Grêmio já quitou aproximadamente R$ 8 milhões que estavam pendentes com o atleta e seu empresário justamente para chegar à negociação do novo contrato sem dívidas antigas na mesa. Existia uma cláusula de renovação automática que aumentaria um pouco os vencimentos, mas a própria direção entendeu que esse reajuste seria insuficiente para um jogador que recebeu sondagens e propostas muito superiores de outros clubes. Por isso, o novo acordo deverá representar uma valorização real. Minha projeção continua sendo de algo próximo de R$ 1,5 milhão mensais, talvez um pouco mais dependendo de luvas, direitos de imagem e outros componentes.
E faz sentido existir uma exceção nesse caso. Não adianta criar uma regra financeira e ignorar completamente o mercado. Se um dos principais jogadores do time recebe ofertas muito maiores e decide permanecer no Grêmio, o clube precisa encontrar um valor que também mantenha esse atleta motivado. O erro seria transformar essas exceções novamente em regra. Carlos Vinícius pode ganhar acima do teto porque é tratado como peça fundamental. O mesmo vale para contratos que já existem, como o do goleiro Weverton, na faixa dos R$ 800 mil. O Grêmio não vai simplesmente chegar ao jogador no meio do vínculo e cortar seu salário para R$ 500 mil.
A mudança deve aparecer com mais força nas próximas negociações. Pavón, por exemplo, recebe entre R$ 700 mil e R$ 800 mil, enquanto Amuzu está perto dos R$ 900 mil. Os dois têm contratos que precisarão ser discutidos e é justamente aí que a direção pretende aplicar essa nova lógica. Se quiserem permanecer, o Grêmio tentará construir acordos mais próximos dessa nova realidade financeira, sem repetir automaticamente os vencimentos atuais ou conceder grandes aumentos. Isso não significa que necessariamente ambos aceitarão, mas mostra que o clube não pretende continuar renovando contratos pesados simplesmente para manter jogadores no elenco.
E existe um argumento bastante interessante para sustentar essa política. Duas das contratações recentes que mais deram retorno ao Grêmio foram justamente jogadores baratos. Diego Caito chegou do Goiás recebendo aproximadamente R$ 75 mil mensais, enquanto Wallace, contratado junto ao CRB, está na casa dos R$ 30 mil. Evidentemente não significa que todo jogador barato vai dar certo e que basta contratar atletas de salários pequenos para montar um grande time. Mas mostra que salário alto não é sinônimo de qualidade e que existe mercado para encontrar boas alternativas sem comprometer milhões todos os meses.
Por isso talvez seja melhor imaginar a nova estrutura como uma pirâmide salarial. A maior parte do elenco ficaria até os R$ 500 mil. Alguns atletas mais valorizados poderiam chegar aos R$ 700 mil ou R$ 800 mil. E, no topo, ficariam pouquíssimos nomes realmente decisivos, como pode acontecer com Carlos Vinícius. Dessa maneira, o clube consegue premiar quem realmente entrega sem permitir que praticamente todo reforço chegue automaticamente com salário milionário.
Essa política também explica algumas decisões recentes. Arthur, por exemplo, teria uma exigência na casa dos R$ 2,5 milhões mensais para retornar, algo que o Grêmio não pretende bancar. Braithwaite também possui um contrato extremamente pesado e a direção gostaria de encontrar uma solução para reduzir esse custo. A prioridade agora é justamente retirar da folha aqueles compromissos que ficaram muito acima da capacidade financeira atual do clube.
A comparação com o período de Romildo é inevitável, mas existem diferenças. Naquela época, o teto de aproximadamente R$ 150 mil era praticamente inegociável. O Grêmio abriu mão de jogadores e recusou negócios por diferenças relativamente pequenas justamente porque entendia que quebrar a regra para um atleta faria toda a estrutura salarial perder sentido. Agora, a direção pretende ser mais flexível. Os R$ 500 mil serão uma referência, mas jogadores considerados realmente diferenciados poderão ultrapassar esse valor.
A estratégia faz sentido desde que o Grêmio tenha critério para definir quem merece estar acima dessa faixa. O problema dos últimos anos não foi simplesmente ter jogador ganhando R$ 1 milhão. Foi ter muitos jogadores recebendo cifras desse tamanho sem entregar futebol correspondente. Se Carlos Vinícius renovar por R$ 1,5 milhão e continuar decidindo partidas, existe uma justificativa esportiva. O que não pode acontecer é voltar a ter meia dúzia de jogadores nessa faixa apenas porque esse virou o preço normal para contratar qualquer nome conhecido.
O objetivo da direção, portanto, não é acabar completamente com os salários milionários. É acabar com a banalização deles. R$ 500 mil passa a ser a referência para a maior parte das negociações e qualquer valor significativamente acima disso precisará ter uma justificativa muito clara. Para um Grêmio que precisa reduzir custos e organizar as próprias contas, talvez esse seja um dos movimentos mais importantes dos próximos anos.