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·08 de março de 2026
A mística tricolor nas finais de Fla-Flu: quando o Fluminense transforma decisões em história

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Poucos jogos no futebol brasileiro carregam um peso simbólico tão grande quanto o confronto entre Fluminense Football Club e Clube de Regatas do Flamengo. O Fla-Flu não é apenas uma rivalidade esportiva. É um fenômeno cultural que atravessa gerações e molda a própria identidade do futebol carioca.
Para o torcedor tricolor, esse clássico tem um significado ainda mais particular quando vale título. A história mostra que, em momentos decisivos, o Fluminense frequentemente encontra forças que parecem desafiar a lógica do futebol.
Não se trata apenas de emoção ou memória afetiva. O retrospecto em decisões diretas reforça essa percepção: ao longo da história, o Fluminense conquistou mais títulos contra o Flamengo em finais, consolidando uma vantagem que ajuda a alimentar a confiança da torcida sempre que o clássico decide um campeonato.
Mas entender essa mística exige voltar mais de um século no tempo.
Uma rivalidade que nasceu da ruptura
O Fla-Flu começou com um episódio que já carregava tensão e drama.
Em 1911, uma crise interna no Fluminense provocou a saída de nove jogadores do elenco principal. O grupo decidiu se transferir para o Flamengo, clube que até então se dedicava apenas ao remo e ainda não tinha departamento de futebol.
A migração dos atletas permitiu que o rival montasse sua primeira equipe competitiva.
O primeiro encontro entre os clubes aconteceu em 7 de julho de 1912.
Mesmo sem vários titulares que haviam se transferido, o Fluminense venceu por 3 a 2. O primeiro gol da história do clássico foi marcado por Edward Calvert logo no primeiro minuto de jogo.
Aquele resultado inaugurou uma característica que acompanharia o Fla-Flu ao longo das décadas: a imprevisibilidade absoluta.
A vantagem tricolor nas decisões
A história das finais entre os dois clubes ajuda a explicar por que muitos tricolores enxergam o clássico como um terreno onde o Fluminense costuma crescer.
Desde o início do século XX, os clubes já decidiram títulos estaduais e outras competições em diversas oportunidades. Nesse recorte, o Fluminense construiu uma vantagem histórica em decisões diretas contra o Flamengo, conquistando mais títulos do que o rival quando os dois chegaram à final.
Esse histórico inclui conquistas importantes ao longo de várias gerações do clube, desde as primeiras décadas do futebol carioca até decisões recentes no Maracanã.
Entre os episódios mais marcantes estão:
1916 – O Fluminense venceu o Flamengo por 3 a 1 e conquistou o Campeonato Carioca na primeira final direta entre os clubes.
1919 – Outra decisão estadual terminou com vitória tricolor por 4 a 0, um dos placares mais expressivos da história do clássico.
Década de 1970 – O clube voltou a dominar decisões contra o rival e conquistou títulos estaduais em confrontos diretos que ficaram marcados na memória da torcida.
1983 e 1984 – O atacante Assis decidiu dois campeonatos consecutivos contra o Flamengo, marcando gols históricos que consolidaram sua idolatria nas Laranjeiras.
1995 – O episódio mais famoso do clássico moderno: o gol de barriga de Renato Gaúcho que deu o título carioca ao Fluminense.
2022 e 2023 – O clube voltou a vencer finais contra o rival, incluindo a virada histórica por 4 a 1 que garantiu o título estadual de 2023.
Ao observar essa sequência ao longo de diferentes gerações, a sensação de que o Fluminense cresce em decisões contra o Flamengo deixa de parecer apenas um discurso de torcida.
O Fla-Flu da Lagoa e o espírito de resistência
Entre todos os episódios que ajudaram a construir a mística tricolor, poucos são tão emblemáticos quanto a final do Campeonato Carioca de 1941.
O jogo aconteceu no estádio da Gávea e terminou empatado em 2 a 2, resultado que deu o título ao Fluminense.
Mas o que transformou aquela partida em lenda foi o drama vivido pelo goleiro Batatais.
Durante o jogo ele sofreu uma luxação na clavícula. Como as regras da época não permitiam substituições, precisou permanecer em campo mesmo praticamente sem conseguir movimentar o braço.
Ainda assim, resistiu até o final enquanto o time suportava a pressão do Flamengo.
A imagem de um goleiro lesionado defendendo o resultado virou um dos símbolos mais fortes da história do clube. Para muitos tricolores, ali nasceu a ideia de que o Fluminense possui uma capacidade especial de resistir em momentos de adversidade.
Nelson Rodrigues e a construção da mística
Grande parte da aura que envolve o Fla-Flu também foi moldada pelas crônicas de Nelson Rodrigues.
Torcedor apaixonado do Fluminense, o dramaturgo transformou o clássico em literatura. Foi ele quem escreveu uma das frases mais famosas da história do futebol brasileiro:
“O Fla-Flu começou quarenta minutos antes do nada.”
Nelson também criou a figura do Sobrenatural de Almeida, personagem imaginário que representaria as forças inexplicáveis que às vezes interferem em uma partida de futebol.
Nas crônicas do escritor, o Fluminense frequentemente aparecia como um clube capaz de desafiar o destino e encontrar soluções improváveis nos momentos mais difíceis.
Essas histórias ajudaram a transformar o Fla-Flu em algo maior do que um jogo.
O dia em que o Maracanã virou o templo do clássico
Se existe um palco capaz de representar a dimensão do Fla-Flu, ele é o Estádio do Maracanã.
Em 1963, o estádio recebeu o maior público da história do futebol entre clubes.
Na final do Campeonato Carioca daquele ano, 194.603 pessoas estiveram presentes para assistir ao clássico.
O número oficial de pagantes foi de 177.656 torcedores, mas muitos relatos indicam que o público real ultrapassou os 200 mil espectadores.
O recorde ajudou a eternizar a expressão “Clássico das Multidões”, usada até hoje para definir o encontro entre Fluminense e Flamengo.
1995: o gol que virou símbolo da rivalidade
Entre todos os capítulos do Fla-Flu, poucos são tão simbólicos quanto a final do Campeonato Carioca de 1995.
O Flamengo chegava como favorito absoluto. O clube celebrava seu centenário e tinha no elenco nomes como Romário, eleito o melhor jogador do mundo após a conquista da Copa de 1994.
O Fluminense atravessava um período difícil e era tratado como azarão.
A final parecia definida quando o jogo chegou aos minutos finais empatado em 2 a 2, resultado que daria o título ao Flamengo.
Até que, aos 42 minutos do segundo tempo, Aílton avançou pela direita e cruzou para a área. A bola desviou na barriga de Renato Gaúcho antes de entrar lentamente no gol.
O lance ficou eternizado como o gol de barriga.
Mais do que decidir um campeonato, aquele momento virou um símbolo da rivalidade e um dos episódios mais lembrados da história do futebol carioca.
O Fluminense que continua desafiando a lógica
Mais de cem anos depois do primeiro Fla-Flu, a história do clássico continua produzindo novos capítulos.
Nos últimos anos, o Fluminense voltou a superar o rival em decisões importantes.
O título carioca de 2022 marcou o reencontro do clube com a taça estadual diante do Flamengo. No ano seguinte, o time comandado por Fernando Diniz protagonizou um dos roteiros mais impressionantes da rivalidade.
Após perder o primeiro jogo da final por 2 a 0, o Fluminense goleou por 4 a 1 na volta e virou a decisão no Maracanã.
A vitória reforçou uma percepção que atravessa gerações de torcedores.
No Fla-Flu, principalmente quando vale título, o Fluminense costuma encontrar algo a mais.
Algo que mistura história, identidade e memória coletiva.
Algo que faz o torcedor acreditar que, mesmo diante do favoritismo do rival, sempre existe espaço para mais um capítulo improvável na história tricolor.
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